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A vida é real

25 January 2010 Sem comentários
Foto: Paul Burns/Corbis

Foto: Paul Burns/Corbis

    “A vida é real”, narrado em 1.ª pessoa, conta a história de Getúlio, um jovem mal-amado, que vê o mundo de forma pessimista e cheio de defeitos, e passa as lamúrias do seu amigo Carlos – um jovem que pode ser visto como um garoto ingênuo ou pelo menos se faz de tal. Ambos ficam num banco de uma praça discutindo sobre a sociedade em geral, porém eles sabem, principalmente Getúlio, o elo principal da narração: que todas essas reclamações não resultarão em nada, é como chover no molhado.

 

 

A vida é real 

               A tarde é fria como os longínquos dias da humanidade. Chego ao banco da praça e me sento. Carlos não havia chegado ainda. Nesse meio tempo, observo o movimento ao redor: poucos carros passam; assim como as pessoas. Uma garota muito bela cruza comigo. Olha-me rapidamente; faz uma cara de deboche e depois tira a vista com um sorriso sarcástico. Um pouco mais na frente, encontra-se com um jovem de boa aparência, num transporte, em seguida, ele a convida para sair; ela entra no carro e eles partem, talvez seja um conhecido.
               Eu, olhando as passantes, desperto com alguém que toca meu ombro, dizendo: – Getúlio, como sempre admirando a beleza feminina!
                Não sei, na verdade, de que beleza ele estava se referindo, mas se fora sobre aquela garota, preferi não comentar inicialmente.
               – Lá vem você com suas ironias. O que foi que ela fez?
               Olhei para Carlos com um olhar conformado, sem vontade de continuar com aquele assunto, mas, enfim, acabei dizendo: – uma jovem igual à grande maioria. Só a procura de alguma coisa para satisfazer seus interesses.
                – Poxa! Você começou o dia bem! Por falar em dia, como foi ele?
               – Mais ou menos, acordei, tomei o meu café, assisti aqueles noticiários de sempre, guerra na Palestina, conflitos tribais na África, os interesses burgueses norte-americanos, tragédias em geral, acidentes, assaltos terminados em morte, desemprego, pessoas passando fome, desejos políticos etc.
                – Chega! Eu vim aqui para conversarmos sobre a nossa rotina e não do que é óbvio!
              – Está bem, Carlos, o que você fez hoje, e de onde veio para chegar atrasado?
               – Venho da igreja, estava assistindo a missa das 16h.
               – Não sei por que você ainda perde tempo ouvindo as bobagens que o padre Joaquim diz.
               – E qual é o problema com o padre Joaquim? Ele falou de amor, de como devemos tratar o nosso próximo e …
               – É. Imagino que a maioria dos servos de Deus ou está dormindo, ou olhando para a roupa do irmão, criticando alguém no pensamento… Bem, se eu fosse perguntar a eles o que o padre falou, seria mais fácil eles me responderem com quem estava tal irmão, alguma fofoca fora de questão. E o seminarista Mauro, continua sendo hipócrita?
               – Getúlio, o Mauro é um cara legal, estudioso e segue bem as normas da igreja.
               – Segue tão bem que fica pegando as menininhas da cidade. E o mais invocado é que as bobocas só se aproximam dele porque ele é seminarista. Não sei qual a vantagem disso. Fora que ele é um relaxado, que vive das custas do padre Joaquim, que é outro avarento, no qual diz para sermos caridosos com os humildes, mas é o primeiro a sovinar para aqueles que vão pedir esmola na porta do convento. O que eu acho engraçado, é o pastor Alexandre discutindo com o padre Joaquim, é melhor que programa de comédia.
               Porque Carlos olha para mim indignado, eu lhe respondi:
               – A discussão deles é interessante: o padre Joaquim fala que todo conhecimento divino está com a Igreja e quem não tem acesso aos conhecimentos dela é um ser ignorante; já o pastor Alexandre fala que a verdade está na Bíblia, que aquele ser que trabalha, recebe seu capital, é visto como legítimo servo de Deus, além das doações caríssimas para satisfazer as demandas dessas facções cristãs, sejam elas sei lá… Luteranas, calvinistas, católicas etc. Aquele que não trabalha, não possui nenhum capital chamativo. Pode ser chamado, aquele que abandona a Deus no ponto de vista deles, é claro.
                – Getúlio, o que é importante é a fé daqueles que acreditam no Senhor.
