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Um amor puro e contemporâneo

20 January 2010 Sem comentários

Lembranças              “Amor é fogo que arde sem se ver”, já dizia Camões, e este simples verso, depois que li a obra de estréia da parnaibana Laura Thereza Santos, Lembranças: um amor para toda vida, constatei que não só arde, como, edificado, jamais se deteriora.
            Com um enredo espetacular, temperado por um final trágico e comovente, o livro, publicado pela editora Marco Zero no ano de 2005, é construído por uma linguagem simples e vivaz (o que torna o contato leitor-autor acessível); traz à tona duas importantes temáticas; uma, jamais vencida, e outra, atual; o amor puro e invencível, e as consequências avassaladoras do uso de drogas na vida de um viciado e de seus próximos.
            A prosa é divida em nove capítulos que, juntos, apontam a divisão adotada no desencadear da narração, não iniciada de forma cronológica. A autora se dispõe de técnicas da narrativa moderna para situar o leitor em um dado momento e, depois, explicar como tudo se sucedeu até ali (flashback), encerrando com o dado instante cortado da narrativa inicial. Usou esta mesma técnica Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
            Maria Clara, a personagem-narradora, três meses antes de seu casamento, visita um velho amigo de adolescência num hospital. Havia, ele, sofrido um grave acidente. Sem esperar, depara-se com Edu, o grande amor de sua vida, romance privado pelos pais e pelas escolhas irreparáveis do rapaz (“Ele estava tão diferente e, ao mesmo tempo, vi que até assim eu o conhecia, sabia o que ele falaria antes de concluir uma frase ou em outra situação” – Op. Cit. p. 16). Apesar da data marcada para seu casamento com Guilherme, cearense que conheceu quando cursava medicina em Fortaleza, o encontro com Edu parecia trazer, de pronto, toda aquela magia de adolescência (“Eu devia ter vivido mais, da maneira como eu gostava, da maneira como Edu, somente ele, mostrou-me; ele não me ensinou, apenas a descobriu em mim” – Op. Cit. p. 25).
            Guilherme e Edu representam um dos conflitos vividos pela protagonista Maria Clara, sendo este a sensibilidade (puro sentimento) e aquele a obnubilação racional (“Desde que aprendi a ‘pensar’, perdi a naturalidade com que dava rumo aos meus atos e ações. É lamentável; minha ingenuidade foi arrancada da minha alma sem que eu pudesse fazer nada, covardia do destino e da natureza humana” – Op. Cit. p. 24).
            O tom dado à narrativa faz com que o leitor sinta os sofrimentos de Clara: A dicotomia, o desespero, a angústia, as incertezas, esperanças e descrenças… É, pois, uma personagem bem próxima a nós, seres não aprisionados em letras. Diversos fatores incidiram sob as dúvidas e abstrações de Maria Clara: 

     “… transformamos nossos medos em monstros, e isso não permite que vivamos sem nos preocupar com a possibilidade de não conseguirmos ser fortes o bastante para suprir a expectativa de quem acha que somos perfeitos. Não esperamos o destino, traçamos nossos rumos sem vaga para acontecimentos imprevisíveis que possam desviar nossos objetivos, já traçados com, e somente com, racionalidade” (Op. Cit. p. 25). 

            Além de Guilherme e Edu, duas outras personagens surgem de forma decisiva: Pedro e Daniel; os típicos conselheiros amorosos. Pedro por Edu; Daniel por Guilherme. Para tornar o ambiente prosístico ainda mais próximo da realidade, Edu e Guilherme eram opostos. Edu, “tinha uma má reputação; apesar de ser filho de uma boa família, era o tradicional bad boy, e estava sempre com uma bebida na mão e não contradizia os comentários de que era usuário de entorpecentes” (Op. Cit. p. 40); e Guilherme, o típico homem educado, de boa família, estudioso e perfeito.
            Para sentir o livro em sua intensidade e essência, é preciso abstrair-se de todos os sentimentos que desprezam a alma, necessitando-se ter olhos de espírito, porque os humanos, como já afirmou T. S. Eliot, não conseguem suportar demasiada realidade; e talvez seja por isso mesmo que a autora não suportou mantê-lo em narrativa por muito tempo, finalizando-o com uma das mais amargas tragédias que a literatura pode oferecer, porém, como lição, nos deixou a seguinte frase que, se analisada com afinco e paciência, poderia, sim, resumir de forma concisa o que o mais puro sentimento, milenar e transcendental, representa em nossas vidas: “É tão fácil saber quando sentimos amor; sabemos que é ele, e essa certeza só se tem uma vez na vida” (Op. Cit. p.81). Conceito muito romântico para alguns, complexo para outros, porém, o que este humilde homem que vos escreve pode afirmar é: O amor, embora tenha sido uma desgraça para tantos, sublime para outros, é, na realidade, um conjunto de ações e fatores, uma necessidade, uma magia, uma razão completada. Os antigos acreditavam que o homem só podia ascender ao céu, e assim evoluir divinamente, quando encontrava a sua outra metade. Não irei aqui conceituar com metáfora o que é o amor, pois tal qual poesia é algo muito subjetivo, está em cada um de nós, mas se o amor é sinônimo de felicidade, faço minhas as palavras de Laura, na voz de Maria Clara: “… a verdadeira felicidade só necessita de paz” (op. Cit. p. 96), e paz só tem quem verdadeiramente ama, incondicional e universalmente.

Daniel C. B. Ciarlini
Parnaíba, 24 de dezembro de 2009.

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