Negra sina

Foto: Elisa Lazo de Valdez/Corbis
Antes que meu corpo descambe sobre o patíbulo, contar-vos-ei uma história oculta, a qual sobrepujou meus execrados atos.
O meu relógio marcava vinte e três horas e quarenta e cinco minutos; a lua e as estrelas eram algumas das escassas fontes luminosas naquela noite sinistra já que, as candeias haviam sido apagadas pelo vento, o qual soprava freqüentemente. A rua pela qual caminhava era cercada por casarões coloniais, os quais davam a impressão de imponência e fidalguia àquele lugar. Subitamente, um dos quartos de um dos casarões fora clareado por uma lâmpada de luz pública. A janela encontrava-se aberta, exibindo uma forma feminina; escondido, atrás de um arvoredo, observava a tal donzela despir-se. Logo a lâmpada fora desligada e o quarto voltou à escuridão de outrora.
Durante alguns minutos, permaneci absorto. Então eis que de súbito… A luz de uma lanterna clareou minha face ofuscando minha visão; após cessar a luz incandescente, a qual iluminava meu rosto, notei que quem portava a lanterna era a donzela que antes – deslumbrado – eu a observava (na janela).
Mirando-me nos olhos, aproximou lentamente seu rosto do meu, enquanto isso, enfeitiçado pelo Lascivo olhar – dádiva de seus belos olhos esverdeados -, o qual sobrepujava o doce desejo nos homens, permanecia estático; então de repente, em minha boca seca de afagos, senti o doce sabor de seus lábios – incrível, não podia crer – tão repentino, como o beijo, fora nossa noite de amores. Quando dei por mim, estava no quarto dela: entorpecido e arquejando sobre seu corpo (desnudo). Mas é sabido que a chama de toda vela reproduz uma penumbra, sendo assim, como que premeditadamente, um homem de porte aristocrático entrou no quarto e, ao tirar uma das luvas de suas mãos, atirou-a sobre minha face. Era sinal de duelo. Caminhamos até um salão. O tal homem puxou duas espadas que ornavam um escudo nobiliárquico, deu-me uma delas. Encostamos ambas as espadas; uma lágrima solitária escorria sobre a face pálida da “ninfa” – a única testemunha de nosso duelo.
Ele deu início ao combate. Porém, com um golpe impetuoso, decepei- lhe a cabeça. O corpo dele caiu ensanguentado e exangue, colorindo de rubro, o solo. Então, repentinamente… Uma voz ressoou em meu subconsciente, – inacreditável – tudo fora apenas um sonho, pois como um mendigo, adormecera na calçada. Entretanto, o mais intrigante foi quando minhas pálpebras abriram-se e minha primeira visão fora a face do homem o qual havia assassinado em duelo. E ao seu lado estava a mecena de meu devaneio a chamá-lo de marido.
Encontrava-me desvairado devido às incógnitas que oscilavam em minha mente. Ainda assim, agradeci-lhes. E fitando-a lubricamente, despedi-me.
Esse sonho foi para mim uma melancólica e misteriosa lembrança virtual. Melancólica, porque desejava seu corpo acetinado em meu leito, orvalhado por longas e regozijantes noites de amores, às quais, foram apenas, quimeras utópicas. E misteriosa pelo fato de ter sonhado com um alguém que eu conheceria pouco tempo depois.
Este sonho foi meu algoz, pois o desejo exacerbado, o qual sentia por ela, fez-me deflorá-la e assassinar seu esposo – o comendador – o qual vós, povo que tendes sede de sangue e justiça conhecia bem; sendo assim, com os pés no cadafalso, espero, ansioso, meu remitente – o carrasco…
Junyel
COMENTÁRIO
Wilton Porto
Mais um conto de Junyel. Percebem-se as características do conto anterior: Necrópole, em que este autor caminha pelo psicológico, revelando os anseios eróticos presos no subconsciente, no qual a mulher desejada se lhe escapa e se queda nos braços dele molhada de vibração por meio de sonho.
Escritor faminto pelo saber da História, o fato se passa na era colonial e traduz como se passava as resoluções da ciumeira da época: com a espada em punho até o respiro último de um dos combatentes. Os escritores românticos, nos seus romances em que deixam levitar o trágico, geralmente nos deixam entender que essa disputa sangrenta era uma labareda acesa na mente dos amantes.
Se donzelas se deixavam mortificar nos palacetes ou quarto de um convento, como fora o caso contado no romance “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, não faltaram as madalenas casadas, que cheiravam os espessos líquidos sob os auspícios da kama sutra.
