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	<title>Piagui - Culturalista &#187; Contos</title>
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	<description>O nome O Piagüí vem do Tupi, significa “rio dos peixes piaus”. Foi o primeiro nome dado pelos índios Tremembé ao estado do Piauí (berço da nossa marca cultural). O projeto Piagüí tem esse nome porque além de carregar a bandeira do culturalismo, valoriza as nossas origens e costumes,  favorecendo a cultura de um modo especial com conteúdo que desfila em todas as esferas da arte e da história. O Piagüí Culturalista, portanto, é um projeto agregador e não pertence a um pequeno grupo ou classe, é patrimônio do mundo.</description>
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		<title>Só mais um velho perdido na quimera (Parte II)</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 02:45:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
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		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Só mais um velho perdido na quimera (Parte II)]]></category>

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As vaidades de um ex-palhaço-professor
 
            Sou um velho vaidoso, nunca neguei isso para ninguém, aliás, quem de longe me vê tem esta mesma constatação: A forma com que falo e gesticulo, com olhar sempre altivo, contrastando com minha tez amorenada e cabelos brancos, muito brancos, e escassos, muito escassos&#8230;, tudo, tudo corrobora para o meu aspecto às vezes tosco, às vezes doente, às vezes asilado – ora, pouco me importo com o que pensam de mim, além de mim mesmo, é claro. O meu eu e o meu mim estão ...]]></description>
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<p align="center"><strong><em></em></strong></p>
<div id="attachment_4235" class="wp-caption alignleft" style="width: 229px"><img class="size-medium wp-image-4235" title="O-029-0316" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/07/O-029-0316-219x300.jpg" alt="Foto: Marvy" width="219" height="300" /><p class="wp-caption-text">Foto: Marvy</p></div>
<p align="center">As vaidades de um ex-palhaço-professor</p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">            Sou um velho vaidoso, nunca neguei isso para ninguém, aliás, quem de longe me vê tem esta mesma constatação: A forma com que falo e gesticulo, com olhar sempre altivo, contrastando com minha tez amorenada e cabelos brancos, muito brancos, e escassos, muito escassos&#8230;, tudo, tudo corrobora para o meu aspecto às vezes tosco, às vezes doente, às vezes asilado – ora, pouco me importo com o que pensam de mim, além de mim mesmo, é claro. O meu eu e o meu mim estão em eterno confronto, um querendo ser mais do que o outro. Pode?! Sou a antítese transmutada em gente! Sou vaidoso, pronto&#8230; E ponto final! Disse e está dito! Para os que não sabem, finjo ter medo de falar e jogo pó de arroz no que não sei. Faço aquilo que simplesmente me “dá na telha”, e se rasgo dinheiro ou o enterro em algum terreno alagadiço, acreditando florescer uma pirâmide só para mim, o problema é todinho meu, a loucura é todinha minha! Ora, a vaidade&#8230; Façam-me o favor&#8230; A vaidade é para os que a tem e não negam (como eu), uma virtude. Como todo bom virtuoso sabe exprimir, ou melhor, exibir os seus troféus, eis por que hoje os faço através de letras. A minha vaidade nunca me entorpeceu ao ponto de eu não enxergar as minhas incapacidades, e se há um elemento estranho que nesta vida possui vaidade daquilo que não possui, este elemento, me creiam, sou eu – em minhas veias não corre sangue, mas o leite santificado do altruísmo.<br />
            &#8211; Eita “baxim invocado” – brincavam os meus amigos de outras partes da nação, e que ali residiam também. Ora, eu nunca me envergonhei da minha estatura, muito menos da minha origem, afinal de contas, a maioria do povo que ali estava vinha das regiões mais pobres do país. Melhor: Foram os nordestinos que construíram aquele pedacinho de mundo. Era-me um orgulho, portanto, ser mais um deles, e melhor: Um dos que mais se “destacava” no “meio artístico”. Aquela capital era minha, mais do que de qualquer outro cidadão brasileiro que não do nordeste.<br />
            Conheci uma professora e ela, com o tempo, aprendeu, por força da convivência, e da minha insistência, ou, antes, lavagem cerebral, a enxergar meus dotes de artista. Não tardou constituirmos família: Tivemos dois filhos, uma menina e um rapaz. Com meus filhos crescendo e cada um rumando nas universidades, comecei a nutrir um sentimento contraditório: Por um lado, eu me orgulhava deles alcançarem o que nunca alcancei, por outro, eu não me perdoava de, por falta de estudo, ficar atrás; não me entrava na mente saber que aqueles a quem dei criação estariam por me superar, em breve eu perderia o respeito e eles descobririam que eu nada mais fui, a vida toda, do que uma grande farsa. Resolvi, então, estudar, e mais uma vez senti-me gente, privilegiado. Tratei de me matricular em uma universidade particular, porque particular, tendo dinheiro, se entra. Pronto, eu seria em breve um jornalista, porque jornalista é jornalista; é respeitado, é visto como intelectual; como homem de letras, ora todo bom homem de letras é sábio, é lídimo e competente. Já que eu pagava uma universidade para a minha filha, e já conhecia os donos do prédio, por que não estudar lá também?, assim pensei, e assim comecei minha carreira superior! Isso mesmo, SUPERIOR. Superior eu seria com o curso.<br />
            Na universidade, lembro como se fosse hoje, eu era o centro das atenções. Entre jovens, eu, o velho, arrancava a gargalhada de todos, afinal, a senectude tem um lado infantil que quando praticado na flor murcha da idade é sinônimo de palhaçada! Apesar do falso moralismo que eu defendia dentro de casa, fora, eu me transcendia em algazarra, chegando, inclusive, a vestir tanto a carapuça de palhaço que, como palhaço, certa vez, quis revolucionar: Adentrei uma sala de aula – cara pintada, peruca e vestido de cetim. Na ocasião, não lembro bem se eu estava estagiando como professor ou se eu estava ministrando um mini-curso, mas isso não importa. Os que me viam ficavam estáticos, entre a percepção se diante deles estava um louco ou um personagem da vida real frustrado pelas incertezas e ineficiências. Nem sei por que me vesti e fui para lá daquela maneira, lembro-me, porém, que tomado por um surto, tão próximo da esquizofrenia, enxerguei naquilo um ar filosófico, mas quando me dei por si, a besteira já tinha sido feita e a minha imagem já estava distorcida; acabei mesmo como um velho perdido na quimera, ou um insano qualquer, que deva ter fugido de um hospício.<br />
            Tudo isso não me abalou. Continuei com a mesma força, acreditando nas minhas venturas. Aquela experiência, infelizmente, não me fez um palhaço-professor, mas um professor-palhaço, e por isso perdi o respeito e acabei tendo de abandonar a minha primeira turma, da minha primeira experiência como docente. A vida tem dessas coisas, e nós temos sempre que aprender que em paliteiro alfinete não tem vez.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>J. Montenegro</strong></p>
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		<title>Só mais um velho perdido na quimera (Parte I)</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Jun 2010 19:17:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Só mais um velho perdido na quimera (Parte I)]]></category>

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“Sucessos” Artísticos
 
            Chamo-me Joaquim. Sou nordestino. Vim de uma família de muitos irmãos e de uma terra de pouca água. De todos, fui um dos raros que conseguiu se sobressair na vida, talvez porque, aliado à minha esperteza, percebi que eu poderia ter emprego fácil e bom na nova capital do País. E foi para lá que, bem cedo, rumei. Fiz concurso. No meio do chapadão, naquele longínquo tempo, concurso era a coisa mais fácil do mundo, quase ninguém tinha fé e para piorar as coisas a imprensa impregnava o ...]]></description>
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<p align="center"><strong><em></em></strong></p>
