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Nem ídolos, nem ultrapassados

19 February 2010 Um comentário
Machado de Assis

Machado de Assis

         Quando olhamos para uma fotografia antiga, corremos o risco de venerá-la demais a ponto de esquecer seu significado hoje, principalmente quando se trata de um registro de um ente querido já em óbito. Há também o perigo de olhar aquilo como algo ultrapassado e inútil.
          São dois posicionamentos perigosos também nas áreas do conhecimento. E dentre elas, podemos pensar na arte como uma ciência emblemática marcada por estes dois extremos pólos. Enfim, a pergunta que não quer calar: Como aproveitar os clássicos hoje? Aqui, pensemos na arte executada ao longo da História por escultores, pintores, arquitetos e escritores; e sua importância hoje, afinal, o início do século XXI é ou não marcado por catedrais e romances melosos?
          Certos autores, leitores e até editores (!), veem a arte clássica com desprezo, como algo sem serventia. Numa sociedade extremamente capitalista, os livros de poesia e de pintura, entre outros, são considerados “livros que não vendem”, “livros difíceis de ler”, “livros do tipo ‘já deu o que tinha que dar’”. Claro que não podemos viver de sonhos e, sendo assim, o lucro também é importante, porém não é nada honesto ganhar dinheiro produzindo lixo… Os clássicos possuem uma linguagem plenamente literária, uma linguagem indireta e que nos faz pensar, mas realmente precisamos ter um conhecimento já iniciado, paciência e gosto por aprender termos e sentimentos antigos e reconhecer os fatores atemporais.
          O descaso que a arte vive é também de responsabilidade de uma visão idólatra que se tem sobre a erudição. É o caso da editora que resolve publicar tais referências apenas por estar em domínio público, o aluno que passa a ver Machado de Assis como um excelente escritor já que está na prova da FUVEST, o leitor que resolve visitar a pinacoteca por ser simplesmente chique.
          Sim, sabemos que lançar um livro com pinturas ou poesias de alguém que já morreu há mais de 70 anos é bom, mas isto não pode ser o único motivo. Os vestibulares exigem tanto dos alunos que o estudo perde o caráter investigativo e o mecanismo rege a cena. Pouco a pouco, os clássicos vão sendo odiados por serem obrigatórios ou serem admirados por terem o poder de eliminar candidatos num concurso. Os vestibulares não fazem nenhum mal em colocar os clássicos nas provas, pelo contrário, valorizam o passado. O problema está na sala de aula e no sistema social que não consegue traçar paralelos culturais entre o ontem e o hoje, ao invés disto, há um incentivo repressor para entrar na faculdade pública de qualquer jeito.
          Que há de semelhança entre Madame Bovary e uma mulher infeliz com seu casamento hoje? E entre o jovem perdido Judas de Judas, o Obscuro e um jovem atual sem o perfil triunfante? Semelhanças devem ser notadas e aí já se encontra uma função social da literatura: o leitor se identificar com a obra traçando paralelos com a atualidade. Para o escritor de hoje, um livro clássico pode inspirar, pode mostrar para o hoje o como o mundo e os sentimentos ainda são os mesmos. Diferenças sempre existem, mas não podemos ignorar a literatura de ontem.

Rommel Werneck

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Um comentário »

  • Rita de Cássia Amorim Andrade disse:

    Parabéns Rommel, pelo seu texto cônscio. É lamentável que os estudantes atuais se limitem a leituras interpretativas de vestibulares, deixando escapar a essência de uma mensagem. Rita de Cássia Amorim Andrade – romancista.

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