               – A fé que mata a fome dos nossos conterrâneos, que o Estado tampouco se importa, já que não passam de uns pobres coitados de classe baixa, pois primeiramente necessita satisfazer as conveniências da burguesia, é a mesma fé que protege diariamente as pessoas que andam nas ruas, para não serem mortas por alguém sem coração, como tantos outros indivíduos sem sensibilidade, que falam de amor, se dizem servos de Deus, mas na verdade são vampiros que só se aproximam de alguém para ter algo em troca, uma vez terem bebido todo o sangue desta vida, e depois jogam a carcaça fora. Muitas dessas pessoas usam a religião como máscara para assim poder atender sua soberba. Talvez, meu caro Carlos, ter fé é só uma ilusão. Dizem que rezar pelo amanhã deixa você mais forte, se você só vê caos em toda parte; hipocrisia, egoísmo. As pessoas acham que estão bem, que o mundo é perfeito e não é, e nunca vai ser. Falar que a vida é bela, é estar sendo egoísta, pois você só pensa em si, enquanto as pessoas satisfazem seus vícios matérias e carnais, a luxúria ao extremo, em os jovens não ligam mais para o amor, somente se importam em usar as pessoas para satisfazerem seus desejos mais nojentos e promíscuos. As garotas que antes se via nos livros eram donzelas que se preparavam para um único homem. Hoje, na realidade, são de vários, se entregam de uma maneira tão vulgar, que mais parecem cadelas no cio. O exemplo mais claro são essas festas atuais, em que depois que homens e mulheres se satisfazem carnalmente, cada qual vai para o seu lado, lembrando um bando de animais selvagens no canil.
               Abismado, Carlos olha para mim de uma maneira estranha, logo perguntando: – O que foi? O que aconteceu? Por que essa revolta?
              – Bem. – eu respondi: – Geralmente, quando um homem sente dor, ele grita aquela dor em forma de pensamentos: “Lucy ignora-me, trocou-me por um jovem considerado um deus Apolo da vida. Só porque ele é atraente e recatado, ele é melhor do que eu. Então, ser mais homem é isso?! O que eu já fiz por ela, será que nunca teve valor, nada?! E meu amor?”.
               Carlos respondeu: – A beleza interior é a que vale.
               – Se fosse verdade não haveria distinção entre se você é feio, negro, gordo ou se é visto como um mongol ou possui alguma deficiência física. Essas coisas não atrapalhariam a sua vida, mas as pessoas procuram conformar-se com o óbvio. Não seria melhor se todas as pessoas fossem iguais fisicamente, socialmente e não houvesse as diferenças? Assim, o que distinguiria um do outro, seria a personalidade e o caráter de cada um. Se aos olhos de Deus, todos somos iguais, por que Deus nos permite viver num mundo cheio de desiguais, onde só o preconceito predomina, onde você não é visto pelo que tem a oferecer de concreto e sim de abstrato?!
              Carlos olha as horas quase querendo ir embora, pois eu pareço chateá-lo com as minhas críticas, os meus desabafos.
              A noite cai; pequenas auréolas se formam ao redor das lâmpadas dos postes, indicando que a temperatura está caindo. Carlos fala: – Eu já vou indo, está tarde. – e falando sarcasticamente diz: – Não vá cometer suicídio!
               – Poxa! Por que eu nunca pensei nisso?! Dizem que quem se mata vai para o inferno, ou seja, significa que você não sai do lugar. Mas por que se matar, se existem vidas piores do que a minha? Há pessoas que falam que é loucura, porém nunca ninguém procura se colocar no lugar da pessoa que sofre, seja lá qual for o problema. Mais idiota que seja. Pois o que faz uma pessoa matar-se pode ser vários motivos, porém é um que finaliza. Eu garanto que nem mesmo Jô aguentaria, se na sua época, estivesse do seu lado uma arma de fogo. Com certeza, ele atiraria na própria cabeça, ou seja, não devemos acreditar em tudo que lemos.
              Carlos já indignado comigo, falando de uma maneira irritada, grita comigo, dizendo:- Mas que droga, Getúlio! Diga-me uma coisa: o que diabo você quer afinal!
             Com lágrimas nos olhos, contudo sem gaguejar ou soluçar, respondi de maneira nostálgica: – O que eu quero? Pois bem. Eu vou dizer-lhe o que eu quero: gostaria que as pessoas parassem de ser tão fingidas, egoístas e orgulhosas, amassem aqueles que mostrassem verdadeiro valor, que não é ter dinheiro, ou qualquer coisa desse maldito mundo capitalista; quero que as pessoas deixem de ser tão cegas e consigam ver além dos seus próprios olhos; que os lendários lemas: igualdade, liberdade e fraternidade tornem-se reais e não ilusórios como essa vida que é cruel e muito real. Gostaria que as pessoas se aproximassem de alguém para ter um vinculo amistoso e não por interesses banais. Quero que a vida seja mais justa. Que aqueles que trabalham, que se sacrificam por algo, que lutam dia após dia sejam gratificados. Almejo que o amor seja correspondido pelas pessoas que adoram partir corações e não procuram entender o outro lado. Eu sonho ver Deus. Que ele venha a terra, mostre a sua face, destrua os nossos medos e tire a sua máscara. Eu quero a Lucy. Que ela me ame pelos meus predicados e me entenda pelo que eu sou, não por aparência, status ou conveniência pessoal ou social. Não só ela, mas que o mundo em geral veja o verdadeiro valor do que é abstrato. É isso o que eu quero, pois nós somos espíritos neste mundo materialista.
             Sem dizer mais nenhuma palavra, Carlos levantou-se e seguiu seu rumo e eu segui o meu, cada um indo para o lado oposto. Talvez ele concorde comigo, mas não quer enxergar o todo.
             Quem sabe, ele esteja certo em parte? Às vezes é bom ser cego e ficar em cima do muro, já que enquanto comemos e bebemos há muita dor em toda parte. Mortes, sofrimentos são uma infinita maldade que sinto afogar-me nela. Todavia através dessa ofuscação mental é que poderia haver uma tentativa de não se ser infeliz, de não se conseguir a sufocação das nossas almas.

