Home » DESTAQUES, PRINCIPAL, TRABALHOS ACADÊMICOS

O Cassino 24 de Janeiro após a segunda década do século XX

7 February 2010 16 comentários
Cassino 24 de Janeiro (aspecto interno)

Cassino 24 de Janeiro (aspecto interno)

              O cenário parnaibano é composto por várias manifestações e monumentos que marcaram sua história, dentre estes o que trataremos adiante, entretanto poucos são aqueles que discutem tais importâncias.
               Tendo em vista tal aspecto, o presente trabalho retratará a relevância do Cassino 24 de Janeiro para a sociedade parnaibana após a segunda década do século XX, assim como as influências e contribuições que tal patrimônio nos deixou.           

O CASSINO 24 DE JANEIRO APÓS A SEGUNDA DÉCADA DO SÉCULO XX 

                 A cidade de Parnaíba, até a segunda década do século XX, não dispunha de espaços exclusivos para a realização de grandes eventos, como: carnavais, bailes etc. Isso acontecia, até então, nas melhores e mais distintas casas panaibanas, exemplo disso, temos: a casa Inglesa, casa do senhor José Christiano Carneiro, belo exemplar de arquitetura.
               Em 23 de Janeiro de 1925 houve a inauguração do “Cassino 24 de Janeiro” por um grupo que representava a sociedade parnaibana. Sua denominação representa a adesão de Oeiras, a antiga capital piauiense que, no dia 24 de Janeiro de 1823 abraçou a causa da independência.
               O Cassino era um casarão de muitas janelas, com sacadas de ferro para a rua, funcionava em prédio próprio, na Av. Presidente Vargas, situado no terreno onde hoje é o prédio da OI, segundo está escrito no livro “O Centenário de Parnaíba”, p. 215, 1945: 

O valor do prédio e de outros bens que o Cassino possuía, representava o seu patrimônio, no valor de Cr$ 150.000,00. Suas fontes de renda são as contribuições de seus associados e o rendimento do bar que possui. 

               Com a fundação desse Cassino os escalões nobres da terra se reuniram e decidiram unificar a sociedade parnaibana, como bem diz Maria Luísa Motta, 1924: 

Estatutos foram elaborados, reuniões realizadas, então resolveram pela primeira cede do clube alugar o palacete da Sr.ª Laura Veras (então viúva), que ficava na esquina da rua grande (Av. Presidente Vargas) onde hoje é de propriedade da firma Neves e Cia. 

            Depois os proprietários do Cassino compram a casa do Sr. Josias de Morais e esta passa a ser a nova e única sede do Cassino. Sua primeira diretoria era composta por Antônio de Almeida Neves então presidente, Celso Augusto de Moura Nunes – Vice Presidente, Acrísio de Paiva Furtado – primeiro secretário, José Christiano Carneiro – segundo secretário e Josias Freire Santiago- Tesoureiro.
               O Cassino era um ambiente bastante agradável, pelo seu conforto e elegância, Carlos Araken, 1988, cita:

Dava gosto ir a um baile no Cassino! O assoalho de tábua corrida brilhando, tudo muito bonito, muito limpo. A iluminação era feérica, a meia luz ainda não entrara na moda nos clubes sociais, isso era coisa de cabarés. 

               Composto pela elite parnaibana, o Cassino 24 de Janeiro, por um motivo ou por outro, não permitia que pessoas comuns da sociedade participassem diretamente de suas festividades, e por isso estas se acotovelavam e equilibravam-se em um espaço exíguo, a fim de não perder um lance sequer do que se passava no salão. Quem não conseguia entrar no Cassino, por ter rixa com os proprietários ou por outro motivo, ficava conhecido pela sociedade como “aquele que recebeu bola preta”, ou seja, aquele que não entrou no Cassino. De acordo com Inácio Nascimento, falando do Cassino, cita: 

O Cassino era um grande salão onde se realizavam festas e que prostitutas, por exemplo, eram impedidas de entrar neste espaço para não misturar-se com as moças de família que lá estavam, entretanto homens entravam normalmente. Para entrar no ambiente era preciso pagar ingresso. (Inácio Nascimento: 14/12/2009).

