Padre Cícero no seu meio sócio-cultural
Difícil, sobremodo, se não por vezes impossível é a manifestação da justiça dos homens. Daí a sentença divina: “Não julgueis”, conforme se lê em Lucas, cap. VI e Mateus, cap. VII. E o próprio Deus desumano, ao ser solicitado a julgar a adúltera, apanha em flagrante, crime que a lei judaica punia com a lapidação em praça pública. Não se quis manifestar expressamente, limitou-se a fazer riscos na areia e a convidar os acusadores a que lançassem a primeira pedra os que, dentre eles, se julgassem imunes de pecado.
São Paulo, na sua Epístola aos Romanos, apresenta os perigos a que se expõe o autor de juízos apresados e pergunta; “Por que julgas teus irmãos”, isso depois de haver avançado, no capítulo III, que “todo homem é mentiroso”.
Não será impertinência ver, na admoestação de Jesus, de não poder um cego guiar outro cego, oferecida por Lucas no cap. VI do seu Evangelho, uma alusão à justiça dos romanos, representada por uma mulher de olhos vendados? Se um cego não pode guiar outro cego, como pode um juiz decidir às escuras ou às apalpadelas?
É de consenso universal dar-se como perfeita a justiça de Salomão, narrada no cap. 3.º do III Livro dos Reis, a propósito da competição de duas mulheres públicas em torno de uma criança cuja maternidade ambas disputavam. No entanto, examinando o caso à distancia e sem preconceitos, o que se conclui é que o rei juiz deixou-se levar pelas aparências, não entretanto no fundo da questão. Sua sentença poderia ter sido injusta se houvesse funcionado, na disputa, o fingimento.
Se difícil é julgar os atos dos homens, muito mais difícil é trazer à balança da justiça os seus sentimentos. Quanto mistério num pensamento, quanta surpresa num coração, quanta grandeza num sentimento, quanta miséria numa sensação! E as cadeias que impedem a alma impotente e escrava de traduzir com os lábios o que procura dizer, e de extravasar no papel o que a mão não escreve?
O homem, como disse Jesus, é um caniço agitado pelo vento. E a observação mostra à sociedade que os fatos mais triviais implicam, normalmente complicados, problemas na existência humana. Diz a sabedoria que o homem se agita e Deus o conduz. E é justamente nessa agitação que se encontra a semântica do processo universal das sociedades.
É dessa agitação do homem que se forma a trama inexplicável de papéis sociais assumidos pelos indivíduos e, através destes, pelos grupos. À paz e a guerra, a ciência criadora e a ciência destruidora, os atos de prepotência ou corrupção e as manifestação de sabedoria e amor resultam da influência, das ideias, dos interesses, das aspirações do ser humano, que, para atingir seus objetivos, recorre aos quadros sociais, onde encontra oportunidade para realizar-se em toda a sua plenitude.
Daí a dificuldade e por que não dizer? A impossibilidade de um julgamento exato sobre as ações humanas, sejam coletivas sejam particulares, pois implicam qualquer atitude na distinção dos vários níveis que assinalam certas decisões, na essência livres, mas, na sua realização, submetidas a determinismos relativos. Daí a conclusão de Gurvitch de que, na compreensão da realidade social, tem-se que admitir uma superposição de planos submetidos a um determinismo mais ou menos flexível, repousando sobre o solo vulcânico, onde se agita o que há de espontâneo e inesperado na vida coletiva, como são as condutas criadoras, as ideias e valores, os estados mentais e atos psíquicos.
Em face dos acontecimentos, o juiz, no caso do sociólogo ou o historiador, precisa compenetrar-se de que é homem e não possui o dom da perfeição e o carisma da infantilidade.