<div id="attachment_4085" class="wp-caption alignleft" style="width: 209px"><a href="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/06/O-homem-velho-de-Egon-Schiele.jpg"><img class="size-medium wp-image-4085" title="BE088000" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/06/O-homem-velho-de-Egon-Schiele-199x300.jpg" alt="O homem velho, de Egon Schiele" width="199" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">O homem velho, de Egon Schiele</p></div>
<p align="center">“Sucessos” Artísticos</p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">            Chamo-me Joaquim. Sou nordestino. Vim de uma família de muitos irmãos e de uma terra de pouca água. De todos, fui um dos raros que conseguiu se sobressair na vida, talvez porque, aliado à minha esperteza, percebi que eu poderia ter emprego fácil e bom na nova capital do País. E foi para lá que, bem cedo, rumei. Fiz concurso. No meio do chapadão, naquele longínquo tempo, concurso era a coisa mais fácil do mundo, quase ninguém tinha fé e para piorar as coisas a imprensa impregnava o resto do País com propagandas desvantajosas à nova sede do governo federal; a concentração e os melhores trabalhos ainda continuavam no Rio. Eu, como não tinha mesmo nada a perder, fiz o danado do tal concurso e passei. Qualquer um que naquele tempo tivesse feito a mesma coisa obteria resultados positivos, sem dúvida alguma. Repito: Passei! Tornei-me gente. Não é uma beleza?!<br />
            Depois de um tempo, conquistei respeito e os moradores da minha terra me rendiam admiração, principalmente a família, no entanto, o mesmo não ocorria na nova capital, afinal de contas, todos, ali, sabiam dos prejuízos, ineficiências e incapacidades de cada um – o jeito era continuar empurrando com a barriga todo o nosso mundo de fantasia.<br />
            &#8211; Olha lá, o venta de sovela! – referindo-se a mim, diziam os mineiros, mas eu não me importava. Como disse, eu queria era ser gente para o povo da minha terra. Queria era fugir da realidade nordestina.<br />
            O concurso que prestei não me exigiu muito estudo. Eu nem mesmo era formado, aliás, nunca havia feito ensino superior, mas quando passei pude ganhar bem, como um doutor, até. Era muita coisa para um pobre infeliz como eu, logo, não sabia como gastar, então me meti em muitas atividades. Andei até dando uma de ator e diretor de grupos de teatro e, em caravanas, rodei boa parte das cidades satélites, já que no plano piloto eu não faria grande diferença – lá o público era mais seleto e sabia, realmente, o que era uma obra de qualidade. Nas cidades periféricas, portanto, eu era um mito, um astro, e com tudo isso me ocorrendo, e com a velocidade que isso acontecia, eu me sentia o centro das atenções – qualquer boba apresentação era motivo de clamor (salvas e mais salvas de palmas). Para a minha maior felicidade, as grandes companhias e os grandes teatros estavam quilômetros e mais quilômetros de distância, e como diz o ditado: “em terra de cego, quem tem olho é rei”.<br />
            Com o tempo, vi que o teatro não bastava. O País vivia uma febre que se iniciou no Rio de Janeiro e seguiu para os demais estados: O cinema, ou melhor, o cinema amador; que contagiou o Brasil de ponta a ponta. Do meu lado, eu permanecia firme nas minhas peças teatrais, o teatro ainda me encantava, não seria um <em>Super-8 </em>que quebraria o encanto. Até que percebi, com a minha astúcia de sempre, que ator e diretor de teatro não eram assim lá grande coisa à frente daqueles que viriam receber o nome de “cineastas”, diziam até “cineastas das multidões”, e o título até que soava bem. Os cineastas eram a <em>coca-cola</em> do momento. Sendo isso, eu não seria apenas uma <em>fanta-uva</em>, mas, também, um cineasta “coca-cola”, antes mesmo que meus colegas ultrapassassem, em fama, os meus anseios de fortuna espiritual.<br />
              Juntei gente, pensei em cenários, bolei um roteiro e fui adiante. Paguei tudo e a todos para que fizessem do jeitinho que eu queria e o primeiro filme brotou como uma flor no meio de um roseiral, não tardou para o segundo e o terceiro botão de rosa aflorar, daí por diante&#8230; Em pouco tempo eu já estaria me gabando de ter produzido uma verdadeira cinemateca, como nenhum outro ali havia feito. Mais do que “coca-cola”, eu era a própria fórmula do sucesso, a fábrica de tesouros, enfim.<br />
            Vencida esta etapa de minha vida, eu teria de vencer mais outra: Fazer com que meus filmes, e meu nome, fossem respeitados no meio. Como a única forma de conquistar este respeito era vencendo os concursos de cinema amador que surgiam de tempos em tempos por aquelas bandas, resolvi eleger alguns dos meus melhores filmes, colocando-os à palmatória dos jurados. Foi-se o primeiro concurso, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto, e em nenhum fui, ao menos, condecorado com menção honrosa; parti para o plano “B”, que consistia na compra de votos da comissão julgadora. Assim feito, assim venci, assim apareci, assim me tornei, outra vez, gente, celebridade&#8230; E confesso, foi mais fácil que arrancar pirulito de criança! Em pouco tempo, meu nome se espalhou por todos os cantos, desagradando uma boa parte dos críticos de cinema que sabiam que havia, ali, algo errado, pois não era possível o que fiz e chamei de “curta-metragem” ganhar tantos prêmios. Eu, logicamente, me defendia, acusando que todos estavam blefando, falavam asneiras, eram invejosos, e a coisa mais certa que deviam fazer era estudar cinema antes de criticar. Eu, logicamente, nunca estudei, mas como a regra dita que todo tolo que tem dinheiro neste país é doutor, eu era mais um.<br />
              &#8211; “Grande Jota” – era o que diziam.<br />
               &#8211; “Grããande”, “Grããande” – levantando uma das mãos, eu respondia. </p>
<p align="center"><strong>J. Montenegro</strong></p>
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		<title>Surrealismo</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 03:30:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elmar carvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Elmar Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Surrealismo]]></category>

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              Quando voltei para casa, recebi a informação de que havia chegado uma encomenda para mim. Era uma encomenda vinda aparentemente de outro país, pelo tipo das estampas dos selos. O meu endereço estava correto, em caracteres normais, porém o endereçamento do remetente era feito em letras exóticas, que eu não conseguia decifrar. Não perdi tempo, tal era a minha curiosidade. Abri a embalagem, que fora preparada cuidadosamente, com forros macios para proteger o conteúdo. Em estojos separados, encontrei sete folhas de papel, de uma cor e textura que eu ...]]></description>
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<div id="attachment_3441" class="wp-caption alignleft" style="width: 165px"><img class="size-medium wp-image-3441" title="42-21522096" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/02/42-21522096-155x300.jpg" alt="Images.com/Corbis" width="155" height="300" /><p class="wp-caption-text">Images.com/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">              Quando voltei para casa, recebi a informação de que havia chegado uma encomenda para mim. Era uma encomenda vinda aparentemente de outro país, pelo tipo das estampas dos selos. O meu endereço estava correto, em caracteres normais, porém o endereçamento do remetente era feito em letras exóticas, que eu não conseguia decifrar. Não perdi tempo, tal era a minha curiosidade. Abri a embalagem, que fora preparada cuidadosamente, com forros macios para proteger o conteúdo. Em estojos separados, encontrei sete folhas de papel, de uma cor e textura que eu nunca havia visto, e sete lápis de cores diferentes, como as cores do arco-íris, nos quais não constava nenhuma marca de fabricante. Até então eu era um pintor considerado medíocre e que nunca fizera sucesso. Os críticos reconheciam que eu tinha uma boa técnica de desenho, com perfeita noção de proporcionalidade e perspectiva, e que sabia manejar as tintas habilmente, mas diziam que me faltava talento para a composição do todo, do conjunto, e alegavam que eu era demasiadamente academicista. De certa forma, admito que eles estavam certos, pois eu efetivamente detestava todas as vertentes