              Os vestidos, nunca repetidos, das damas que lá frequentavam eram longos e bem cuidados, os homens usavam, nos dias de gala, summers jackets ou terno branco com gravatinha borboleta, sapatos de verniz ou pelica alemã. O perfume era Francês, o whisky também. As famílias sentavam quase sempre nos mesmos lugares. O rapaz nunca dançava com a mesma moça mais de uma vez, se ficasse conversando no salão até a próxima contradança, implicaria em namoro ou coisa mais séria. A entrada de moça sozinha não era permitida no Cassino.
              Segundo Carlos Araken, “as festividades no Cassino começavam logo com o Réveillon que era um luxo só, seguindo pelo baile de aniversário que era sempre a rigor e logo adentrava pelo carnaval uma de suas maiores festividades, havia blocos carnavalescos, a música sempre muito vibrante e contagiante”. De início, jovens menores de idade não poderiam participar desses bailes, mas ao passar do tempo, mediante autorização judicial, estes acabam conseguindo participar da abertura do baile carnavalesco e daí em diante passando a frequentar o local. Tais jovens, já fantasiados, com o coração na mão e lança-perfume esperavam ansiosos para entrar no salão.
               O Cassino teve muitos Presidentes, como: Ferraz, Pires de Castro, Carlos Teixeira, entretanto o maior deles, segundo Araken, foi o seu Motinha, um cavalheiro na feira das vaidades, cidadão esguio e maneiroso, o mais famoso dirigente do Cassino, sua esposa se chamava D. Antoninha, comandava a decoração, limpeza dos empregados ao brilho do salão.
              O Cassino 24 de Janeiro era diferente dos que conhecemos por comportar uma elite. Ele vai de 1925 até o início da década de 70, em 1944 foi transformado em sociedade civil por ações, em 15 de setembro de 1947 passa a ser sociedade civil por cotas.
               Seu fechamento ocorre devido o crescimento da cidade, à construção de novos espaços festivos realizados pelos próprios sócios do Cassino, como: o Igara Clube (década de 60), AABB e BNB, os quais passam a concorrer com o Cassino fazendo com que este perca seu espaço na sociedade e por isso há uma queda em seus faturamentos. Os sócios deste ambiente resolvem fazer outros espaços festivos, justamente porque o Cassino se encontrava em um período de decadência e as festas já não tinham mais seu requinte como antes, e por isso fazia-se necessários espaços longe do centro da cidade, como na Beira Rio, para que a “bagunça” não ficasse tão visível à população. Contudo, Ailton Pontes (16/12/2009), cita: 

A decadência do Cassino não se dera pelo fato de o ambiente estar bagunçado, e sim devido o longo período que este ocupou na sociedade e como qualquer outro que tenha alcançado grande periodicidade irá apresentar suas dificuldades ao passar do tempo seja com dívidas, como foi também o caso do Cassino, ou outras dificuldades. 

              Esse ambiente representou uma constituição perfeita do que a história cultural hoje chama de “lugar de memória” fazendo parte do imaginário coletivo de uma geração. Marcou a sociedade e a cultura parnaibana da época, pois lá eram realizados eventos dos mais variados, como: festividades de famílias cívicas, desfiles. Lugar que possibilitou namoros e porque não dizer casamentos, frequentado em sua maioria pela alta classe parnaibana. Este clube de ricas tradições se acabou, e o prédio foi demolido.
               Diante do que foi exposto, é notória o memorial e a importância cultural que este espaço traz para a sociedade parnaibana, não só por marcar o início das atividades festivas da cidade em clubes, mas também porque deste Cassino saíram, namoros, casamentos, além de ter dado bastante lucro tanto para os sócios do Cassino como para a cidade em si, nessa época. Mas é bom que se diga que apesar da grande elegância do Cassino, a sociedade desta época mostrava-se preconceituosa e dividida, podemos perceber isso com a distinção de pessoas que  tinham privilégios nesse ambiente.

Camila da Silva Miranda[1]

 


[1] Acadêmica do Curso de História Bloco II Universidade Estadual do Piauí – UESPI/ 2009– 2 .

REFERÊNCIAS 

  • Bibliografia 

              – ARAKEN, Carlos. Encontro vocês no cassino 24 de janeiro. In:___. Estórias de uma cidade muito amada. Parnaíba: JUNIOR,  p.42-48, 1988.
              – CORREIA, B. J.; LIMA, B. dos S. (Orgs). Cassino 24 de janeiro. In:___. O livro do centenário de parnaíba. Parnaíba: GRÁFICA AMERICANA,  p. 215-216, , 1945.
              – PONTE, Ailton. et al, Uma tradição se foi. Histórica (IHGGP), Parnaíba, n. 03, p.43-44, junho, 2009. (Boneca da Revista Hiatórica);
              – PIRES, J. N. de C. Nomes importantes de homens na cidade de parnaíba e respectivas datas comemorativas. In:___. Parnaíba que eu vi. Parnaíba, p.35-36, 2005. 

  • Fonte Oral

Entrevista com:

              – Cosme Costa Sousa; em 12/11/2009, Profissão: Pesquisador historiador; membro do IHGGP e CONSPAC.
              - Inácio da Silva Nascimento Filho;  em 14/12/2009;  Filiação: Inácio da Silva Nascimento e Filomena Candeira Rocha; Data de Nascimento: 26/09/1950; Estudou até a 8ª Série do Ensino Fundamental; Profissão: Funcionário Público.
               - Reginaldo Pereira do Nascimento Júnior;  Filiação: Maria Luiza Soares do Nascimento e Reginaldo Pereira do Nascimento; Data de Nascimento: 10/04/1963; Grau de Escolaridade: Ensino Superior em Contabilidade e em Jornalismo pela FENAJE (RJ); Profissão: Jornalismo pela FENAJE; Diretor da delegacia da Região Norte do Piauí e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Piauí.
              – Ailton Vasconcelos Ponte; em 16/12/2009; Filiação: Themistocles Frederico do Ponte e Maria Célia Vasconcelos Ponte; Data de Nascimento: 17/03/2009; Profissão: Advogado e Professor do Curso de Direito, membro Sócio-efetivo do Instituto Histórico.

