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O Carnaval em Parnaíba

16 February 2010 Sem comentários
Caricatura: Mauro Júnior

Caricatura: Mauro Júnior

            Carnaval!… Carnaval!… Por que haverá da minha parte, por ele, esta indiferença irremovível? Por que me paga ele essa indiferença com um desprezo frio e superior? Procuro em mim mesmo as origens dessa antipatia recíproca e mal disfarçada, e vou encontrá-la na minha infância de menino solitário, órfão e pobre, jamais convidado para tomar parte nas festas alheias.
            O Carnaval do meu tempo, na terra em que passei a parte mais interessante da minha infância, não reservava, aliás, lugar para crianças. Era bruto e sem graça, e não se assinalava senão pela violência do entrudo. O mais antigo de que me resta lembrança é o de 1894, em Parnaíba. Grupos de rapazes inteiramente molhados, percorrem as ruas, tendo ao lado uma sacola de anilina. Dirigem-se, de preferência, às casas em que há moças. À sua aproximação, as portas se fecham, e são reforçadas, por dentro, com as trancas de madeira e com os ferrolhos mais seguros. Eles forçam, porém, as janelas, ou pulam as cercas e os muros, e caem de assalto sobre a família toda. Velhos e moços, patrões e criados, são arrastados para junto dos poços ou dos barris d’água, e o banho é completo, com o sacramento de alguns punhados de anil ou de anilina. Velhas contas são liquidadas nesse dia. Ameaças de um ano inteiro são cumpridas nessa hora. E melhor se compreende essa fúria, refletindo que é esse o único dia em que são permitidos certos contatos, sentidos na luta corpo a corpo entre rapazes e moças, e a ocasião única em todo o ano, que os olhos desvendam ou, melhor, adivinham, certas plásticas através dos vestidos que a água ajustou em contornos. Para escapar à ferocidade dos atacantes, os mais espertos se metem na cama embrulhados, simulando enfermidade grave. Mas são arrastados, assim mesmo, de gorro e camisolão, para junto do poço no quintal ou para junto do barril no banheiro, e, aí, batizados, debaixo da gritaria. A família atacada defende-se heroicamente com a tisna das paneladas. Se as moças são muitas, e às vezes se reúnem para isso, agarram um dos invasores, puxam-no para a cozinha, e de tal modo sai ele de lá que parece ter descido pela chaminé, tamanha é a camada de fuligem que traz na cara e na roupa molhada. Refugiadas em um canto da casa, as crianças gritam, choram, sapateiam, apavoradas com a presença daqueles demônios negros que lhes querem destruir os parentes.
            Em 1895 o entrudo sofreu uma alteração considerável, recomendada pela moralidade dos costumes. Para evitar os atritos, as lutas corporais que tanto preocupavam os pais e maridos, instituiu-se o chuveiro. O chuveiro era um canudo de lata, medindo um metro, às vezes mais, de comprimento, e com forma de uma seringa de injeção. A sua propriedade consistia em manter o entrudo à distância. Com ele, o folião lançava o jato d’água por cima das janelas mais altas, inundando as salas, e perseguia a presa, seringando-lhe a carga do chuveiro, aplicando-lhe, assim, um banho, sem recurso do atracão. Mas o regime do chuveiro durou pouco, porque, em 1896, o limão de cheiro, ou cabacinha dominava inteiramente o Carnaval parnaibano.
            O limão de cheiro representa uma conquista considerável no entrudo carnavalesco, em todo o Norte. A emigração para a Amazônia, de onde os rapazes mandavam às famílias rígidos blocos de borracha, facilitava grandemente o surto da indústria. Não havia casa, então, em que não se trabalhasse nervosamente no preparo dessa amável engenho de guerra. Sentados em torno à mesa de jantar, ou, no chão, sobre uma esteira de carnaúba, moças e senhoras entregavam-se alegremente à confecção dos limões. No centro da mesa ou da esteira, grandes bacias com água colorida, vermelha uma, verde outra; esta azul, aquela roxa ou amarela, a que se adicionava um pouco de perfume. Com um canivete afiado, cortavam-se as lâminas de borracha. As moças de bons dentes mordicavam então a orla dessas lâminas, prendendo-as, fabricando dessa maneira pequeninas bolsas. Com uma seringa, outras a iam enchendo de água anilinada e cheirosa. Com os dentes, fechava-se o orifício. E estava pronto o limão de cheiro, o qual, posto à venda, custava  precisamente… um vintém!
            A produção era enorme, mas as encomendas ainda eram maiores. Por isso, formavam-se grupos de rapazes, que compravam os limões de cheiro desde alguns dias antes, e os conservavam em bacias com água. Certa vez, mesmo, um dos grupos mais fortes acumulou  alguns milhares deles, que ficaram guardados em um quarto do hotel Borges, no largo da Matriz. As moças das vizinhanças souberam, porém, dessa provisão,e, penetrando nesse quarto, furaram todos os limões com alfinetes. E quando os foliões chegaram para prover-se, não encontraram senão algumas bacias de água colorida! Por esse tempo, havia sido inaugurado o entrudo a cavalo. Cidade arenosa, e então sem calçamento, Parnaíba oferecia uma resistência feroz a quem pretendia percorrê-la a pé. Os rapazes mais elegantes transferiram-se, assim, da infantaria para a cavalaria, levando a tiracolo vastas sacolas com limões de cheiro, com os quais travavam combates com as moças, que respondiam com os mesmo projéteis, debruçadas nas janelas. Como as casas da cidade eram quase todas caiadas, é de imaginar como ficavam de anilina. Em 1900 ou 1901 apareceu, finalmente, o confeti, que ali chegou, pelo correio, em um pacote de dois quilos, mas teve, de pronto, imitação, em outro, de forma triangular, feito a tesoura, com papel áspero e colorido. Referiam-se os rapazes espirituosos da cidade que a primeira partida de confeti que foi ter a Parnaíba, era de cor amarela e teve um destino inesperado. A família que o recebeu supôs que se tratasse de estrelinhas para sopa, e tomou-a toda no jantar…
            Quanto ao Carnaval, propriamente dito, só me recordo de ter visto, nas ruas, indivíduos fantasiados de alma e de morcego. Certa vez formou-se um cortejo de cavaleiros fantasiados. O tumulto foi, porém, tamanho, que a cavalhada não saiu da rua Grande. O Zé Pereira, porém, nunca faltou, com toda a fúria do seu bombo e dos seus metais.
            Quanto a mim, só me fantasiei, em toda a minha vida, uma vez, sem contar as que, depois, me apresentei em público metido no fardão da Academia. Foi em 1898, se bem lembro, tinha feito onze anos, e arranjei, para vestir-me, uma calça velha de um dos meus tios, cujas bainhas dobrei como pude. Um paletó velho, que me vinha quase aos pés, umas botinas de homem, e um chapéu de carnaúba, completavam a minha elegância. No rosto, uma feia máscara, de quatrocentos réis. À mão, um chiqueirador. Saímos, eu e uns seis ou sete molecotes, da casa de uma lavadeira à rua, senti uma vergonha tão grande do meu ridículo, assaltou-me de tal maneira a consciência da minha falta de espírito, ameaçando todo mundo com o meu chiqueirador, que ao chegar à esquina voltei na carreira, retomando o meu vestuário comum. E nunca mais me meti em outra aventura que me desfigura-se a individualidade, – exceção feita dos três anos e tanto que andei fantasiado de deputado.   

Humberto de Campos, 1935 

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