modernistas, e sequer aceitava o expressionismo, o impressionismo, o cubismo, vários outros “ismos”, e tinha verdadeira aversão ao surrealismo. Examinei o presente cuidadosamente e depois os guardei nos estojos em que vieram. Após algum tempo, na parte da tarde, resolvi experimentar os lápis em um dos papéis. Imediatamente percebi que os lápis não deslizavam sobre o papel obedecendo a minha vontade, mas tomavam o caminho e as formas que eles próprios escolhiam. Também os lápis não funcionavam em outro tipo de papel e nem outros tipos de lápis deixavam marcas nas folhas que eu havia recebido. Em suma, os sete lápis só pintavam naquelas sete folhas de papel. Quando eu impunha minha vontade, simplesmente eles nada pintavam, de modo que docilmente lhes passei a fazer a vontade, deixando que eles seguissem por onde bem quisessem. Dessa forma, notei que cada lápis depunha sua cor em determinadas partes da tela, seguindo um desenho que a princípio eu não atinava sobre o que representava. O lápis seguinte procedia da mesma forma, sendo que, em certos pontos, as cores se sobrepunham, formando uma nova cor ou um sobretom. A partir do quarto lápis, a pintura e o desenho começavam a fazer sentido, e eu percebia que uma grande obra de arte, como eu nunca alcançara, estava sendo concebida. Ao final, uma pintura deslumbrante, onírica, surrealista, inaudita, de técnica e imaginação perfeitas, estava estampada na folha. Com as sete telas, passei a ser considerado um gênio do surrealismo. Nunca revelei o segredo sobre a gênese das obras, mesmo porque ninguém iria acreditar. Pensando melhor, talvez fosse uma boa jogada de marketing se eu tivesse falado a verdade, porque seria considerado louco, o que aumentaria a minha suposta genialidade. Ganhei fama, prestígio, dinheiro, mas nada mais produzi. Diante disso, resolvi encerrar minha carreira, e passei a dormir em berço esplêndido, coroado de louros e de glória.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Elmar Carvalho</strong></p>
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		<title>Recanto da superação</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Feb 2010 16:21:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Luciana Maria da Silva Souza]]></category>
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Certa vez, um homem bem resolvido na vida decide parar para pensar sobre como era de verdade sua vida. Viu que muito tinha conquistado e colhido todos os frutos que trabalho, o prazer, as pessoas que conviviam com ele já haviam lhe dado. O homem parou e pensou: &#8220;Acho que já obtive tudo nessa vida. Menos o  prazer  de não ser mandado por ninguém. Preciso ser o senhor da minha vida, não ser mais pau mandado. Ter poder sobre meus lucros sem precisar através do meu suor dar riquezas a quem não ...]]></description>
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<div id="attachment_3292" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-3292" title="42-19782329" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/02/42-19782329-300x200.jpg" alt="Foto: Bettmann/Corbis" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">Foto: Bettmann/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">Certa vez, um homem bem resolvido na vida decide parar para pensar sobre como era de verdade sua vida. Viu que muito tinha conquistado e colhido todos os frutos que trabalho, o prazer, as pessoas que conviviam com ele já haviam lhe dado. O homem parou e pensou: &#8220;Acho que já obtive tudo nessa vida. Menos o  prazer  de não ser mandado por ninguém. Preciso ser o senhor da minha vida, não ser mais pau mandado. Ter poder sobre meus lucros sem precisar através do meu suor dar riquezas a quem não me valoriza&#8221;. Nesse pensamento, o homem insistiu e abandonou seu emprego para viver próximo de seus parentes criando seu próprio negócio. Recebeu tudo que tinha de direito do seu antigo trabalho. Pois, entrou em um plano chamado de demissão voluntária sem causar nenhum dano  em seus direitos trabalhistas. Então,o homem começou a viver desses lucros que obteve como retorno de seus investimentos. Tudo ia bem, quando o homem encheu-se de arrogância e já não mais sabia os princípios básicos da vida. &#8220;Se és bom filho, será um ótimo pai&#8221; ou Honrar pai e mãe para ter vida longa e ainda um bem conhecido pelo homem &#8220;Tudo que sobe, tem que descer&#8221;. E o homem esqueceu-se de tudo que ele havia aprendido com a história de sua vida. Tinha trabalho, casa, dinheiro certo todos meses, uma bela família e tudo jogado fora por não querer precisar do próximo. O tempo passou e homem começou a perder tudo que havia conquistado. Já não tinha mais de onde tirar para sobreviver, vivendo da ajuda de parentes e mesmo assim continuava muito arrogante com as pessoas em sua volta e até mesmo com os que mais lhe ajudavam. Passados muitos anos de apertos e sobrevivendo de egoísmo, inveja e egocentrismo o homem viu que a vida estava lhe cobrando o que ela já havia lhe dado em abundância. Então mais uma vez o homem parou para pensar e começou a olhar para trás. Viu como ele era feliz com seu emprego, seus amigos de trabalho e ainda viu como era gostoso cada natal em família proporcionado pela cesta de natal oferecida pelo patrão. E no mesmo instante, ele comparou todos os outros anos depois de ter jogado tudo pro alto pela grande cobiça de lucros os quais faziam sua família e a de muitos sobreviverem de forma digna. Nesse mergulho ao nada que havia se transformado sua vida ele continuou morto para o trabalho por anos e anos subseqüentes a esses acontecimentos. Chegou ele a olhar para um lado para outro. Viu os pós e contra na sua atual vidinha e disse preciso me reencontrar com meu  verdadeiro eu. Tenho que fazer alguma coisa por minha família, como será o futuro de meus filhos se os que me ajudam me faltarem? Então ele aproximou-se de pessoas para lhe oferecer ajuda  com os conhecimentos que tinha por que verdade seja dita &#8220;O homem era muito sábio&#8221; e trocou tudo isso por uma chance de emprego. Logo ele conseguiu e com seu primeiro salário o homem levou a família para um passeio inesquecível. Levou a família a um lugar chamado recanto da superação. Era uma casa cheia de árvores e belas paisagens retratada em cada pintura dos quadros feitos por pessoas  que assim como ele, achavam que podiam viver isoladamente no mundo sem precisar da presença do outro, do amor, da ordem, da famosa cobrança por produtividade e crescimento dos lucros. Também viu que poderia sim ser feliz com o que a vida pudesse lhe dar ainda que fosse trabalhando e derramando seu suor para dar lucros aos outros. O homem  voltou a vida com dignidade e a certeza de que na vida tudo é possível se tens humildade, coragem, paciência e acima de tudo, amor ao próximo e a si mesmo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Luciana Maria da Silva Souza </strong></p>
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		<title>Cantiga de esponsais</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 03:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<category><![CDATA[Imagine a leitora que está em 1813]]></category>
		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>
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		<category><![CDATA[ouvindo uma daquelas boas festas antigas]]></category>
		<category><![CDATA[que eram todo o recreio público e toda a arte musical]]></category>

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                Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, ...]]></description>
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<div id="attachment_3157" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-3157" title="42-17563474" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/42-17563474-300x203.jpg" alt="Foto: Bruno Levy/Corbis" width="300" height="203" /><p class="wp-caption-text">Foto: Bruno Levy/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">                Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.<br />
                Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. &#8220;Quem rege a missa é mestre Romão&#8221; — equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: &#8220;Entra em cena o ator João Caetano&#8221;; — ou então: &#8220;O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias.&#8221; Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. Não que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.<br />
                Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.<br />
               — Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha.<br />
               — Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.<br />
               Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele&#8230;<br />
                Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor. Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas. Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: — a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada.<br />
                 E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começado três dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como ele a ela. Três dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma coisa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair. Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.<br />
                — Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.<br />
                — Sinhô comeu alguma coisa que fez mal&#8230;<br />
               — Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica&#8230;<br />
                O boticário mandou alguma coisa, que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que ele padecia do coração: — moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico.<br />
               — Para quê? disse o mestre. Isto passa.<br />
              O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança, apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, — outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final.<br />
              — Está acabado, pensava ele.<br />
               Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: — Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas&#8230;<br />
                Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo e não concluídas. E então teve uma idéia singular: — rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer coisa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.<br />
                — Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão&#8230;<br />
                O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dois casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.<br />
              — Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar&#8230;<br />
               Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá&#8230;.<br />
              — Lá, lá, lá&#8230;<br />
               Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.<br />
                — Lá, dó&#8230; lá, mi&#8230; lá, si, dó, ré&#8230; ré&#8230; ré&#8230;<br />
               Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma coisa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela para o lado dos casadinhos. Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.<br />
               — Lá&#8230; lá&#8230; lá&#8230;<br />
                Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Machado de Assis</strong></p>
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		<title>A biblioteca</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 03:00:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[A biblioteca]]></category>
		<category><![CDATA[Lima Barreto]]></category>

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                À proporção que avançava em anos, mais nítidas lhe vinham as reminiscências das cousas da casa paterna. Ficava ela lá pelas bandas da Rua do Conde, por onde passavam então as estrondosas e fagulhentas &#8220;maxambombas&#8221; da Tijuca. Era um casarão grande, de dois andares, rés-do-chão, chácara cheia de fruteiras, rico de salas, quartos, alcovas, povoado de parentes, contraparentes, fâmulos, escravos; e a escada que servia os dous pavimentos, situada um pouco além da fachada, a desdobrar-se em toda a largura do prédio, era iluminada por uma grande e larga ...]]></description>
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<div id="attachment_3153" class="wp-caption alignleft" style="width: 256px"><img class="size-medium wp-image-3153" title="42-23895317" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/42-23895317-246x300.jpg" alt="Foto: Jamie Grill/Tetra Images/Corbis" width="246" height="300" /><p class="wp-caption-text">Foto: Jamie Grill/Tetra Images/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">                À proporção que avançava em anos, mais nítidas lhe vinham as reminiscências das cousas da casa paterna. Ficava ela lá pelas bandas da Rua do Conde, por onde passavam então as estrondosas e fagulhentas &#8220;maxambombas&#8221; da Tijuca. Era um casarão grande, de dois andares, rés-do-chão, chácara cheia de fruteiras, rico de salas, quartos, alcovas, povoado de parentes, contraparentes, fâmulos, escravos; e a escada que servia os dous pavimentos, situada um pouco além da fachada, a desdobrar-se em toda a largura do prédio, era iluminada por uma grande e larga clarabóia de vidros multicores. Todo ele era assoalhado de peroba de Campos, com vastas tábuas largas, quase da largura da tora de que nasceram; e as esquadrias, portas, janelas, eram de madeira de lei. Mesmo a cocheira e o albergue da sege eram de boa madeira e tudo coberto de excelentes e pesadas telhas. Que cousas curiosas havia entre os seus móveis e alfaias? Aquela mobília de jacarandá-cabiúna com o seu vasto canapé, de três espaldares, ovalados e vastos, que mais parecia uma cama que mesmo um móvel de sala; aqueles imensos consolos, pesados, e ainda mais com aqueles enormes jarrões de porcelana da India que não vemos mais; aqueles desmedidos retratos dos seus antepassados, a ocupar as paredes de alto abaixo—onde andava tudo aquilo? Não sabia&#8230; Vendera ele, aqueles objetos? Alguns; e dera muitos.<br />
                Umas cousas, porém, ficaram com o irmão que morrera cônsul na Inglaterra e lá deixara a prole; outras, com a irmã que se casara para o Pará&#8230; Tudo, enfim, desaparecera. O que ele estranhava ter desaparecido eram as alfaias de prata, as colheres, as facas, o coador de chá&#8230; E o espevitador de velas? Como ele se lembrava desse utensílio obsoleto, de prata!<br />
               Era com ternura que se recordava dele, nas mãos de sua mãe, quando, nos longos serões, na sala de jantar, à espera do chá—que chá!—ele o via aparar os morrões das velas do candelabro, enquanto ela, sua mãe, não interrompia a história do Príncipe Tatu, que estava contando&#8230;<br />
               A tia Maria Benedita, muito velha, ao lado, sentada na estreita cadeira de jacarandá, tendo o busto ereto, encostado ao alto espaldar, ficava do lado, com os braços estendidos sobre os da cadeira, o tamborete aos pés, olhando atenta aquela sessão familiar, com o seu agudo olhar de velha e a sua hierática pose de estátua tebana tumular. Eram os nhonhôs e nhanhãs, nas cadeiras; e as crias e molecotes acocorados no assoalho, a ouvir&#8230; Era menino&#8230;<br />
              O aparelho de chá, o usual, o de todo o dia, como era lindo! Feito de uma louça negra, com ornatos em relevo, e um discreto esmalte muito igual de brilho—donde viera aquilo? Da China, da India?<br />
                E a gamela de bacurubu em que a Inácia, a sua ama, lhe dava banho—onde estava? Ah! As mudanças! Antes nunca tivesse vendido a casa paterna&#8230;<br />
               A casa é que conserva todas as recordações de família. Perdida que seja, como que ela se vinga fazendo dispersar as relíquias familiares que, de algum modo, conservavam a alma e a essência das pessoas queridas e mortas&#8230; Ele não podia, entretanto, manter o casarão&#8230; Foi o tempo, as leis, o progresso&#8230;<br />
               Todos aqueles trastes, todos aqueles objetos, no seu tempo de menino, sem grande valia, hoje valeriam muito&#8230; Tinha ainda o bule do aparelho de chá, um escumador, um guéridon com trabalho de embutido&#8230; Se ele tivesse (insistia) conservado a casa, tê-los-ia todos hoje, para poder rever o perfil aquilino, duro e severo do seu pai, tal qual estava ali, no retrato de Agostinho da Mota, professor de academia; e também a figurinha de Sèvres que era a sua mãe em moça, mas que os retratistas da terra nunca souberam pôr na tela. Mas não pôde conservar a casa&#8230; A constituição da família carioca foi insensivelmente se modificando; e ela era grande demais para a sua. De resto, o inventário, as partilhas, a diminuição de rendas, tudo isso tirou-a dele. A culpa não era sua, dele, era da marcha da sociedade em que vivia&#8230;<br />