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (2 votes, average: 5.00 out of 5)
Loading ... Loading ...

16 comentários »

  • Camila Miranda disse:

    É com grande alegria que faço a publicação do meu primeiro artigo…agradeço desde já a oportunidade!bjus!!

  • Wallyson Pablo disse:

    Oi Camila,
    Seja Bem-vinda ao mundo das letras!Muito sucesso para você.
    Entrei para O PIAGUI em Outubro de 2009 e não arrependo-me.É uma oportunidade ímpar.Seu texto está ótimo.

  • Renne Carvalho disse:

    parabens pelo artigo muito bom mesmo,
    que seja o primeiro de muitos
    parabens camila
    abraço!!

  • Tayse Magnata disse:

    mto bom esse artigo..parabens camila!

  • Laiane Sobrinho disse:

    Ô minha amiga parabéns pelo artigo,ficou 10…Muito sucesso!!!
    bjus

  • junior disse:

    oi camila parabens pelo teu artigo. Sou professor de historia e fico feliz pelo seu entusiasmo voltado para pesquisa, espero que continue pesquisando sobre nossa cidade. sobre o cassino é interessante saber que a prática do parnaibano de frequentar clubes é herdada dos ingleses.Assim percebemos o quanto a globalização está presente em nossas vidas, nos costumes, no nosso cotidiano. Parabens!

  • Samara disse:

    Parabéns Camila!
    Teu artigo tah muito bom.
    E como diz o velho ditado: “a primeira vez agente nunca esquece”, rsrs..
    Que essa publicação.. seja a 1° de muitas e que traga para você muito sucesso!!
    abração amiga!

  • joao carlos araujo disse:

    camila é uma das minhas maiores apostas
    e tenhu um grande prazer em ser colega de classe dela
    o futuro dela e certoo
    uma grande historiadora e amiga
    sucessoooooo!!!!!!!!!!

  • Hermeson disse:

    parabéns pelo o artigo camila ta muito bom!!!
    isso sera muito importante pra sua carreira profissional…
    tenho que me espelhar en vc ja tenho que preparar um tambem rsrsrsrs!!! PARABÉNS…

  • Danilton Nobrega disse:

    parabens muito bem elaborado!!!

  • Tarcizio Brito disse:

    Camila fiquei surpreso pela evolução. O artigo desde o começo ao fim prende a atenção do leitor. Tem muita coisa interessante e que muitas pessoas como eu, acredito, não sabiam. Seria uma boa se o secretário de cultura olhasse o seu artigo e visse o quanto é importante a preservação cultural de nossa cidade. Sério, gostei muito e espero que você ainda faça muitos e me convide para lê-los. Parabéns mesmo e um abração.

  • Diego disse:

    olha só que potencial você tem!!
    parabéns camila,seu artigo ta muito bom.
    esse seu trabalho está repleto de informações importantes, e escrever dessa forma com tanta clareza requer uma boa pesquisa,e vemos que esta foi bem efetuada!!
    parabéns novamente pelo seu 1º artigo!!
    abraço!

  • Fabio Dias disse:

    Bom, eu te disse…
    Já comentei com você em outra ocasião, e vejo que os leitores compartilham da minha opinião. Repito: está ótimo, mostra o entusiasmo, a vontade, a paixão pela pesquisa, necessários para o sucesso profissional que já está despontando.
    Sei que fui só mais um que te incentivei a publicar o artigo, mesmo assim fico muito feliz por ter contribuido com a divulgação desse belo trabalho científico.
    Um grande beijo de quem te admira muito.
    Fabio Dias

  • wagner allen disse:

    Meus parabens!!
    você é um orgulho!!
    muito bem elaborado seu trabalho, não vou espero, sei que vai continuar assim, e, é por isso que tenho orgulho!!
    mais uma vez parabens amiga!!

  • nielson disse:

    muito bom…Camila Miranda, com certeza se tornará uma grande históriadora!!!!meus parabéns…

  • Lorena Miranda disse:

    Dá gosto de ler sobre a antiga Parnaíba, a NOSSA Parnaíba tão amada.
    Parabéns Camila, pelo seu primeiro artigo publicado, uma maravilha, eu adorei viu?!! Quero comentar mais artigos escritos por você.
    Bjs! Lory

Deixe um comentário

Adicione o seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode se inscrever para estes comentários via RSS.

Seja simpático. Mantenha-o limpo. Permaneça no tópico. Sem spam!

Você pode usar as tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Este é um weblog Gravatar permitido. Para obter seu próprio avatar, por favor registre em Gravatar.

O conteúdo do Portal em RSS.

Assinar RSS

Siga os últimos posts no Twitter.

Siga-nos