Junyel que vem demonstrando queda por esse tipo de literatura, bem revela esse lado que ainda se nos apresenta a sociedade: o jogo de sedução nas suas múltiplas facetas – traições, sonhos eróticos tão vibrantes como se reais fossem, masturbações levadas pela desilusão do desencontro ou paixão a um.
Na esperteza do autor, o conto mostra a realidade de uma época. Já no início, ele nos traz a palavra “patíbulo”, que traduz um sacrifício não inerente à realidade do Século XXI. No final do texto, Junyel nos brinda com a palavra “cadafalso”, que tem o mesmo sentido da palavra anterior e significa “Estrado ou local onde os condenados sofrem a pena capital”. Lembremos que o brasileiro Tiradentes fora levado ao cadafalso. Ali fora enforcado, esquartejado… – conta a História do Brasil.
“Esse sonho foi para mim uma melancólica e misteriosa lembrança virtual. Melancólica, porque desejava seu corpo acetinado em meu leito, orvalhado por longas e regozijantes noites de amores, às quais, foram apenas, quimeras utópicas. E misteriosa pelo fato de ter sonhado com um alguém que eu conheceria pouco tempo depois”.
O trecho acima é repetição de uma parte deste conto. Quero chamar a atenção para o fato de que o autor nos remete para “uma melancólica e misteriosa lembrança virtual”. Que “misteriosa pelo fato de ter sonhado com alguém que eu conheceria pouco tempo depois”.
Será que o contista vivera essa história no passado? Ouvira de alguém em outra era, ou até contou em alguma obra em outra encarnação? Ele diz ser “Apenas quimeras utópicas”, ou seja, confirma o sonho, porém na vida real, ele a conhece posteriormente.
E aí? Não deveria continuar a história? A conheceu depois. O que sentiu? Houve algum contato físico? Como devemos interpretar esse final?: “Com os pés no cadafalso, espero, ansioso, meu remitente – o carrasco.” “Espero?” Se o fato acontecera na época colonial e ainda fora o sonho! Esse “espero” está mal colocado ou autor está querendo nos informar que esse encontro no após repetiu aquela tara dos dois lados?
Junyel tem um dom poético muito aguçado. Não poderia ser diferente: ele também alinhava versos potentes. Neste conto, ele prima pelo romantismo. E como texto romântico é natural que o autor se deixe impregnar pela poeticidade que lhe é latente.
O conto do autor está bem elaborado – demonstra que o contista buscou as características que o coloca como escritor que sabe onde pisa e que quer dar o melhor de si para garantir o respeito do leitor.











como sempre perfeito nem meus velhos e simples verso nessa altura nao terá mais intimidade com as palavras como o teus, talvez um dia ainda deixe uns dos antigos pasado belo e desagradavel verso aqui, mesmo que não tenho mais tanta coisa pra dizer, com o motivo que o dito não faz mais sentido,
continua na estrada das palavras e com essa sua perfeita harmonia.
Junyel , esse seu texto é muito interessante, devido o personagem ter sonhado com alguém que ele ainda nem tinha conhecido, e logo após o sonho ele se depara com o casal que estava nele. Bom você foi muito criativo e profundo no seu texto acima, meus parabéns continue assim, você está escrevendo muito bem ,sua concordância e coerênca textual está muito boa.
Muito bom este conto, creio que o Junyel tem uma característica literária peculiar, lembrando Alvares de Azevedo e alguns contos de Lord Byron. Deveria haver um pouco mais de reconhecimento para com os meios de comunicação, pois há certos escritores em nossa cidade que tem talento e não são reconhecidos, ficando apenas alguns sob o julgo do conhecimento do público, que às vezes estes que são por dizer conhecidos nem tem tanta qualidade assim.
Parabéns pelo conto…
Parabéns Junyel,você mostra,através desse conto,que tem muito interesse por literatura.E se sai muito bem.Conto muito interessante.Continue assim, lhe desejo muito sucesso!
Adorei seu conto, foi deslumbrante.
Parabéns, com esse talento você vai longe.
não tenho palavras,só digo que vc é demais,e esse conto é sinistro.bjs.
parabens pelo conto juniel(emo),quando eu leio esse conto,ate me esquece que não sou muito fã de literatura,alguns autores são bons mais outros nem que seja obrigatorio.
paranbens denovo continua assim!
PARABÉNS nossa que capacidade incrivel que você tem ! fico simplismente admiráda com esse seu talento .
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