               Essas recordações lhe vinham sempre e cada vez mais fortes, desde os quarenta e cinco anos; estivesse triste ou alegre, elas lhe acudiam. Seu pai, o Conselheiro Fernandes Carregal, tenente-coronel do Corpo de Engenheiros e lente da Escola Central, era filho do sargento-mor de engenharia e também lente da Academia Real Militar que o Conde de Linhares, ministro de Dom João VI, fundou em 1810, no Rio de Janeiro, com o fim de se desenvolverem entre nós os estudos de ciências matemáticas, físicas e naturais, como lá diz o ato oficial que a instituiu. Desta academia todos sabem como vieram a surgir a atual Escola Politécnica e a extinta Escola Militar da Praia Vermelha. O filho de Carregal, porém, não passara por nenhuma delas; e, apesar de farmacêutico, nunca se sentira atraído pela especialidade dos estudos do pai. Este dedicara-se, a seu modo e ao nosso jeito, à Química. Tinha por ela uma grande mania&#8230; bibliográfica. A sua biblioteca a esse respeito era completa e valiosa. Possuía verdadeiros &#8220;incunábulos&#8221;, se assim se pode dizer, da química moderna. No original ou em tradução, lá havia preciosidades. De Lavoisier, encontravam-se quase todas as memórias, além do seu extraordinário e sagacíssimo Traité Élémentaire de Chimie, présenté dans un ordre et d&#8217;après les découvertes modernes.<br />
               O velho lente, no dizer do filho, não podia pegar nesse respeitável livro que não fosse tomado de uma grande emoção.<br />
               — Veja só meu filho, como os homens são maus! Lavoisier publicou esta maravilhosa obra no início da Revolução, a qual ele sinceramente aplaudiu&#8230; Ela o mandou para o cadafalso—sabe você por quê?<br />
               — Não, papai.<br />
              — Porque Lavoisier tinha sido uma espécie de coletor ou cousa parecida no tempo do rei. Ele o foi, meu filho, para ter dinheiro com que custeasse as suas experiências. Veja você como são as cousas e como é preciso ser mais do que homem para bem servir aos homens&#8230;<br />
               Além desta gema que era a sua menina dos olhos, o Conselheiro Carregal tinha também o Proust, Novo Sistema de Filosofia Química; o Priestley, Expériences sur les différentes espèces d&#8217;air; as obras de Guyton de Morveau; o Traité de Berzelius, tradução de Hoefer e Esslinger; a Statique Chimique do grande Berthollet; a Química Orgânica de Liebig, tradução de Gerhardt—todos livros antigos e sólidos, sendo dentre eles o mais moderno as Lições de Filosofia Química, de Würtz, que são de 1864; mas, o estado do livro dava a entender que nunca tinham sido consultadas. Havia mesmo algumas obras de alquimia, edições dos primeiros tempos da tipografia, enormes, que exigem ser lidas em altas escrivaninhas, o leitor de pé, com um burel de monge ou nigromante; e, entre os desta natureza, lá estava um exemplar do—Le Livre des Figures Hiéroglyphiques que a tradição atribui ao alquimista francês Nicolau Flamel.<br />
              Sobravam, porém, além destes, muitos outros livros de diferente natureza, mas também preciosos e estimáveis: um exemplar da Geometria de Euclides, em latim, impresso em Upsal, na Suécia, nos fins do século XVI; os Principia de Newton, não a primeira edição, mas uma de Cambridge muito apreciada; e as edições princeps da Méchanique Analytique, de Lagrange, e da Géométrie Descriptive, de Monge.<br />
              Era uma biblioteca rica assim de obras de ciências físicas e matemáticas que o filho do Conselheiro Carregal, há quarenta anos para cinqüenta, piedosamente carregava de casa em casa, aos azares das mudanças desde que perdera o pai e vendera o casarão em que ela quietamente tinha vivido durante dezena de anos, a gosto e à vontade.<br />
              Poderão supor que ela só tivesse obras dessa especialidade; mas tal não acontecia. Havia as de outros feitios de espírito. Encontravam-se lá os clássicos latinos; a Voyage autour du Monde de Bougainville; uma Nouvelle Héloise, de Rousseau, com gravuras abertas em aço; uma linda edição dos Lusíadas, em caracteres elzevirianos; e um exemplar do Brasil e a Oceania, de Gonçalves Dias, com uma dedicatória, do próprio punho do autor, ao Conselheiro Carregal.<br />
              Fausto Carregal, assim era o nome do filho, até ali nunca se separara da biblioteca que lhe coubera como herança. Do mais que herdara, tudo dissipara, bem ou mal; mas os livros do conselheiro, ele os guardara intatos e conservados religiosamente, apesar de não os entender. Estudara alguma cousa, era até farmacêutico, mas sempre vivera alheado do que é verdadeiramente a substância dos livros— o pensamento e a absorção da pessoa humana neles.<br />
              Logo que pôde, arranjou um emprego público que nada tinha a ver com o seu diploma, afogou-se no seu ofício burocrático, esqueceu-se do pouco que estudara, chegou a chefe de seção, mas não abandonou jamais os livros do pai que sempre o acompanharam, e as suas velhas estantes de vinhático com incrustação de madrepérola.<br />
                A sua esperança era que um dos seus filhos os viesse a entender um dia; e todo o seu esforço de pai sempre se encaminhou para isso. O mais velho dos filhos, o Álvaro, conseguiu ele matriculá-lo no Pedro II; mas logo, no segundo ano, o pequeno meteu-se em calaçarias de namoros, deu em noivo e, mal fez dezoito anos, empregou-se nos correios, praticante pro rata, casando-se daí em pouco. Arrastava agora uma vida triste de casal pobre, moço, cheio de filhos, mais triste era ele ainda porquanto, não havendo alegria naquele lar, nem por isso havia desarmonia. Marido e mulher  puxavam o carro igualmente&#8230;<br />
               O segundo filho não quisera ir além do curso primário. Empregara-se logo em um escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e andava pelas tolas festas domingueiras de sport, com umas calças sungadas pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota.<br />
               A filha casara-se com um empregado da Câmara Municipal de Niterói e lá vivia.<br />
               Restava-lhe o filho mais moço, o Jaime, tão bom. tão meigo e tão seu amigo, que lhe pareceu, quando veio ao mundo, ser aquele que estava destinado a ser o inteligente, o intelectual da família, o digno herdeiro do avô e do bisavô.<br />
               Mas não foi; e ele se lembrava agora como recomendava sempre à mulher, nos primeiros anos de vida do caçula, ao ir para a repartição:<br />
               — Irene, cuida bem do Jaime! Ele é que vai ler os papéis do meu pai.<br />
                Porque o pequeno, em criança, era tão doentinho, tão mirrado, apesar dos seus olhos muito claros e vivos, que o pai temia fosse com ele a sua última esperança de um herdeiro capaz da biblioteca do conselheiro.<br />
               Jaime tinha nascido quando o mais velho entrava nos doze anos; e o inesperado daquela concepção alegrava-lhe muito, mas inquietara a mãe.<br />
                Pelos seus quatro anos de idade, Fausto Carregal já tinha podido ver o desenvolvimento dos dous outros seus filhos varões e havia desesperado de ver qualquer um deles entender, quer hoje ou amanhã, os livros do avô e do bisavô, que jaziam limpos, tratados, embalsamados, nos jazigos das prateleiras das estantes de vinhático, à espera de uma inteligência, na descendência dos seus primeiros proprietários, para de novo fazê-los voltar à completa e total vida do pensamento e da atividade mental fecunda.<br />
               Certo dia, lembrando-se de seu pai em face das esperanças que depositava no seu filho temporão, Fausto Carregal considerou que, apesar do amor de seu progenitor à Química, nunca ele o vira com éprourettes, com copos graduados, com retortas. Eram só livros que ele procurava. Como os velhos sábios brasileiros, seu pai tinha horror ao laboratório, à experiência feita com as suas mãos, ele mesmo&#8230;<br />
