Piracuruca

Igreja-Matriz de N. S.ª do Carmo (Década de 50)
Piracuruca tem seu lugar de destaque na história da libertação do Brasil. Em 22 de janeiro de 1823, incitada por Leonardo de Carvalho Castello-Branco, a população da povoação dá o grito de liberdade, acompanhando a então Vila da Parnaíba. Sua sede está encrava em planície na ribeira do rio Piracuruca, cerca de trinta léguas abaixo de sua nascente, no lugar da antiga fazenda Sítio, da sesmaria de igual denominação, situada, provavelmente, nos primeiros anos do século XVIII.
Até poucos anos, a História da sociedade piracuruquense era contada tendo como principal referência o templo consagrado à Virgem do Monte do Carmo, construído, supostamente, por bandeirantes portugueses, na primeira metade do século XVIII. Em parte, no imaginário popular, ainda é forte a crença de que a suntuosa edificação é fruto de uma intenção oblativa dos irmãos Manoel e José Dantas Correia a Nossa Senhora do Carmo, em face de seu aprisionamento, naqueles sertões inóspitos, por nativos da região. Ainda segundo a lenda, recobrada a liberdade pela intercessão da Virgem, iniciaram a construção, entre 1718 e 1722, do sólido, rico e elegante templo. Consta, ainda, que os trabalhos foram interrompidos em 1743, possivelmente em razão da morte de Manoel Dantas Correia, ficando descoberto por cerca de trinta longos anos.

Posto de Puericultura da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (Década de 50)
Nos dias de hoje, com o avanço de pesquisas documentais primárias e bibliográficas, já se concebe que o núcleo original da população piracuruquense tem origem em data anterior à incursão dos Dantas Correia. Há diversas notícias de desbravadores e povoadores pelo vale do Piracuruca, já no último quartel do século XVII. A provável transferência da imagem de Nossa Senhora de Monserrat, em 1713, da povoação de Parnaíba para a de Piracuruca, ratifica a ideia da existência, ali, de uma estrutura religiosa, mesmo que encerrada na singeleza e rusticidade de uma pequena capela.

Praça Getúlio Vargas (Década de 50)
A importância da elevação do templo, que busca-se vincular à ação de ordens religiosas, contudo, é preponderante para o desenvolvimento da povoação. Em torno da obra monumental, erguida sob o signo da fé, foram congregando-se diversas famílias, vindas principalmente do norte do Ceará. Com o desenvolvimento de atividades agropecuárias e comerciais, principalmente em torno da criação de gado bovino, esses primeiros povoadores foram construindo as suas residências e demais estabelecimentos, constituindo o núcleo urbano. A povoação também teve facilitado o seu desenvolvimento por ser ponto de passagem de negociantes, tanto os do centro-sul da Capitania que se destinavam à Parnaíba, quanto os provenientes do Ceará com destino ao Maranhão, e vice-versa.

Estação da Estrada de Ferro Central do Piauí (Década de 50)
Embora não se conheça a data da elevação da povoação de Piracuruca a freguesia, acredita-se que já o fosse, antes de 1743, visto que o Bispo do Maranhão, D. frei Manoel da Cruz, por provisão de 27 de novembro de 1742, criou a paróquia de Marvão (hoje Castelo e naquele tempo Rancho dos Patos), removendo o padre José Lopes Pereira da freguesia de Piracuruca. Em 1761 a localidade já possuía 1.402 pessoas adultas.
Em 18 de agosto de 1762, o primeiro governador da Capitania, João Pereira Caldas, instalou a Vila de São João da Parnaíba na matriz de Piracuruca, tendo assistido ao ato o Conselheiro Ultramarino Francisco Marcelino de Gouveia e o Desembargador Ouvidor-Geral Luís José Duarte Freire.

Ponte sobre o rio Piracuruca (Década de 50)
Nesse mesmo ano, achando-se em guerra Portugal, o governador da Capitania atendendo a determinações do Ministério da Marinha, organizou um corpo de tropas com o fim de guarnecer as barras do rio Parnaíba e o canal do Igaraçu, cabendo a Piracuruca contribuir também com os seus filhos para a defesa da terra piauiense de prováveis ataques por parte do inimigo.
Em 22 de janeiro de 1823, Leonardo de Carvalho Castello-Branco, liderando um contingente vindo do Ceará, proferiu discurso conclamando a população de Piracuruca a aderir à causa independente. A povoação, ainda sem autonomia política, acompanhou o movimento libertador, iniciado por Parnaíba, em 19 de outubro de 1822. Dois dias depois, a capital, Oeiras, também rompe com as cortes portuguesas, seguida por Campo Maior, em 2 de fevereiro do mesmo ano.
Dada a situação, impunha-se, pois, o regresso do governador das armas da Província, sargento-mor João José da Cunha Fidié, que então se encontrava em Parnaíba. Narra assim o visconde Vieira da Silva a passagem do sargento-mor lusitano por Piracuruca: “Chegando ao Iús de Baixo, e, desejando tomar a retaguarda dos independentes que haviam evacuado Piracuruca, mandou 80 homens de cavalaria marcharem com dois oficiais para reconhecerem o terreno. No dia 10 de março encontrou-se este piquete com uns quarenta ou cinquenta independentes, também montados, com os quais tiveram uma escaramuça junto ao lago Jacaré, sofrendo estes últimos alguma perda e ficando, da tropa portuguesa, um soldado prisioneiro”.

