A origem do Carnaval

Império do Cais (desfile de 2007 - Parnaíba-PI) - Foto: Ribamar Aragão
O Carnaval não nasceu no Brasil, tem sua origem, embora discutida, com o surgimento da agricultura (10.000 a.C.), no Crescente Fértil, quando o homem passa a celebrar os fenômenos da natureza e a eles dedica o que os historiadores, hoje, denominam “cultos agrários” – a fim da boa safra e colheita. Desses cultos, o mais famoso é o da deusa Ísis, no Egito. Segundo o professor doutor José Roberto Cristofani, no artigo “Panorama Geo-Político do Antigo Oriente e os Inícios de Israel”: “foram os rios que determinaram o estabelecimento da agricultura, da sedentarização e das rotas comerciais por onde passavam as caravanas que iam desde a Mesopotâmia até o Egito ou a Arábia” (Ob. Cit. p.3).
Precisar data, assim como o verdadeiro significado da palavra que batiza o Carnaval, ainda é de extrema contenda para pesquisadores e estudiosos. Alguns afirmam que a palavra é resultado da derivação do latim carrum navalis, ou seja, “carros navais” que completavam a alegoria das chamadas “Dionisías Gregas” (VII e VI a.C.) – Carnaval pagão, iniciado com Pisistráto, de Atenas. Tal período, que remetia às práticas sexuais (sob a justificativa de agradecimento ao deus da fertilidade do solo) e entorpecentes, só viria a ser mudado quando da adoção do costume pela Igreja Católica. O Papa Gregório I decide mudar o início da Quaresma para quarta-feira, antes da Páscoa. Ainda registra-se nos compêndios da História, em Roma, as Saturnálias, dedicadas ao deus da agricultura, Saturno; nestas festas escravos e alguns senhores saíam à deriva em celebração da liberdade e igualdade entre as “raças”. De uma forma ou de outra, seu sentido real foi, de certa forma, modificado, virando sinônimo de folia e muita diversão, salvo o consumo de álcool, então celebração ao deus Dionísio tal qual Dionisías.
Apesar do Carnaval de Salvador ser considerado a maior festa de rua de todo o planeta, a data que marca o “adeus à carne” não é uma festividade exclusiva do Brasil. Inúmeros países do mundo comemoram, de diferentes maneiras, esta data. Paris, por exemplo, é considerada o principal modelo das festas carnavalescas que se espalharam pelo globo, sua forte influência chega em cidades como de Nice, Nova Orleans e Rio de Janeiro. Na Europa é comum, nas mesmas datas brasileiras, a citar no Reino Unido, comemorar o Shroveitide (ao pé da palavra: “confessar os pecados”); em Portugal as comemorações costumam ocorrer na Ilha da Madeira, local que, inclusive, afirmam ter sido berço àqueles que trouxeram ao Brasil a tradição, sendo o Carnaval de Torres Vedras o mais antigo. Na Suíça já é bem diferente, tem início na quarta-feira de cinzas. A Alemanha, com um dos mais tradicionais do mundo, é chamado de Karneval ou Fasching, variando conforme a região; o da Bélgica não é tão antigo, data do início de 1892, quando então foi celebrado nas proximidades da região de Flandres.
Voltando o olhar para as Américas, vemos a celebração do Carnaval na Argentina espalhada por diversas regiões do país, sendo mais forte em Corrientes, Salta e Buenos Aires. Um fato interessante merece destaque na história do Carnaval argentino: Com a ascensão da ditadura militar de 1976, o governo baixou um decreto que eliminava do calendário as festividades carnavalescas daquela nação. Só recentemente, em 2005, reconhecendo a importância do evento, o governo decidiu determinar, os quatro dias, feriado nacional.
Apesar do Concílio de Trento ter sido assinado em 1545, que tornou populares as comemorações carnavalescas, o Carnaval, propriamente dito, só chegou no Brasil em meados da primeira metade do século XVIII. Um século depois já se viam nas ruas apetrechos mais elaborados, como carros e fantasias, mais tarde, no ano de 1932, no Carnaval Carioca, o parnaibano Berilo Neves estava a atuar como Diretor de Festejos, período em que marcante era a popularidade, no País, desse acontecimento anual. Em relação à Parnaíba, um dos mais preciosos registros de seu Carnaval partiu das mãos do literato maranhense, e que por muitos anos fez morada no litoral piauiense, Humberto de Campos, crônica publicado no livro póstumo “Reminiscências”, texto este divulgado, na íntegra, em nossa quarta edição, ano passado, eis um trecho: “[...] Quanto ao Carnaval, propriamente dito, só me recordo de ter visto, nas ruas, indivíduos fantasiados de alma e de morcego. Certa vez formou-se um cortejo de cavaleiros fantasiados. O tumulto foi, porém, tamanho, que a cavalhada não saiu da rua Grande. O Zé Pereira, porém, nunca faltou, com toda a fúria do seu bombo e dos seus metais.
Quanto a mim, só me fantasiei, em toda a minha vida, uma vez, sem contar as que, depois, me apresentei em público metido no fardão da Academia. Foi em 1898, se bem lembro, tinha feito onze anos, e arranjei, para vestir-me, uma calça velha de um dos meus tios, cujas bainhas dobrei como pude. Um paletó velho, que me vinha quase aos pés, umas botinas de homem, e um chapéu de carnaúba, completavam a minha elegância. No rosto, uma feia máscara, de quatrocentos réis. À mão, um chiqueirador. Saímos, eu e uns seis ou sete molecotes, da casa de uma lavadeira à rua, senti uma vergonha tão grande do meu ridículo, assaltou-me de tal maneira a consciência da minha falta de espírito, ameaçando todo mundo com o meu chiqueirador, que ao chegar à esquina voltei na carreira, retomando o meu vestuário comum. E nunca mais me meti em outra aventura que me desfigura-se a individualidade, – exceção feita dos três anos e tanto que andei fantasiado de deputado”.











Deixe um comentário