A intriga de Alarico da Cunha e Monsenhor Roberto Lopes

Alarico da Cunha e Mosenhor Roberto Lopes
“Quando editei em brochura ‘As Exéquias de Dom Francisco’, ofereci um exemplar a Monsenhor Roberto. Não se fez esperar a sua crítica ao meu trabalho [...] fez honrosa referência ao livreto, considerando-o um trabalho útil e um grande subsídio aos anais da história eclesiástica do Maranhão. Comentou a minha estima, respeito e admiração ao saudoso antístine. Notou, entretanto, que havia na obra alguns senões, embora estes não diminuíssem o valor da narrativa. Disse não ser verdade que tivesse havido preces públicas pelo restabelecimento do Bispo, e sim orações na Igreja Matriz. Todavia, eu ouvi várias senhoras católicas recomendando que se fizessem preces pelo restabelecimento de Dom Francisco. Pode não terem sido autorizadas pela Igreja, mas sei que foram feitas, e eu próprio as fiz. Disse não ser certo que o preclaro Bispo tenha feito um belo sermão na Igreja, três dias antes de sua morte, de vez que sua enfermidade durou mais de uma semana. O sermão foi feito dias antes. Disse mais, que o Bispo, já em agonia, não se ajoelhara na cama sozinho para receber a comunhão, e sim ajudado pelo cônego Lemercier, seu secretário. Efetivamente, não assisti à enfermidade de D. Francisco. Afirmei o que me contaram. Os crentes, em geral, gostam de exagerar as narrativas religiosas, dando-lhes um cunho de milagre. Foi isso o que aconteceu. Apenas enfeitaram a verdade, porém os fatos ocorreram e Monsenhor não os negou”, após o prelo de sua defesa, investiu duras críticas, como que contra-atacando, com muita classe, o religioso amigo: “venho dizer que não pode ser certo alguém afirmar que o Padre Roberto nunca tenha manifestado os seus talentos intelectuais. Ao contrário disso, ele fundou os jornais ‘O Sino’ e ‘A Ação’ e revelou-se homem da imprensa, escrevendo sempre em defesa da Igreja e da moral cristã [...] não é poeta. Escreve versos de oitiva, sem obedecer à arte. Os seus sonetos não obedecem métrica. As rimas dos quartetos nunca são iguais e mistura versos heróicos com alexandrinos, e nestes nunca forma o necessário hemistíquio, embora haja neles inspiração e espontaneidade [...] esses senões não sacrifica o pendor literário do nosso Aloísio de Lins, pois compreende-se que é prosador e não sacrifica o seu pensamento burilando poesia quando verseja, nem quer escrever no estilo moderno [...] há episódios reais de sua vida entre nós, que bem revelam o seu bom humor e sagacidade [...] estava numa roda de batizados uma criança preta, hidrocéfala e de beiços rachados. Assim que o Padre a viu, foi dizendo: ‘é bicho ou é gente. Se for bicho eu não batizo’ [...] uma vez um caboclo conversava com o Monsenhor, narrando uma história sem graça e nunca fazia o ponto final. No decorrer da conversa se referiu a um valentão que puxara uma faca para o companheiro e fez a mímica de quem retirava a faca da bainha. Nisto, o Padre deu um passo para traz e afirmou: – ‘Não! de faca não venha!’ … Cortou, assim, a enfadonha conversa do homem [...] Monsenhor nunca me aceitou para padrinho de batismo, por ser eu maçom e espírita [...] Bembém que, apesar das relações de amizade que mantinha com o Padre, receava que também não aceitasse para padrinho. Todavia, levou uma criança para o batismo e o Padre o aceitou, sem nenhuma objeção. Dias depois foi recusado um maçom, como padrinho de uma criança. Este, porém, não se conformando com a recusa, foi reclamar ao Padre, alegando que estranhava não ter sido aceito, por ser maçom; no entanto, ‘seu’ Bembém, que também era, fora padrinho dias atrás, ao que o Padre replicou: – ‘Ora, o Bembém?… O Bembém nunca foi maçom’” (CUNHA. Alarico da. Elas por elas…. Parnaíba: Almanaque da Parnaíba, 1964. p. 147-9).











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