Elton Araújo Almeida
Pré vestibular Colégio Dez

 

COMENTÁRIO
    Wilton Porto 

      Elton Araújo é um cronista antenado com a atualidade. Tem escrito com muita desenvoltura sobre os conflitos da humanidade, principalmente no tocante ao relacionamento, ao egoísmo, orgulho, pedantismo. Às vezes, a religião recebe comentários. Até acho que não poderia ser diferente, já que como ocidentais, recebemos – desde a infância – uma educação religiosa primorosa. Ou seja: nossos pais, católicos ou evangélicos, costumam levar os filhos para a igreja, tentam educá-los dentro dos catecismos, estudos evangélicos, grupos de jovem.
              Entretanto, quando crescemos, partimos para as escolas, trabalhos, internet. Passamos a descobrir outros valores. E dependendo do acúmulo de conhecimento guardado no nosso subconsciente, vamos percebendo, visualizando erros e acertos. Os erros nem sempre são bem absorvidos ou aceitos.
               Sabe-se que a educação, em qualquer parte do mundo, muita vezes leva o homem a se integrar mais com as coisas dos cinco sentidos do que com a intuição, os valores espirituais. É evidente, quando vemos a forma como as pessoas se apegam a casa, carro, festas, sexo, poder econômico. Os relacionamentos conturbados nunca deixaram de existir. Drogas, roubos, assassinatos. Ir a uma festa atrai mais do que ir a uma missa ou culto evangélico. E se perguntarmos quantos leem e discutem os Evangelhos em casa, pode acreditar o leitor, o mínimo.
              Quando o jovem é humilde, pobre ou feio, costuma-se colocá-lo de lado. Achando-se peixe fora d’água, ele se retrai, tem dificuldade de digerir aquilo e a sensibilidade é tocada pela amargura, gerando inconformismo e outros problemas de ordem psicológica.
               Já ouvi muita gente afirmar de como fora tratada em certos ambientes. Roupas, sapatos passam a ter uma importância fora do comum. Há os que chegam a expulsar o freguês com palavras deselegantes, como se fossem ladrões ou pedintes.
              Entre os jovens, de famílias mais abastadas, não se preocupam se estão ferindo o colega mais pobre ou menos atrativos em beleza física. Esquecem completamente que um dia a beleza cai por terra: aparecem as rugas, a musculatura já não será a de antes. E como nem sempre o atrativo físico significa requinte interior, preparo psicoespiritual, mais tarde, quando esses jovens perceberem que o interior é mais importante, já é tarde.
               Elton, nesta crônica, trabalhou com sucesso esse tema. Num banco de praça, dois personagens desenrolam essa verdade. Chamam o leitor para uma análise, exigem que vejamos como estamos agindo e pedem que tomemos posicionamento: somos integrantes da sociedade, temos parcela de responsabilidade, acima de tudo com os nossos filhos em desenvolvimento educacional, cultural.
               Um personagem diz: “O que eu quero? Pois bem. Eu vou dizer-lhe o que eu quero: eu gostaria que as pessoas parassem de ser tão fingidas, egoístas e orgulhosas, amassem aqueles que mostrassem verdadeiro valor, que não é ter dinheiro, ou qualquer coisa desse maldito mundo capitalista”.
              Bela porrada no nosso rosto! Primorosa, chega a ser, se considerarmos escrita por um jovem escritor que ainda nem é universitário, embora Elton tenha sido aprovado em primeiro lugar no vestibular para História, na UFPI. Último vestibular.
              A crônica de Elton tem um sabor de mel, quando ela traduz essas diferenças sociais e religiosas. Ao nos colocar diante de nós mesmo, para numa reflexão demorada, tomarmos consciência de quem somos. Que papel estamos prestando na família e na comunidade onde vivemos.
              A crônica não deixa de revelar o como muitas jovens vêm agindo, levadas pela facilidade ou liberdade de ação. Muitas garotas, jovenzinhas, têm vida sexual ativa sem a menor preocupação. Muitas aparecem grávidas e são os pais que tomarão conta dos filhos. Quando não acontece o pior: o aborto, uma vez que os pais das crianças escapam pelas laterais.
              Seria interessante que não só se lessem a crônica de Elton Araújo, todavia que se fizesse muitos comentários.

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