Colocando diante de nós, sob a luz de refletores, mas aperfeiçoados, a figura polêmica do Padre Cícero Romão Batista, sobre quem tanto se tem falado e de quem muito ainda há de se falar, o Exmo. Sr. Arcebispo, D. José de Medeiros Delgado, quer aproveitar a data centenária de sua ordenação sacerdotal para que, através de uma pesquisa em torno de sua figura, se consiga atingir um grau de conhecimento mais perfeito do indiscutivelmente prodigioso comportamento do hoje consagrado Patriarca de Juazeiro.
Para tanto convocou “a quantos possam contribuir para uma pesquisa que leve, senão a uma consagração definitiva, pelo menos a uma definição mais forte com a realidade” que envolveu e celebrizou aquele sacerdote.
Não se pode negar ser isso uma tarefa ingente, máximo tendo-se em vista uma insegurança dos documentos, a dubiedade da tradição, o desencontro dos testemunhos e a própria atuação do Padre Cícero, que nunca se abriu inteiramente aos que o observavam, preferindo, como acentua Dom José Delgado, recolher-se a “martírio silencioso diante de toda sorte de ataques e injúrias que sofreu pela vida afora”.
Para muitos que estudaram a personalidade do Padre Cícero, não foi ele mais que uma obra plástica da ambiência, deixando-se dominar pelo meio em que se instalou, e passando a agir como simples reflexo da atmosfera em que vivia.
Mas, um exame acurado daquela personalidade, uma observação bem amadurecida dos seus produtos leva à conclusão de que, ao invés de curvar-se e ceder às determinações mesológicas, exerceu o Padre Cícero uma ação sobre o seu meio, o que não significa alheamento às suas injunções e compreensão das suas imposições.
Apesar da uberdade prodigiosa que caracteriza o vale do Cariri, os seus povoadores, como afirmou Antônio Bezerra, eram, na sua generalidade, de caráter insubmisso e de más estranhas, mostrando-o o número sem conta de cruzes plantadas pelas estradas e veredas, devidas a assassínio à tradição, à índole daquela gente, esclarecendo mais: “Cabra de cacho na testa, não precisa perguntar, é cangaceiro afeito ao crime”.
No lugar em que depois surgiu o povoado que se denominou Juazeiro, por motivo de ali existir um frondoso pé dessa ramácea, que oferecia abrigo aos camboeiros que percorria a estrada Missão Velha Crato, encontrava-se o sítio Taboleiro Grande de propriedade do Padre Pedro Ribeiro da Silva. Em 15 de setembro de 1827 fez construir ali uma capela sob a invocação de Nossa Senhora das Dores, à qual, por sua morte, doou o mencionado sítio.
Outros padres foram designados para a criada capelania, até que em 1872 veio ela cair em mãos do padre Cícero Romão Batista. Apesar da presença daqueles sacerdotes, as condições morais da povoação eram reprováveis, o que prova que não conseguiram eles exercer, sobre o meio nascente, qualquer influência benéfica. Excluídas algumas poucas famílias morigeradas, timbravam os habitantes do lugarejo na prática de crimes e desordens, antro de malfeitores analfabetos e violentos, entregues à embriaguez e acreditando em feitiçarias, herança dos antepassados indígenas.
Como já sucedera com seus antecessores o Padre Cícero poderia ter-se conformado com a situação, anular-se diante da consciência coletiva, aceitar os fatos consumados e comodamente limitar-se ao exercício de uma rotina espiritual reduzida, o que seria muito suave para ele e melhor ainda para a escória social que o cercava, amante do álcool e do samba, que preferia a faca à cinta em vez do crucifixo ao pescoço.
