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Todos têm direito à discriminação

23 January 2010 Sem comentários
Foto: Andy Warhol Foundation/Corbis

Foto: Andy Warhol Foundation/Corbis

              Vou ser bastante sincero: Eu sou preconceituoso. Não no sentido que seus radicais sugerem, de que seja um conceito ignorante pobre, mas no sentido usado atualmente, pois, como todos sabem, as palavras mudam seu significado com o decorrer do tempo. Se assim não fosse, os radicais livres não seriam um grupo cultural, porque cultura em sua origem vem de cultivar a terra, e que eu saiba não tem nenhum agrônomo nos radicais. O preconceito hoje é tido simplesmente como o ato de distinguir as pessoas em determinados grupos que nós depreciamos e crucificamos, e as quais diminuímos através de piadas de mau gosto e raciocínios lógicos pouco cuidadosos. Esse é o tipo de preconceituoso que eu sou. Claro que meu senso de moral e igualdade me diz que essas pessoas devem ser tratadas com respeito e igualdade, mas isso não me impede de escarnecê-las, porque isso é bom e saudável. Isso torna o homem forte e convicto das suas diversidades.
              Não há escândalo algum no que eu estou dizendo, e nem sequer motivo para alarde. O escândalo está nas pessoas que enganam a si a aos outros, fingindo não ter nenhum tipo de preconceito dentro de si. Mentira! Livrem-se do pudor e da covardia e admitam isso. Não se curvem a ele, nem tampouco fujam, mas tentem compreendê-lo. Afinal de contas, para todos os efeitos, você, no mínimo, tem preconceito em relação às pessoas preconceituosas, o que vem a dar na mesma. Você quer essa pessoa na cadeia. Você quer que essa pessoa seja escorraçada da sociedade, banida dos círculos sociais, quer que ela prove do próprio veneno, e que ela perca o pseudostatus de ser humano. Ou não: Você é do tipo benevolente, “love and peace”. Então você quer que essa pessoa seja reabilitada, que ela aprenda a conviver pacificamente, que ela deixe os seus princípios inferiores de lado e aceite o seu ideal de vida, que ela se torne mais civilizada, que se converta, que ela pare de raciocinar e apenas diga sim aos vaticínios do pensamento moderno, aceitando a igualdade como uma verdade absoluta. Ou seja: Essa pessoa tem que ser igual a você, e não como ela é. Isso também é preconceito.
              Outro que causa escândalo também é aquele que tenta inferiorizar o outro ser humano por causa das suas características. Aquele que faz isso me enoja e não merece ser chamado de um verdadeiro preconceituoso. Este é apenas um arrogante fútil e oportunista. Eu discrimino esse tipo de gente. Está fora do clube. fuck you, bastard! Entre esses estão os malditos nazistas, os vermes escravagistas, os maníacos colonizadores, os (cusp!) americanos  etc. Essas são pessoas que usam o preconceito de forma errada, muitas vezes pra tirar vantagem sobre essas pessoas. Aposto que o Hitler amava os judeus, mas massacrar milhões de suas famílias era muito estratégico para ele, para dar prosseguimento ao seu império ególatra sem sentido. E não duvido nada que os portugueses sempre se amarraram num negão, mas precisavam de sua força e maestria no trabalho, coisas que eles não tinham, pois eram preguiçosos e desajeitados, mas desajeitados que os índios. Pra sorte deles, eles tinham carabinas. Sincero ou não, o preconceito deles é, esse sim, politicamente incorreto.
               Há também o preconceito politicamente correto, e como há. Por exemplo, vai dizer que você não sente uma pontada aguda no peito quando ouve funk? Eu sinto. É uma dor terrível. Vá em qualquer lugar, pergunte a qualquer pessoa. Ninguém gosta de funk. Nem mesmo os funqueiros. Ou até gostam, mas têm vergonha de admitir, pela consciência da ruindade dos ruídos rufantes que fazem. Por exemplo: Se você estiver numa roda de pessoas com pose de intelectual, e entre eles houver um funqueiro, e o assunto debandar para o funk, obviamente com os posudos intelectuais e não preconceituosos esculhambando de todas as formas com o ritmo, o funqueiro logo se esquivará. “Bem, assim, eu gosto de funk, mas não desses funks vagabundos, só gosto de mc Leozinho e tal…”. Como se mc Leozinho fosse algum gênio da música. O fato é que ele usa isso como subterfúgio pra não se sentir tão inferiorizado. Claro que quando ele estiver na roda de funkeiros ele vai encher a boca e dizer: “gaguega, acabei de baixar o novo funk da mc Jane!”. Mas independente dos funkeiros, os não funkeiros atacam cruelmente o funk. Refinamento musical? Sim. E preconceito também. Mesmo um cara que se atreva a não atacar o funk não será capaz de defendê-lo. O funk é indefensável. E não venha me dizer que é neutro. A não ser que você seja demasiado covarde.
              Uma coisa é eu odiar o funk, maldizer seu estilo de vida pouco edificante ou acusá-los de efêmeros e até de acéfalos, outra coisa totalmente diferente é eu querer matá-los ou pegá-los como escravos, o que não quer dizer, também, que eu tenha que aceitá-los como amigos no orkut ou publicar seus textos no meu blog. Eles que se lasquem pra lá, e eu que me lasque aqui. Seja feliz do seu jeito.