               O seu filho, porém, o Jaime, não seria assim. Ele o queria com o maçarico, com o bico de Bunsen, com a baqueta de vidro, com o copo de laboratório&#8230;<br />
               — Irene tu vais ver como o Jaime vai além do avô! Fará descobertas.<br />
               Sua mulher, entretanto, filha de um clínico que tivera fama quando moço, não tinha nenhum  entusiasmo por essas cousas. A vida, para ela, se resumia em viver o mais simplesmente possível. Nada de grandes esforços, ou mesmo de pequenos, para se ir além do comum de todos; nada de escaladas, de ascensões; tudo terra-a-terra, muito cá embaixo&#8230; Viver, e só! Para que sabedorias? Para que nomeadas? Quase nunca davam dinheiro e quase sempre desgostos. Por isso, jamais se esforçou para que os seus filhos fossem além do ler, escrever e contar; e isso mesmo a fim de arranjarem um emprego que não fosse braçal, pesado ou senil.<br />
               O Jaime cresceu sempre muito meigo, muito dócil, muito bom; mas com venetas estranhas. Implicava com uma vela acesa em cima de um móvel porque lhe pareciam os círios que vira em torno de um defunto, na vizinhança; quando trovejava ficava a um canto calado, temeroso; o relampago fazia-o estremecer de medo, e logo após, ria-se de um modo estranho&#8230; Não era contudo doente; com o crescimento, até adquirira certa robustez. Havia noites, porém, em que tinha uma espécie de ataque, seguido de um choro convulso, uma cousa inexplicável que passava e voltava sem causa, nem motivo. Quando chegou aos sete anos, logo o pai quis pôr-lhe na mão a cartilha, porquanto vinha notando com singular satisfação a curiosidade do filho pelos livros, pelos desenhos e figuras, que os jornais e revistas traziam. Ele os contemplava horas e horas, absorvido, fixando nas gravuras os seus olhos castanhos, bons, leais&#8230;<br />
              Pôs-lhe a cartilha na mão:<br />
              — &#8220;A-e-i-o-u&#8221;—diga: &#8220;a&#8221;.<br />
              O pequeno dizia: &#8220;a&#8221;; o pai seguia: &#8220;e&#8221;; Jaime repetia: &#8220;e&#8221;; mas quando chegava a &#8220;o&#8221;, parecia que lhe invadia um cansaço mental, enfarava-se subitamente, não queria mais atender, não obedecia mais ao pai e, se este insistia e ralhava, o filho desatava a chorar:<br />
             — Não quero mais, papaizinho! Não quero mais!<br />
             Consultou médicos amigos. Aconselharam-no esperar que a criança tivesse mais idade. Aguardou mais um ano, durante o qual, para estimular o filho, não cessava de recomendar:<br />
              —Jaime, você precisa aprender a ler. Quem não sabe ler, não arranja nada na vida.<br />
              Foi em vão. As cousas se vieram a passar como da primeira vez. Aos doze anos, contratou um professor paciente, um velho empregado público aposentado, no intuito de ver se instilava inteligência do filho o mínimo de saber ler e escrever. O professor começou com toda a paciência e tenacidade; mas, a criança que era incapaz de ódio até ali, perdeu a doçura, a meiguice para com o professor.<br />
             Era falar-lhe no nome, a menos que o pai estivesse presente, ele desandava em descomposturas, em doestes, em sarcasmos ao físico e às maneiras do bom velho. Cansado, o antigo burocrata, ao fim de dous anos, despediu-se tendo conseguido que Jaime soletrasse e contasse alguma cousa.<br />
             Carregal meditou ainda um remédio, mas não encontrou. Consultou médicos, amigos, conhecidos. Era um caso excepcional; era um caso mórbido esse de seu filho. Remédio, se um houvesse, não existia aqui; só na Europa&#8230; Não podia, o pequeno, aprender bem, nem mesmo ler, escrever, contar!&#8230; Oh! Meu Deus!<br />
              A conclusão lhe chegou sem choque, sem nenhuma brusca violência; chegou sorrateiramente, mansamente, pé ante pé, devagar, como uma conclusão fatal que era.<br />
              Tinha o velho Carregal, por hábito, ficar na sala em que estavam os livros e as estantes do pai, a ler, pela manhã, os jornais do dia. Ã proporção que os anos se passavam e os desgostos aumentavam-lhe n&#8217;alma, mais religiosamente ele cumpria essa devoção à memória do pai. Chorava às vezes de arrependimento, vendo aquele pensamento todo, ali sepultado, mas ainda vivo, sem que entretanto pudesse fecundar outros pensamentos&#8230; Por que não estudara?<br />
             Dava-se assim, com aquela devoção diária, a ele mesmo, a ilusão de que, se não compreendia aqueles livros profundos e antigos, os respeitava e amava como a seu pai, esquecido de que para amá-los sinceramente era preciso compreendê-los primeiro. São deuses os livros, que precisam ser analisados, para depois serem adorados; e eles não aceitam a adoração senão dessa forma&#8230;<br />
             Naquela manhã, como de costume, fora para a sala dos livros, ler os jornais; mas não os pôde ler logo.<br />
              Pôs-se a contemplar os volumes nas suas molduras de vinhático. Viu o pai, o casarão, os moleques, as mucamas, as crias, o fardão do seu avô, os retratos&#8230; Lembrou-se mais fortemente de seu pai e viu-o lendo, entre aquelas obras, sentado a uma grande mesa, tomando de quando em quando rapé, que ele tirava às pitadas de uma boceta de tartaruga, espirrar depois, assoar-se num grande lenço de Alcobaça, sempre lendo, com o cenho carregado, os seus grandes e estimados livros.<br />
                As lágrimas vieram aos olhos daquele velho e avô. Teve de sustê-las logo. O filho mais novo entrava na dependência da casa em que ele se havia recolhido. Não tinha Jaime, porém, por esse tempo, um olhar de mais curiosidade para aqueles veneraveis volumes avoengos. Cheio dos seus dezesseis anos, muito robusto, não havia nele nem angústias, nem dúvidas. Não era corroído pelas idéias e era bem nutrido pela limitação e estreiteza de sua inteligência. Foi logo falando, sem mais detença, ao pai:<br />
               — Papai, você me dá cinco mil-réis, para eu ir hoje ao football.<br />
               O velho olhou o filho. Olhou a sua adolescência estúpida e forte, olhou seu mau feitio de cabeça; olhou bem aquele último fruto direto de sua carne e de seu sangue; e não se lembrou do pai. Respondeu:<br />
              — Dou, meu filho. Dentro em pouco, você terá.<br />
              E em seguida como se acudisse alguma cousa deslembrada que aquelas palavras lhe fizeram surgir à tona do pensamento, acrescentou com pausa:<br />
              — Diga a sua mãe que me mande buscar na venda uma lata de querosene, antes que feche. Não se esqueça, está ouvindo!<br />
              Era domingo. Almoçaram. O filho foi para o football; a mulher foi visitar a filha e os netos, em Niterói; e o velho Fausto Carregal ficou só em casa, pois a cozinheira teve também folga.<br />
              Com os seus ainda robustos setenta anos, o velho Fausto Fernandes Carregal, filho do tenente-coronel de engenharia, Conselheiro Fernandes Carregal, lente da Escola Central, tendo concertado mais uma vez o seu antigo covaignac inteiramente branco e pontiagudo, sem tropeço, sem desfalecimento, aos dous aos quatro, aos seis, ele só, sacerdotalmente, ritualmente, foi carregando os livros que tinham sido do pai e do avô para o quintal da casa. Amontoou-os em vários grupos, aqui e ali, untou de petróleo cada um, muito cuidadosamente, e ateou-lhes fogo sucessivamente.<br />
              No começo a espessa fumaça negra do querosene não deixava ver bem as chamas brilharem; mas logo que ele se evolou, o clarão delas, muito amarelo, brilhou vitoriosamente com a cor que o povo diz ser a do desespero…</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Lima Barreto</strong></p>
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		<title>Os óculos</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 03:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Clarice]]></category>
		<category><![CDATA[Dr. Ximenes]]></category>
		<category><![CDATA[Olavo Bilac]]></category>
		<category><![CDATA[os óculos]]></category>

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              O velho e austero doutor Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, tem uma espinhosa missão a cumprir junto da pálida e formosa Clarice&#8230; Vai examiná-la: vai dizer qual a razão da sua fraqueza, qual a origem daquele depauperamento, daquela triste agonia de flor que murcha e se estiola.
