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O Carnaval era mais Carnaval no Cassino

17 February 2010 Sem comentários
Cassino 24 de janeiro

Cassino 24 de janeiro

               Felizmente para nós “rapazes”, agora na faixa dos 15 anos, ainda frangotes e com a voz semitonada, aquele foi um ano de sorte. Por obra e graça de Seu Motinha e com a ajuda de nossa fada madrinha D. Alice, conseguimos uma ordem judicial para participar do baile de abertura do carnaval. Nosso bloco era o “Prova de Fogo”, e congregava a moçada esperta da época: Paulo Trindade, Helvécio Rebelo, Evandro Marques, Carlos Antônio, Claudio, Luís Correia, Chico Machado e tantos outros, que não consigo lembrar. Ensaiávamos sempre na casa de Seu Amaury, o que era pretexto para umas boas doses de rum ou de vodca, e pôr em dia as fofocas do momento. D. Alice era nossa protetora e madrinha, desenhava nossas fantasias, ou sugeria as músicas que deveríamos aprender. Sua paciência era ilimitada, pois nós quase sempre nunca chegávamos a nenhuma unanimidade, e sempre fazíamos as coisas de última hora, a toque de caixa. De repente, com o coração na mão e lança-perfume rodouro na outra, já devidamente fantasiados, lá estávamos nós, esperando a nossa deixa para entrar no salão. Aquela espera angustiante, aquele friozinho no estômago, era dica pra novos goles de rum e cheiradas medrosas e discretas de lança-perfume. O mais exibido da turma era portador do estandarte do bloco. Agora era pra valer, a orquestra tocava nossa música; e aqui vamos nós aos pulos, que eram ampliados pelo assoalho oco, que dava maior vibração aos nossos corações, agora já em plena harmonia com a marchinha que vinha da orquestra. Fazíamos evoluções mil, e logo depois íamos sendo anexados pelas garotas solteiras, ou por blocos femininos que necessitavam de nossa parceria. Agora já muito suados, embora ainda eufóricos, com os pares já formados, esperávamos a entrada do próximo bloco. O último era sempre o “Viva as Onças”, dos machões e machistas de então, capitaneados pelo Valdemar Rodrigues, João Oliveira, Batista Leão, Olavo Pinho etc. A música deles especialmente composta para bloco, era realmente muito vibrante e contagiante (sofríamos calados com seu desprezo aparente quando nos apelidavam carinhosamente, depois viria a descobrir de “valetes”).
            A essa altura, já estava travada no salão uma verdadeira batalha de confetes, e serpentinas, acrescidas e enriquecidas pelo cheiro bom de lança-perfume que impregnava tudo. Rodo ou Colombina, de vidro ou de metal, eram as armas usadas no entrevero. Incrível, como se gastava tanta lança jogando nos outros, principalmente nas meninas. A insistência no jato era sinal de interesse. Quando havia retribuição, era o céu. Muito namoro começava assim. É claro que tomávamos nossos porres, mui discretamente; às vezes mais por basófia, pra mostrar que éramos homens. Nunca por escapismo pra fugir da vida. “Viajar”, ou fugir pra que? Se a vida era boa e o futuro podia ser melhor! No mais, queríamos estar bem vivos, para participar do espetáculo deslumbrante que era um baile de carnaval. Essas eram nossas viagens naquele mundo de prazer e diversão. As fantasias luxuosas e de bom gosto, meninas lindas, muitas. Pra que pedir mais? O segredo da fantasia era guardado a sete chaves para ser exibida no carnaval. Às vezes uma para cada dia. Sábado, domingo, segunda e terça. Assim seguia o carrossel. Isto mesmo, volteávamos aquele salão, com nossos passos ecoando no assoalho brilhante embalados pela música, inebriados pelo cheiro do lança-perfume, misturado com o perfume de nossos pares, na luz feérica do salão, rodando sempre em piruetas mil, estávamos participando sem saber de um verdadeiro carrossel! O carrossel da vida! 

Carlos Araken

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