Homenagem de elevada cultura para o tempo, tendo adquirido um lastro bem sólido de conhecimentos intelectuais, como ótimo aluno que foi de Hist. de Geog. E Teologia no Seminário de Fortaleza, trazendo no espírito a sólida intenção de conquistar almas para Deus e cidadãos para a Pátria, dispõe-se a transformar aquele meio através de um trabalho de catequese aprimorado ao tempo e às pessoas, misturado de persuasão e de energia, e que, para se fazer notado e influir, exigia uma propedêutica de certo modo espetacular. Dois caminhos poderiam modificar o caráter insubmisso daqueles grupos de certo modo heterogêneos, de formação psico-social desordenada: o da violência, preferido pelos poderes públicos e de resultados sempre deploráveis, como aconteceu em Canudos, e o do misticismo, de que se tornara modelo o Padre Ibiapina. Homem de estudo e de meditação, dispo-se ao Padre Cícero a adotar o segundo. Para isso teve que preparar-se interiormente e notar-se notado exteriormente. O Padre Azarias Sobreira diz que lê, fervoroso admirador dos Jesuítas, no amansar e civilizar os silvícolas, procurou seguir-lhes as pegadas, entusiasta e resoluto. Associação a ação à oração, mortificava-se como os monges de Tabaida; exauri-se em jejuns e penitências; não encarava sacrifícios nem sofrimentos para socorrer os necessitados de amparo material ou espiritual; desprezava o mais comezinho conforto pessoal; descuidava-se das suas vestes e nenhum atrativo exterior, por mais modesto que fosse, lhe despertava a atenção. Assim tornou-se alvo da atenção geral? Passou a ser olhado com admiração e a ser ouvido com docilidade; criou em seu redor um halo de veneração, e através da sua palavra e dos seus exemplos conseguiu, por meio da exacerbação religiosa do povo, difundir a fé, transmudar os costumes, eliminar as contendas, tornando-se, ao mesmo tempo, oráculo e guia, médico de almas e corpos, cuja fama transbordante exorbitou os limites do seu pobre burgo e espraiou-se, com ímpetos de maré enchente, pelos sertões a dentro.
A primeira impressão que temos, cada vez que nos aproximamos da figura do padre Cícero nesse quadro do seu triunfo missionário, é que se deixou ele dominar pela atrasada cultura das populações sertanejas, trabalhadas pelas superstições indo africanas e mergulhadas numa fase de sincretismo religioso, atraídas pelos fenômenos que envolvem o mistério e vendo milagres em qualquer acontecimento inexplicável à primeira vista. Bem diferente, porém, é a conclusão quando se estuda de perto a construção intelectual e a estrutura espiritual do capelão de Juazeiro.
Desde cedo não lhe descurou a família a freqüência escolar, tanto assim que, aos seis anos, já recebia lições do mestre-escola Rufino, estabelecido na cidade do Crato. Outros professores teve até os 16 anos, quando se matriculou no colégio dirigido, em Cajazeiras, Paraíba, pelo padre Inácio Rolim, de renome em toda região. Atendendo à vocação sacerdotal, manifestada desde a infância, ingressou no dia 4 de Abril de 1865 no Seminário de Fortaleza, fundado apenas um ano atrás. Ali pontificavam mestres do mais fino louvor cultural, padres lazaristas, formados sob a influência das letras francesas, testemunhas e partícipes dos entre-choques entre os jansenistas e jesuítas, armados cavaleiros para as investidas levadas a efeitos contra a igreja pelos iluministas, racionalistas e naturalistas, de que eram figuras representativas Voltaire e Rousseau. Não fugiam, porém a um destacado espírito de ascetismo, resquício da educação jansenista, condenando as amizades íntimas, as afeições duráveis. Indubitavelmente essa formação austera mais desenvolveu, no Padre Cícero, os pendores místicos e a atração para a penitência, já manifestados na primeira idade,quando ele, na hora das refeições, se deixava ficar na igreja, entregue a ferventes preces.
O Seminário de Fortaleza representou para a época uma espécie de escola superior, tal o programa de ensino, a competência do professorado e a excelência dos estudos. Verdadeiro foco de luz na apagada vida cultural da pequena cidade, ele passou a atrair as inteligências ansiosas de conhecimentos intelectuais. Daí decorre registrar a sua história, no seu primeiro quartel do funcionamento, a passagem, pelos seus bancos, de vultos dos mais ilustres nas letras, nas ciências e na política do Ceará.