              A bela Clarice!&#8230; É casada há seis meses com o gordo João Paineiras, o conhecido corretor de fundos, — o João dos óculos —, como o chamam na Praça por causa daqueles grossos e pesados óculos de ouro que ...]]></description>
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<div id="attachment_3149" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-3149" title="42-19396154" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/42-19396154-300x200.jpg" alt="Foto: Andrew Kent/Corbis" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">Foto: Andrew Kent/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">              O velho e austero doutor Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, tem uma espinhosa missão a cumprir junto da pálida e formosa Clarice&#8230; Vai examiná-la: vai dizer qual a razão da sua fraqueza, qual a origem daquele depauperamento, daquela triste agonia de flor que murcha e se estiola.<br />
              A bela Clarice!&#8230; É casada há seis meses com o gordo João Paineiras, o conhecido corretor de fundos, — o João dos óculos —, como o chamam na Praça por causa daqueles grossos e pesados óculos de ouro que nunca deixam o seu forte nariz de ventas cabeludas. Há seis meses ela mingua, e emagrece, e tem na face a cor da cera das promessas de igreja — a bela Clarice. E — ó espanto! — quanto mais fraca vai ficando ela, mais forte vai ficando ele, o João dos óculos, — um latagão que vende saúde aos quilos. Assusta-se a família da moça. Ele, com seu imenso sorriso, vai dizendo que não sabe&#8230; que não compreende&#8230; porque, enfim, — que diabo! — se a culpa fosse sua, ele também estaria na espinha&#8230;<br />
              E é o velho e austero Dr. Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, um poço de ciência e discrição, quem vai esclarecer o mistério. Na sala, a família ansiosa espia com rancor a gorda face do João impassível. E na alcova, demorado e minucioso exame continua.<br />
              Já o velho doutor, com a cabeça encanecida sobre a pele nua do peito da enferma, auscultou longamente os seus pulmões delicados: já, levemente apertando entre os dedos aquele punho macio e branco, tateou o pulso, tênue como um fio de seda&#8230; Agora, com o olhar arguto, percorre a pele da bela Clarice — branca e cheirosa pele — o colo, a cinta, o resto&#8230; De repente — que é aquilo que o velho e austero doutor percebe na pele, abaixo&#8230; abaixo&#8230; abaixo do ventre?&#8230; Leves escoriações, quase imperceptíveis arranhaduras avultam aqui e ali vagamente&#8230; nas coxas&#8230;<br />
              O velho e austero doutor Ximenes funga uma pitada, coça a calva, olha fixamente os olhos da sua doente, toda alvoroçada de pudor:<br />
              — Isto que é, filha? Pulgas? Unhas de gato?<br />
              E a bela Clarice, toda de confusão, enrolando-se no penteador de musselina como n’uma nuvem, balbucia, corando:<br />
              — Não! Não é nada&#8230; não sei&#8230; isto é&#8230; talvez seja dos óculos do João&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Olavo Bilac</strong></p>
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		<title>A carteira</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 03:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[A carteira]]></category>
		<category><![CDATA[Horácio]]></category>
		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>

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               &#8230; De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
               &#8211; Olhe, se não dá por ela; perdia a de uma vez. 
               - É verdade, concordou Honório envergonhado.
               Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A ...]]></description>
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<div id="attachment_3145" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-3145" title="AX050741" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/AX050741-300x236.jpg" alt="Foto: David Michael Zimmerman/CORBIS" width="300" height="236" /><p class="wp-caption-text">Foto: David Michael Zimmerman/CORBIS</p></div>
<p style="text-align: justify;">               &#8230; De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:<br />
               &#8211; Olhe, se não dá por ela; perdia a de uma vez. <br />
               - É verdade, concordou Honório envergonhado.<br />
               Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem se, e os jantares a comerem se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.                                         <br />
             &#8211; Tu agora vais bem, não? Dizia-lhe ultimamente o Gustavo C&#8230;, advogado e familiar da casa.<br />
              &#8211; Agora vou, mentiu o Honório.<br />
              A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.<br />
               D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.           <br />
              Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou lhe o que era.<br />
            &#8211; Nada, nada.                                                      <br />
            Compreende se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.<br />
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou a, meteu no bolso, e foi andando.                       <br />
              Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, –enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava lhe se podia utilizar se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.<br />
               Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos mil réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar se ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.<br />
              Mas daí a pouco tirou a outra vez, e abriu a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu se e contou: eram setecentos e trinta mil réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo&#8230; Honório teve pena de não crer nos anjos&#8230; Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do acha do, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.<br />
              &#8220;Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar me do dinheiro,&#8221; pensou ele.<br />
              Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?&#8230; Examinou a por fora, e pareceu lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.<br />
              A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar  que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.                                          <br />
              &#8220;Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer.&#8221;<br />
              Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.<br />
             &#8211; Nada.<br />
             &#8211; Nada?<br />
             &#8211; Por quê?<br />
              &#8211; Mete a mão no bolso; não te falta nada?<br />
               - Falta me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.     <br />
Sabes se alguém a achou?<br />
              &#8211; Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.<br />
              Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amar gamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu lhe as explicações precisas.<br />
              &#8211; Mas conheceste-a?<br />
              &#8211; Não; achei os teus bilhetes de visita.<br />
              Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Machado de Assis</strong></p>
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		<title>Ao bater da meia noite</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 03:00:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Ao bater da meia noite]]></category>
		<category><![CDATA[Diogo Ramalho]]></category>
		<category><![CDATA[Maranhão]]></category>
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              Há muito tempo, numa ilha do rio Parnaíba, no interior do Estado do Piauí, minha tia-avó, que tinha apenas seis anos, todos os dias ia com minha bisavó para a casa de um professor; minha bisavó trabalhava como doméstica na casa desse professor. Pois bem, minha bisavó morava na beira de um igarapé e o seu patrão morava às margens do rio, e costumava levar minha bisavó e minha tia-avó para casa de lancha, porque de caminhada eram dez quilômetros, elas chegavam sempre perto da meia noite em casa, ...]]></description>
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<div id="attachment_3135" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-3135" title="42-19894360" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/42-19894360-300x201.jpg" alt="Foto: Sunset Boulevard/Corbis" width="300" height="201" /><p class="wp-caption-text">Foto: Sunset Boulevard/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">              Há muito tempo, numa ilha do rio Parnaíba, no interior do Estado do Piauí, minha tia-avó, que tinha apenas seis anos, todos os dias ia com minha bisavó para a casa de um professor; minha bisavó trabalhava como doméstica na casa desse professor. Pois bem, minha bisavó morava na beira de um igarapé e o seu patrão morava às margens do rio, e costumava levar minha bisavó e minha tia-avó para casa de lancha, porque de caminhada eram dez quilômetros, elas chegavam sempre perto da meia noite em casa, coisa que incomodava meu bisavô que sempre avisava:<br />
