O carnaval brasileiro na visão de Berilo Neves

Berilo Neves
“Muita gente supõe que oficializar o Carnaval é burocratizá-lo, transformá-lo em uma dependência do Estado, como a Inspetoria de Veículos ou a Fiscalização do Exercício da Medicina… Nada disso. É tão impossível “oficializar”, nesse sentido o Carnaval, como oficializar a mulata… O Carnaval carioca não é uma farra anônima e sim, uma expressão do gênio da Raça e, como tal tem que continuar espontâneo e livre para que continue a existir. Cada povo tem uma certa festa ou manifestação de arte através da qual respira e vive. Portugal tem o fado, a Espanha tem a “malageña”, a França tem a cançoneta, a Argentina tem o tango, e assim por diante. Nós temos o maxixe, que é a lama ruidosa e ardente do carnaval carioca. O Carnaval e o maxixe são as duas coisas mais típicas que possuímos. Tiremo-nos essas manifestações de sentimento e ficaremos, talvez, completamente despersonalizados. Porque ou imitemos a França (na literatura sobretudo) ou copiemos os Estados Unidos (principalmente depois do cinema), o fato é que sempre estamos maquiando alguém ou alguma coisa. Só o carnaval é privativamente nosso, irrevogavelmente nosso. Só o carioca sabe fazer o Carnaval, como só o italiano sabe fazer o seu Chianti, o francês a sua “Champagne”, o inglês o seu “wisky”, e o norte-americano o seu “cocktail” de sete andares… Ora, um povo que cria alguma coisa de próprio e inconfundível é um povo que tem grandes qualidades para vencer… O Carnaval contribui mais para nos tornar conhecidos lá fora do que os nossos poetas, os nossos pensadores, os nossos homens de arte e pensamentos. É irritante dizê-lo, mas é verdade… por isso é sumamente patriótico o que o dr. Pedro Ernesto, juntamente com o Touring Club do Brasil, está fazendo, nesse momento: dando estímulo e vida ao Carnaval carioca… Quando o mundo inteiro souber que fazemos o Carnaval mais pitoresco e alegre de que há memória desde o esplendor babilônico até hoje, o Rio se encherá, anualmente, de centenas de milhares de turistas… E o Carnaval nos dará, então, de sobejo, o que as minas do século XVII já não podiam dar: ouro… Pela primeira vez na história da Humanidade haverá notícia de uma farra que não dá prejuízo, e sim lucro” (Diário de Notícias, 4 de fevereiro de 1932).
Nota do Editor: Notem, os leitores, a importância do presente texto, o parnaibano Berilo Neves, já na década de 30, profetizava, de certa forma, o que o carnaval é, e representa, hoje, para o Brasil.











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