Graças a essa situação inigualável do Seminário, encontrou nele o Padre Cícero condições e oportunidade para aprofundar os conhecimentos já conseguidos, ao mesmo tempo em que adquiria outros indispensáveis aos seus anseios de aperfeiçoamento geral e necessários ao exercício da missão que se propunha a desempenhar. Além dos ensinamentos de seus admiráveis professores, desfrutou ainda o Padre Cícero de um convívio dos mais proveitosos com seus companheiros de estudos, os quais, pela distinção com que se houveram após a ordenação, ocuparam lugares destacados, quer nas atividades eclesiásticas propriamente ditas, quer noutros setores da vida social e política. Assim, entre as turmas de ordenados entre 1867 e 1870, sobrelevaram-se os seguintes sacerdotes.
Padre José Lourenço da Costa Aguiar, que foi o primeiro bispo do Amazonas, depois de ter ocupado o curato da Sé de Fortaleza e da Catedral de Belém. Deputado provincial pelo Amazonas, Provedor da Santa Casa de Belém, formou-se ainda em Direito Canônico, fundou o jornal “Tribuna Católica” de Fortaleza e era membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Padre Joaquim Antunes de Oliveira, cônego da Capela Imperial e vigário da Igreja de Santa Rita, no Rio; professor de Filosofia no Liceu do Rio Grande do Norte e membro do Instituto de Geografia e Arqueologia de Pernambuco.
Padre Joaquim Romualdo de Holanda, cônego da Capela Imperial e vigário de Baturité, Acarape e Trairi, tendo falecido em S. Paulo.
Padre João Paulo Barbosa, vigário da Freguesia de S. Luís, em Fortaleza, a quem se deve, em grande parte, a construção da igreja do Patrocínio. Foi Inspetor Escolar e Diretor da Escola Normal de Fortaleza, além de professor do Liceu do Ceará. Pertenceu ao Centro Abolicionista. Designado cônego honorário da Catedral de Fortaleza, era orador sacro de renome, tendo pronunciado a Oração Fúnebre nas exéquias de D. Luís Antônio dos Santos. Foi um dos fundadores da União do Clero.
Padre Antônio Bezerra de Menezes, que, depois de curar paróquias no interior do Ceará, se transferiu para o Rio, ali sendo vigário de Santa Rita e Engenho Novo.
Padre Constantino Gomes de Matos, cura da Sé de Fortaleza e bispo do Rio Grande do Sul, honra de que declinou, preferindo ser visitador de ordens religiosas. Jornalista com atividade no Recife, Rio e Fortaleza, também se fez abolicionista fervoroso. Combateu rigorosamente a infiltração do Protestantismo que se iniciava no Ceará, com a pena e pela palavra.
Padre Antero José de Lima, que chegou a Monsenhor. Foi vigário no interior cearense, muito trabalhou durante a seca de 1877, e elegeu-se deputado provincial pelo Ceará. Após a proclamação da República, escolhido senador, chegou a ocupar a Presidência do Senado, como seu primeiro presidente.
Em contato demorado com essa plêiade talentosa de ótimos seminaristas e futuros valores humanos, não podia a aguçada curiosidade do Padre Cícero deixar de saciar-se, máxime era tido como um ledor infatigável, devorador dos numerosos livros que se iam enfileirando na biblioteca do Seminário, a maioria trazida da França e contendo o que havia de mais atualizado em assuntos filosóficos, teológicos, literários e de conhecimentos gerais.