Agência Postal-Telegráfica (Década de 50)
Como se vê, foi em terras de Piracuruca, às margens da lagoa do Jacaré, em 10 de março de 1823, que se deu a primeira luta armada pela adesão do Piauí à independência brasileira. A escaramuça piracuruquense foi, assim, como que o prelúdio do grande combate ocorrido em 13 de março, nos campos que margeiam o rio Jenipapo, próximo a Campo Maior.
Em 1832, pelo Decreto da Regência de 6 de julho, a freguesia de Piracuruca foi elevada à categoria de vila. Sua instalação, porém, ocorre somente em 23 de dezembro de 1833, em solenidade de que participou, dentre outras autoridades, o coronel Simplício Dias da Silva, Presidente do Conselho Municipal de Parnaíba. Nessa data também são eleitos os conselheiros para a composição da primeira Casa legislativa de Piracuruca: Albino Borges Leal, Francisco José do Rego Castelo Branco, Vicente Pereira dos Santos, Manoel Rodrigues de Carvalho, Antônio das Mercês Santiago, Pedro de Brito Passos e Manoel da Costa Portela.
Por ocasião da execução do Código do Processo Criminal, em 1833, ficou o termo de Piracuruca fazendo parte da comarca de Parnaíba, em virtude da Lei provincial número 30, de 25 de agosto de 1836. Desmembrado para ser anexado à comarca de Campo Maior em virtude da Lei provincial número 126, de 27 de setembro de 1841. Voltando a pertencer à comarca de Parnaíba, pela Lei provincial número 286, de 17 de agosto de 1844. Elevada, enfim, à categoria de comarca, em virtude da lei provincial número 432, de 17 de agosto de 1857, reunidamente com o termo de Pedro II. Desanexado Pedro II de Piracuruca pela Lei provincial número 892, de 15 de junho de 1875, sendo, porém, em virtude dessa mesma Lei, anexado à comarca de Piracuruca o termo de Batalha. Esse, para tal fim, foi desmembrado da comarca de Barras, dando-se-lhe por limites os mesmos da freguesia.
REVOLUÇÃO DOS BALAIOS:
O município de Piracuruca foi um dos que sofreram durante a Revolução dos Balaios, porquanto já era conhecido um dos seus chefes rebeldes – Antônio José da Cunha Lima Pedregulho – e, ainda, por serem os seus campos abundantes em fazendas de criar. Era uma excelente presa dos rebeldes que o tiveram em constantes sobressaltos.
Pedregulho, o terrível chefe Balaio, “em razão de se ter evadido da vila para não ser preso, como emissário dos rebeldes, não mais a perdeu de vista”. A sua curta estada no município despertou, porém, em muitos a ideia de se bandearem para os rebeldes. E não fora só o chefe Pedregulho que passara pela vila; também Raimundo Gomes, o “Cara Preta”, chefe supremo dos bandoleiros, atravessara ao mesmo tempo o município, sem que a população pudesse conseguir a sua captura, à falta de recurso militar.
Pouco tempo depois travou-se na fazenda Bebedouro, 8 léguas distante da vila, um grande combate entre as forças legais e os bandoleiros que ali se achavam entrincheirados, em avultado número, vindos de Matões (hoje Pedro II), onde encontraram sempre franco homizio. Os rebeldes foram sitiados no dia 20 de setembro de 1839, às 6 horas da manhã, rompendo o fogo que durou, vivíssimo, até as 17 horas e 30 minutos, quando o combate foi suspenso. No dia seguinte, 21, os rebeldes entregam-se às forças legais, ficando mortos em campo 15 e caindo prisioneiros 205, além de 2 escravos. Das forças legais, apenas duas praças foram feridas.
Por pouco, fora um desastre para a legalidade o combate de 20 de setembro, porque marchava sobre a vila, para se reunir aos rebeldes, grande número de revoltosos da Serra Grande, que, sabendo do fracasso, fugiram espavoridos.
O combate do Bebedouro foi a maior vitória alcançada até então sobre os Balaios. Poucos meses depois a revolução foi debelada e concedida a anistia pelo Decreto de 21 de agosto de 1840, com a deposição das armas pelos Balaios.
Vila desde 1831, somente em 28 de dezembro de 1889, pelo Decreto número 1, do primeiro governador republicano do Piauí – Gregório Taumaturgo de Azevedo – foi Piracuruca elevada à categoria de cidade.