              Certo dia passou no jornal que inventaram uma rede social só para pessoas “bonitas”. Obviamente tratando isso como um verdadeiro absurdo, a primeira reação, a mais óbvia nos dias de hoje, é a de rejeição da ideia, “minino, que absurdo”! mas vamos parar para refletir um pouco, porque isso leva a uma série de reflexões muito interessantes, que mostram que o tema é muito mais complexo do que sugerem os nosso livros de sociologia e a filosofia humanista. Quer dizer, a pessoa não tem o direito de eleger seus padrões de beleza? A beleza é um padrão altamente subjetivo, embora fortemente influenciado pelo meio. Quando uma pessoa  cria uma rede social que só admite pessoas bonitas, quer dizer que ela está julgando quais pessoas parecem bonitas pra ela, e excluindo as outras. Isso também pode querer dizer que ele ache os negros e os amarelos horríveis, e que o site dela só tenha gente ariana, de preferência albina.  Por um lado isso é horrível, mas por outro, será que alguém pode forçá-la a admitir essas pessoas? Então ela deve criar uma rede aberta ou não criar nenhuma? Vamos mais além: E se eu criar uma rede social chamada “só roqueiros, funkeiros dêem o fora!”, alguém vai se importar com isso? Não. Claro, não negligenciemos os fatos. O que ficou claro até agora é que existem duas correntes preconceituosas maiores, ou dois motivos principais para discriminar uma pessoa: Físicos e mentais. Entenda-se como físicos aquilo que concerne ao corpo e a genética, à fisiologia e à anatomia, e mentais aquilo que concerne à ideias. As ideias, por mais cabeça dura que uma pessoa seja, podem mudar a qualquer momento, desde que a pessoa queira. Mesmo que a sociedade ou as circunstâncias ou a vida tenham alguma parcela, a culpa ainda é da pessoa.  Então, se uma pessoa é tosca, a culpa é dela. Se ele é funkeira, a culpa é dela. Se ela fala besteira num artigo de milhares de caracteres, a culpa é dela. Mas e se ela for preta? Bem, aí a culpa não é dela. “ah, então já que isso responde tudo, eu podia encerrar o artigo por aqui, né? Não. Infelizmente, essa constatação não faz senão suscitar mais dúvidas.
              Um funkeiro vai no programa do Márcio Garcia, o canastrão sorridente pergunta ao rapaz que tipo de mulher ele gosta, o funqueiro fala: Ah, eu gosto de garotas loiras, sorridentes e simpáticas, e que não sejam muito baixinhas…”. E se ele tivesse dito: “Gosto de garotas loiras simpáticas e que não sejam muito negras”? Pareceria meio redundante, porque não é muito normal ver uma loira negra, mas também soaria altamente grosseiro e preconceituoso. Era capaz de o mvbill esquecer a paz e ir dar um murro na boca do falastrão, mas será que o cara não tem esse direito? Ele é obrigado a gostar de todas as características de todas as etnias ou de reprimir seu gosto estético para sempre? Isso parece meio imaturo. Talvez haja uma certa generalização na “regra”. Porque uma coisa é não dar emprego a uma pessoa por causa da cor, e outra é não querer ter filhos com ela. Burro seria eu se não quisesse, mas será que pode existir uma lei contra a burrice?
              Mas vá lá, digamos que todos tenham compreendido que gosto é igual a nariz e que a discriminação seja inerente ao espírito humano. Isso me garante o direito de falar mal dos grupos que eu discrimino? Ou eu devo guardar minhas opiniões para mim? E a liberdade de expressão (deixa eu falar filha da p%¨@)? E se eu quiser escrever um artigo sobre o jeito afetado e falso dos homossexuais? E se  eu quiser dizer que a religião africana não tem nenhum fundamento? E se eu quiser dizer que a música indiana tem uma melodia desagradável? Eu estaria discriminando um grupo étnico? Estaria sendo um desgraçado boçal infeliz? Ou apenas um preconceituoso consciente?
              Enfim, o que percebemos é que temos que conviver com os mais diversos tipos de pessoas pacificamente, isso inclui respeitar os diversos tipos de preconceitos existentes. Assim, ninguém é obrigado a andar com um homossexual se achar ele chato, e os neonazistas (tremo de falar isso) têm o direito de não gostar de negros, homossexuais, latinos nem de ninguém que não seja retardado e branco como eles. O que a moral tem que estabelecer é que todo mundo tem o direito de odiar quem quiser, mas não o de maltratar essas pessoas, ou agredi-las, ou ferir sua moral, pois é possível ser antagonista sem ferir a moral de ninguém, e se não se consegue fazer isso, significa que não se tem argumento real para se pensar de determinada maneira. E a teoria já nasce fracassada.
              Infelizmente essa novela não acaba aqui. Considerando que tais premissas sejam largamente aceitas pela sociedade, e que isso abra uma série de precedentes, e que a polícia correta proclame o direito universal ao preconceito, será que isso seria benéfico para a sociedade? Talvez sim, talvez não. De um lado veríamos cada vez mais apartheid, de diversos grupos. Muita gente seria excluída do processo mundial. Muita gente diria, aos prantos: “o que aconteceu com a sociedade! todo mundo separado! que horror!”, mas isso já parte de algumas premissas erradas. Primeiro a do chorão: “Só porque ele quer um mundo unido e sem fronteiras, nenhum inferno abaixo de nós e acima só o céu, quer dizer que todo mundo deva querer a mesma coisa?”. Segunda: Alguém é obrigado a depender de alguém? Quer dizer, considerando a discriminação dos negros pelos brancos, os negros precisam do aval dos brancos para serem felizes? A gente não pode simplesmente abandoná-los? Ou simplesmente dominar o mundo?
A luta contra o preconceito é muito justa. O ideal humanista de igualdade é lindo, mas nosso pensamento ainda tem muito o que amadurecer, e não podemos ser tão simplistas a ponto de ignorar conflitos morais que até um tosco como eu consegue pensar. Mas até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer… Sempre respeitando as liberdades individuais da forma mas ampla possível.
              Viva a liberdade. Viva a individualidade. Viva o preconceito!

Devana Babu

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