Um espírito assim formado não podia jamais ser acoitado de escassez intelectual ou desprovido dos meios apropriados para atuar em qualquer meio social. É verdade que nele predominava uma certa tendência para o misticismo, o que não significa deficiência intelectual, pois disso também padeceram eminentes vultos da humanidade. E quanto ao fato de ter andado às voltas com sonhos e visões, uma das quais o levou à determinação de fixar-se definitivamente em Juazeiro, não há nisso nenhuma demonstração de fraqueza mental, pois são numerosos os testemunhos de grandes homens, cientistas e artistas, que atribuíram suas descobertas ou seus êxitos a insinuações misteriosas ou a inspirações inexplicáveis. Carl Jung, o grande psicanalista, que estudou a vida de muitos escritores, concluiu que as palavras algumas vezes lhe foram impostas positivamente, a pena escrevendo coisas que os olhos percebiam com assombro. Essas visões inspiradoras tinham algo de tão misterioso como a fonte de que provinham. Sendo que muitas ocorriam durante estados de semiconsciência, enquanto outras manifestavam-se durante o sonho. Descartes confessava que deveu a um sonho a chave mágica que abriu o cofre da geometria analítica, novo e revolucionário instrumento para o estudo do espaço e do tempo. Banting, ainda obscuro estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto, teve um sonho em 30 de outubro de 1920 que lhe indicou a fórmula para obtenção da insulina, graças à qual milhares de diabéticos podem hoje viver normalmente. Isaac Newton afirmava que deveu a uma voz misteriosa a descoberta da lei da gravitação, uma das mais importantes na história da ciência, e graças à qual foi possível a chegada do homem à lua. Goethe, o celebrado poeta alemão, não se pejava de dizer que sua inspiração ele encarava como dádiva inesperada do céu. Sócrates atribuía muitas das suas idéias a um demônio amigável. E agora, em nossos dias, Picasso, cujos quadros valem milhões, informa que, quando começa a pintar, alguém trabalha com ele.
Não é difícil, pois, em face disso, compreender a obstinação do Padre Cícero em permanecer o pequeno lugarejo, que a visão lhe antecipava populoso e trepidante e que lhe era entregue por Jesus Cristo para dele tomar conta e incumbir-se da salvação de tanta gente.
E graças a essa obstinação, que venceu as forças da natureza, que se sobrepôs a vontade dos homens e que se viu na contingência de enfrentar a decisão da Hierarquia, é que se compreende o surgimento e desenvolvimento do aglomerado humano que se fixou em Juazeiro. Ecologicamente não se explica o progresso urbano, do hoje importante centro carirense, comprimido entre duas grandes cidades bem servidas pela natureza, submetido à tirania da água, sem fartos recursos agrícolas. Apesar de tantos óbices, conquistou, de maneira explosiva, uma situação do mais alto relevo na economia cearense, apresentando-se como o maior centro industrial do Cariri, com um volume demográfico excedente ao da própria cidade do Crato, considerada a capital da região.
Uma tão admirável colméia humana, onde a atividade criadora se manifesta sob tantos aspectos, onde o comércio é intenso, as letras são cultivadas, a educação é bem desenvolvida, a vida social é trepidante, o movimento bancário é intenso, o bom gosto da classe alta é bem visível, com várias igrejas, numerosas escolas de todos os graus, ótimas comunicações urbanas e interurbanas, não pode ser resultado de um simples fluxo de pobres sertanejos, vindos de paragens distantes, incitados pelo mais rudimentar fanatismo. Temos de convir em que algo de supremo funcionou na transformação, em tão poucos anos, de um vilarejo pouco freqüentado numa das maiores cidades cearenses.
Diante dessa evolução extraordinária, seria interessante conhecer hoje a opinião de ilustre político e grande figura da intelectualidade patrícia que, há 32 anos passados, lamentava “terem resultados inúteis a imensa força e o prestígio, os maiores de que já dispôs um homem, neste país, em favor das populações que, por cerca de meio século, se prostraram ante o Padre Cícero”, acrescentando que, “a não ser um certo incremento de lavoura, nas regiões circunvizinhas, nem um outro benefício foi realizado pelas sucessivas ondas humanas que, durante décadas, se dobraram aos pés do taumaturgo sem par na história”.