Em 1934, em virtude do Decreto número 1.528, de 21 de março, da Interventoria Federal do Estado – o então capitão Landri Sales Golçalves – teve Piracuruca nova divisão policial.
Piracuruca é sede de comarca de 3.ª entrância.
Desde o início de 2009, o município de Piracuruca encontra-se representado pelas seguintes autoridades: Executivo – Raimundo Vieira de Brito (prefeito municipal); e Maria Elisabete Bezerra Melo (vice-prefeita). Legislativo – Valter Cesar de Brito (presidente); Francisco de Assis da Silva Melo; Reginaldo Machado de Resende; Francisco Damasceno da Páscoa; Simão Pedro Alves de Melo; Pedro Casseano de Cerqueira Neto; João Alberto de Carvalho Machado; Milton da Silva Melo; e Maria do Socorro Marques do Nascimento.
LOCALIZAÇÃO: O município de Piracuruca pertence à Zona Fisiográfica da Ibiapaba. A sede municipal está situada à margem do rio Piracuruca. Limita com os municípios de Cocal, Caraúbas do Piauí, Brasileira, Batalha, São João da Fronteira, Cocal dos Alves e São José do Divino. A sede do município pode ser acessada pelas rodovias BR-343 e PI-115. A cidade fica situada a 210 quilômetros da capital estadual. As coordenadas geográficas do município são as seguintes: 3º 55’ 40’’ de latitude Sul; e 41º 42’ 32’’ de longitude W.
ALTITUDE: É de 60 metros na sede do município.
CLIMA: Quente (tropical), como, aliás, em quase todo o norte do Estado do Piauí. A temperatura por estimativa apresenta os seguintes registros: médias das máximas: 38ºC; média das mínimas: 28ºC; média compensada: 34ºC, segundo uns, e 30ºC, segundo outros. A altura da precipitação no ano é de 1.181 mm.
ÁREA: 2.380,511 quilômetros quadrados.
BIOMA: Grande densidade de vegetação, que varia desde áreas de mata, passando por cerrados, carrascos e até caatinga.
ACIDENTES GEOGRÁFICOS: Sobressaem, como principais, os rios Piracuruca, que banha a sede municipal; Jacareí; da Estrema; Jenipapo; Catarina; Trapiá ou Palmeiras; Jaburu; Pejuada; Arabê, e outros. Os riachos Belém; do Gavião; Brasileira, e outros. As serras Jucurutu; Gameleira; da Capivara, e outros.
RIQUEZAS NATURAIS: As principais riquezas do município são: a) de origem mineral: tabatinga, chumbo, cristal, cobre etc; b) de origem vegetal: carnaúba, com especialidade; c) de origem animal: tatu, cutia, gato, veado, paca, capivara, onça, e outros.
POPULAÇÃO: Segundo o Recenseamento de 2007, a população de Piracuruca era de 26.499 habitantes A densidade era de 11,6 habitantes por quilômetro quadrado.
ATIVIDADES ECONÔMICAS: As principais atividades econômicas são agropecuárias, comerciais e industriais.
MEIOS DE TRANSPORTE E COMUNICAÇÃO: Piracuruca conta com o meio de transporte rodoviário e, eventualmente, com o transporte aéreo de aeronaves de pequeno porte. A comunicação com as cidades vizinhas e a capital do estado, Teresina (PI), bem como as cidades do norte do Ceará e sua capital, Fortaleza (CE), é realizada através de linhas regulares de transporte coletivo. Existe na cidade uma agência dos Correios, serviços de telefonia fixa e móvel das operadoras OI, TIM, Claro e Vivo.
GENTÍLICO: Piracuruquense.
ASSISTÊNCIA MÉDICA: Hospital Estadual “Dr. José de Brito Magalhães”; Centro de Medicina Especializada (CEMEPI); Serviço de Assistência Médica de Urgência (SAMU); Pronto Socorro Médico Municipal de Urgência, Unidade Médica Municipal do Centro, Postos de Saúde Municipais em diversos bairros e localidades da zona rural.
OUTROS ASPECTOS CULTURAIS: Espaço Jovem “Des. Brandão de Carvalho” e Usina de Cultura.
PARTICULARIDADES E MONUMENTOS HISTÓRICOS: O templo de Nossa Senhora do Carmo, considerado “Monumento Nacional” por Decreto do Presidente Getúlio Vargas, edificado interna e externamente com pedras lavradas, cuja construção data de 1743, tem grande significação na história do município. A igreja possui, acima da porta principal, um escudo, bela peça artisticamente esculpida, e a data da sua fundação em algarismos romanos.