              &#8211; Um dia o lobisomem pega vocês pelo caminho do igarapé.<br />
               Pois bem, numa certa noite o professor teve de ficar até mais tarde na escola em que lecionava e sua esposa não queria deixar minha querida bisavó ir para casa a pé, mas a minha bisa insistiu tanto que acabou convencendo a mulher deixá-la partir com a pequenina criança segurando na barra de sua saia, o caminho não era o que chamamos de movimentado e a iluminação era precária, as duas iam caminhando tranquilas e calmas quando, de repente&#8230; (Eu li em algum livro que quando algo importante está para acontecer em uma história, o melhor que se tem a fazer é mudar de assunto para fazer suspense).<br />
              Então, de repente, elas viram algo grande e peludo no meio do caminho, minha bisavó, que era uma pessoa de grande vivência, olhou fixamente para aquela criatura no escuro e viu quando ela se virou em direção das duas, era o lobisomem, seu marido havia acertado no comentário, minha bisavó colocou sua filha do seu lado, lado oposto de onde se encontrava a fera, e com uma das mãos pegou seu punhal, que trazia presa à saia, foi andando bem no meio do caminho, o som dos cotovelos do lobisomem era de assustar, pois suas patas faziam um som estranho no chão de paralelepípedos, até que, de repente, o lobisomem começou a andar mais devagar e deixou as duas avançarem um pouco, ele passou para o outro lado, o lado onde estava minha pobre tia-avó que era apenas uma criancinha, sabiamente ela passou para o lado oposto, ele passou para o outro lado novamente usando do mesmo procedimento, deixando elas irem na frente e passando por suas costas e indo para o lado onde estava a criança, assim, as duas caminharam por três quilômetros que, naquele momento, pareciam eternos, até que a sorte sorriu para as duas: Quando ele começou a se aproximar perigosamente, elas estavam já próximas de casa, só era preciso atravessar o igarapé, que naquela hora da noite estava raso devido à maré  baixa do rio. As duas atravessaram e o ser bizarro ficou na margem. A fera ficou por alguns minutos do outro lado e foi embora, de sua presença só restou o som das patas no chão de pedra, minha bisavó chegou esbaforida em casa e abriu a porta, então meu bisavô pronunciou a frase que já havia virado rotina:<br />
              &#8211; Um dia o lobisomem ainda te pega com essa menina pelo caminho do igarapé.<br />
              Eis que minha bisavó rebate:<br />
              &#8211; Se fosse me pegar, já era para ter me pego, pois ele veio me acompanhando desde o começo da estrada que vem da casa do professor.<br />
              Ao terminar a frase, o sino da igreja deu o badalo que anunciava: Era meia noite.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Diogo Ramalho</strong></p>
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		<title>A &#8220;pirgunta&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 03:00:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielciarlini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[A pirgunta]]></category>
		<category><![CDATA[Devana Babu]]></category>
		<category><![CDATA[Uma moça passa por uma rua no centro da cidade com um violão na mão]]></category>

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		<description><![CDATA[

              Uma moça passa por uma rua no centro da cidade com um violão na mão. O violão está numa capa preta de couro. A moça passa por um local onde dois ou três tratores estão trabalhando, perto dos quais se encontram três ou quatro peões.
              Um desses peões grita:
              &#8211; oi, moça!
              A moça fecha a cara e apressa um pouco o passo. Um dos peões se dirige ao outro em voz suficientemente baixa para que a moça ouça:
              &#8211; ô muiézinha besta, hein! Toda, toda, nem dá satisfação, ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<div id="attachment_3110" class="wp-caption alignleft" style="width: 209px"><img class="size-medium wp-image-3110" title="42-16656349" src="http://www.opiagui.com.br/wp-content/uploads/2010/01/42-16656349-199x300.jpg" alt="Foto: Atlantide Phototravel/Corbis" width="199" height="300" /><p class="wp-caption-text">Foto: Atlantide Phototravel/Corbis</p></div>
<p style="text-align: justify;">              Uma moça passa por uma rua no centro da cidade com um violão na mão. O violão está numa capa preta de couro. A moça passa por um local onde dois ou três tratores estão trabalhando, perto dos quais se encontram três ou quatro peões.<br />
              Um desses peões grita:<br />
              &#8211; oi, moça!<br />
              A moça fecha a cara e apressa um pouco o passo. Um dos peões se dirige ao outro em voz suficientemente baixa para que a moça ouça:<br />
              &#8211; ô muiézinha besta, hein! Toda, toda, nem dá satisfação, eu só queria saber as horas. Que povin asqueroso, hein Vadim?<br />
              A moça se volta para os peões, meio sem graça, se desculpa um bocado, dá as horas pro operário. A mulher conversa um pouco com os pedreiros enquanto pensa consigo.<br />
               Pobres apedeutas! Estão cegos para a luz da verdade. Não conseguem perceber as mazelas que afligem a alma humana, especialmente a de uma pobre criatura humana que se aventura a transitar com um instrumento musical relativamente caro rumo a algum local sossegado onde possa praticar sua arte em sossego, mas não pode porque na travessia para tal local se vê obrigada a manter-se vigilante e preocupada com os vermes insensíveis que a qualquer momento podem abordá-la.<br />
               E o abordar em si não constitui o problema, pois estamos em um país teoricamente democrático e além do mais, ela é uma pessoa sociável e amigável. Não somos apáticos nem nada e até nos prontificamos a atender com todo o prazer a doce criatura que nos requisita. Isso se fosse realmente uma doce criatura e estivesse de fato requisitando a arte. Isso se fosse uma única criatura pra cada percurso de 500 km. Mas, em primeiro lugar: esses vis solicitadores não têm consciência de quantos outros vis solicitadores os inocentes portadores de instrumentos tem de se deparar no percurso de 500 m,.mas eles acham que são os únicos. Acham que é muito cômodo e conveniente interromper o caminho de um ser humano para atender a seus caprichos baixos e nefandos. Se fossem perguntar as horas, pedir uma informação, trocar idéias sobre a execução musical. Mas não. É sempre a mesma petição. Como se o portador do instrumento fosse também um instrumento que por ali passasse unicamente para atender a suas solicitações, para preencher seu vazio intelectual, para fazê-los esquecer de sua insatisfação sexual, para mascarar seu fracasso social e familiar. Ou ainda como se o portador de um instrumento não tivesse mais o que fazer da vida, como se não tivesse filhos para sustentar, uma mulher para dar atenção, pais para auxiliar, um irmão deficiente físico para levar ao hospital, um cunhado alcoólatra para buscar no bar, um cachorro raivoso para sacrificar, roupas cotidianas para lavar e como se ele considerasse outra opção a não ser a de chegar a um lugar que lhe de paz e soletrar tranquilamente os acordes que lhe comprazem e lhe dão paz. É bem verdade que na maior parte das vezes quem carrega um instrumento como o violão realmente é vagabundo e não tem nenhuma das preocupações acima, só que isso não é motivo para perturbar ninguém.<br />
              Esse é o grande fantasma caolho e medonho que nos persegue, o poltergeist pirracento da cabeça arrancada, aquilo que pode se comparar ao apocalipse. A pergunta. A miserável e inevitável pergunta, que é motivo do martírio de centenas de gerações de violonistas antes de nós e provavelmente o será por milhares à frente. Conheço algumas pessoas que ficaram internadas e hoje jazem abandonadas no HPAP, só por causa dessa perguntinha miserável.<br />
              Pois estava a moça conversando e pensando tanto nisso, e a raiva se misturava com o alívio e a consternação pelos peões não terem perguntado coisa nenhuma. Mas logo o poltergeist voltou a pairar-lhe sobre a cabeça.<br />
- moça&#8230; Posso te perguntar uma coisa?<br />
              Não. Ele não vai perguntar isso. Pelo amor de Deus. Ele vai sim. Não..<br />
              Mas ele perguntou.<br />
              Peão I – toca um Bruno e Marrone!<br />
              Peão II – e esse violão aí é pra vender?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Devana Babu</strong></p>
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