Focalizando a pessoa do Padre Cícero, não quis julgá-lo nem submetê-lo ao julgamento dos coevos. Procurei apenas destacar a sua pessoa debaixo do aspecto sócio-cultural. A meu ver, é nesse terreno que se encontra e se destaca o caráter, mais significativo do chamado Patriarca do Juazeiro. Considerou-se ele depositário de uma estupefaciente missão: construir uma cidade – dar-lhe forma. Dar-lhe vida, dar-lhe grandeza. Para tanto sacrificou seus ideais missionários, seus interesses pessoais, suas afeições sacerdotais, a disciplina eclesiástica, sua própria liberdade de ação. Tudo o mais que pudesse acontecer com sua pessoa, ao redor de sua pessoas ou contra a sua pessoa deixou de ter significância para ele. Para compreendê-lo suficientemente, é preciso, como opina D. José Delgado, vê-lo de dentro para fora e não de fora para dentro, porque foi um homem de raras qualidades interiores. Essa era também a opinião de D. Joaquim, em sua carta Pastoral de 25 de julho de 1894, quando dizia que o Padre Cícero era um homem de costumes puros, de passado sem mancha, inteiramente desprendido dos bens deste mundo, estimável por seus elevados sentimentos e incapaz de qualquer ação menos nobre”.
Para quem o olha de fora para dentro ele parece desmentir essas qualidades. Para quem via nele apenas o homem, ele não passava de um ambicioso. Para quem o encarava como taumaturgo, ele tinha aspecto sobrenatural. Hoje, com o passar dos tempos, com o amainar das paixões, com os recursos da sociologia do conhecimento, da psicologia e da psicanálise, muita coisa que parecia obscura na sua conduta, inexplicável nos seus atos e até injustificável nas suas decisões torna-se perfeitamente compreensível e faz que apareçam imortais as grandes linhas da sua perpétua fisionomia.
Luiz Sucupira, 1974











DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA…
“As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
têm direito inalienável à Verdade, Memória,
História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado
O MASSACRE APAGADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA
No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato “JOSÉ LOURENÇO”, paraibano de Pilões de Dentro, seguidor do padre Cícero Romão Batista, encarados como “socialistas periculosos”.
O CRIME DE LESA HUMANIDADE
O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.
A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS
Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará É de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira e pelos Acordos e Convenções internacionais, por isto a SOS – DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que: a) seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) sejam os restos mortais exumados e identificados através de DNA e enterrados com dignidade, c) os documentos do massacre sejam liberados para o público e o crime seja incluído nos livros de história, d) os descendentes das vítimas e sobreviventes sejam indenizados no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos
A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO
A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, redistribuída para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá foi extinta sem julgamento do mérito em 16.09.2009.
AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5
A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do Sítio Caldeirão é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do Sítio Caldeirão não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;
A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA
A SOS DIREITOS HUMANOS, igualmente aos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo desaparecimento forçado de 1000 pessoas do Sítio Caldeirão.
QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA
A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem encontrar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes procurados no “Geopark Araripe” mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?
A COMISSÃO DA VERDADE
A SOS DIREITOS HUMANOS deseja apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e que o internauta divulgue esta notícia em seu blog, e a envie para seus representantes na Câmara municipal, Assembléia Legislativa, Câmara e Senado Federal, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal que informe a localização da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão.
Paz e Solidariedade,
Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
Membro da CDAA da OAB/CE
http://www.sosdireitoshumanos.org.br
sosdireitoshumanos@ig.com.br
Veja documentário que o doutor valdecy fez sobre Padre Cícero, após dois anos de filmagens. Intitulado: PADIM CIÇO, SANTOU OU CORONEL? Se gostar, comente, avalie e divulgue. Pode acessar através do blog: http://www.valdecyalves.blogspot.com visualizar o recado inteirorecolher recado
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