MANIFESTAÇÕES RELIGIOSAS E FOLCLÓRICAS: O principal festejo religioso é o levado a efeito em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, no período de 7 a 16 de julho, constituído de novena à noite e belíssima procissão ao encerramento. Diariamente, seguindo-se à novena, há leilões, quermesses etc. À festa descrita, juntam-se outros festejos populares.
ATRAÇÕES TURÍSTICAS: As “Sete Cidades”, formadas de blocos de pedras primorosamente dispostas, formando casas, fortalezas, ruas etc., ferem a imaginação do espectador. Melhor descrição delas faz o professor Ludovico Schwennhagen, em sua “Antiga História do Brasil – De 1.100 a.C. a 1500” (1928), e o escritor Vitor Gonçalves Neto, em seu “Roteiro das Sete Cidades” (1963). Barragem e grande lago no rio Piracuruca, com 250.000m3 de volume de água. No local está sendo construída estrutura para o balneário, incluindo bares e restaurantes. Complexo turístico da “Prainha”, na zona urbana, margem esquerda do rio Piracuruca, com estrutura para a prática de esportes, bares e restaurantes.
VULTOS ILUSTRES: Mencionam-se aqui nomes de alguns filhos ilustres de Piracuruca:
Gervásio de Brito Passos (1837-1923): Político de renome regional, e nacional. Deputado provincial no Piauí, em 5 legislaturas, na monarquia; deputado novamente pelo mesmo Estado, no regime republicano, durante 4 legislaturas; presidente da Câmara de Deputados do Estado do Piauí durante uma legislatura; Coronel comandante da Guarda Nacional em Piracuruca; Senador da República pelo Piauí, eleito em 1908, para o septiênio 1909-1915.
Simplício Coelho de Resende (1841-1914): Jurista, parlamentar e jornalista de mérito. Distinguiu-se no cenário político do Piauí nos últimos anos do Império e no começo da República. Deputado geral pelo partido conservador. Patrono da Cadeira nº 19 da Academia de Letras da Região de Sete Cidades.
Antônio Neves de Melo (1903-1935): Bacharel em Direito. Brilhante poeta e jornalista. Dirigiu a Imprensa Oficial do Estado do Piauí. Pertenceu à Associação Piauiense de Imprensa e ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Publicou: “Sobre Olavo Bilac” (conferência); e “Contos e Crônicas” (publicação póstuma). Fundador do “Cenáculo Piauiense de Letras”. Morreu muito jovem, depois de uma vida toda dedicada às letras.
Luiza Amélia de Queiroz (1838-1898): Maior poetisa piauiense no século XIX. Publicou dois livros de primorosos poemas: “Flores Incultas” e “Georgina ou Os Efeitos do Amor”. Princesa da Poesia Romântica do Piauí. Patrona das Cadeiras nº 28 da Academia Piauiense de Letras; nº 24 da Academia Parnaibana de Letras; nº 2 da Academia de Letras da Região de Sete Cidades; e nº 21 do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Parnaíba.
Anísio de Brito Melo (1886-1946): Odontólogo. Militar. Capitão cirurgião da Guarda Nacional. Historiador e professor de grandes méritos. Diretor da Instrução Pública do Estado do Piauí. Publicou diversas obras, dentre as quais: “O Piauhy no Centenário de Sua Independência” (1922). Organizador e primeiro diretor do Arquivo Público Estadual, hoje “Casa Anísio Brito”. Sócio-fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Patrono das Cadeiras: nº 34 da Academia Piauiense de Letras; e nº 01 da Academia de Letras da Região de Sete Cidades.
Nota: Este texto é fruto de pesquisa em várias fontes, inclusive no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi revisto, revisado e ampliado pelo correspondente de Piracuruca, Augusto Brito.











Com as desculpas convenientes a Augusto Brito, mas o prédio onde funcionou a estação de trem de Piracuruca foi construído bem no começo do Século XX; como estar (fotografia da década de 1950) fica parecendo ser mais recente.
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