O Carnaval era mais Carnaval no Cassino

Cassino 24 de janeiro
Felizmente para nós “rapazes”, agora na faixa dos 15 anos, ainda frangotes e com a voz semitonada, aquele foi um ano de sorte. Por obra e graça de Seu Motinha e com a ajuda de nossa fada madrinha D. Alice, conseguimos uma ordem judicial para participar do baile de abertura do carnaval. Nosso bloco era o “Prova de Fogo”, e congregava a moçada esperta da época: Paulo Trindade, Helvécio Rebelo, Evandro Marques, Carlos Antônio, Claudio, Luís Correia, Chico Machado e tantos outros, que não consigo lembrar. Ensaiávamos sempre na casa de Seu Amaury, o que era pretexto para umas boas doses de rum ou de vodca, e pôr em dia as fofocas do momento. D. Alice era nossa protetora e madrinha, desenhava nossas fantasias, ou sugeria as músicas que deveríamos aprender. Sua paciência era ilimitada, pois nós quase sempre nunca chegávamos a nenhuma unanimidade, e sempre fazíamos as coisas de última hora, a toque de caixa. De repente, com o coração na mão e lança-perfume rodouro na outra, já devidamente fantasiados, lá estávamos nós, esperando a nossa deixa para entrar no salão. Aquela espera angustiante, aquele friozinho no estômago, era dica pra novos goles de rum e cheiradas medrosas e discretas de lança-perfume. O mais exibido da turma era portador do estandarte do bloco. Agora era pra valer, a orquestra tocava nossa música; e aqui vamos nós aos pulos, que eram ampliados pelo assoalho oco, que dava maior vibração aos nossos corações, agora já em plena harmonia com a marchinha que vinha da orquestra. Fazíamos evoluções mil, e logo depois íamos sendo anexados pelas garotas solteiras, ou por blocos femininos que necessitavam de nossa parceria. Agora já muito suados, embora ainda eufóricos, com os pares já formados, esperávamos a entrada do próximo bloco. O último era sempre o “Viva as Onças”, dos machões e machistas de então, capitaneados pelo Valdemar Rodrigues, João Oliveira, Batista Leão, Olavo Pinho etc. A música deles especialmente composta para bloco, era realmente muito vibrante e contagiante (sofríamos calados com seu desprezo aparente quando nos apelidavam carinhosamente, depois viria a descobrir de “valetes”).
A essa altura, já estava travada no salão uma verdadeira batalha de confetes, e serpentinas, acrescidas e enriquecidas pelo cheiro bom de lança-perfume que impregnava tudo. Rodo ou Colombina, de vidro ou de metal, eram as armas usadas no entrevero. Incrível, como se gastava tanta lança jogando nos outros, principalmente nas meninas. A insistência no jato era sinal de interesse. Quando havia retribuição, era o céu. Muito namoro começava assim. É claro que tomávamos nossos porres, mui discretamente; às vezes mais por basófia, pra mostrar que éramos homens. Nunca por escapismo pra fugir da vida. “Viajar”, ou fugir pra que? Se a vida era boa e o futuro podia ser melhor! No mais, queríamos estar bem vivos, para participar do espetáculo deslumbrante que era um baile de carnaval. Essas eram nossas viagens naquele mundo de prazer e diversão. As fantasias luxuosas e de bom gosto, meninas lindas, muitas. Pra que pedir mais? O segredo da fantasia era guardado a sete chaves para ser exibida no carnaval. Às vezes uma para cada dia. Sábado, domingo, segunda e terça. Assim seguia o carrossel. Isto mesmo, volteávamos aquele salão, com nossos passos ecoando no assoalho brilhante embalados pela música, inebriados pelo cheiro do lança-perfume, misturado com o perfume de nossos pares, na luz feérica do salão, rodando sempre em piruetas mil, estávamos participando sem saber de um verdadeiro carrossel! O carrossel da vida!
Carlos Araken












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