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Noite de Natal

24 December 2009 Sem comentários
Foto: Micheline Pelletier/Sygma/Corbis

Foto: Micheline Pelletier/Sygma/Corbis

              Esta manhã, quando os galos dos quintais vizinhos cantaram pela primeira vez, eu abandonei o livro que se achava aberto diante de mim e desci, sozinho, a Praia do Flamengo, em direção à cidade. Automóveis passavam, rápidos, pelo asfalto molhado, arrancando sons semelhantes aos que soltam os fósforos riscados de súbito. Como perdi todos os meus amigos depois que deixei de ser deputado e os candidatos à Academia estejam agora dormindo, de tanto se fatigarem durante o dia, não encontrei nenhum conhecido pelo caminho. Ao chegar, porém, ao jardim da Glória, notei que no meio de tanta cousa dinâmica, de tanto carro que se movia célebre, um veículo havia, parado, junto ao gramado que a chuva borrifara. Aproximei-me, e reconheci: era uma carroça da Limpeza Pública, puxada por um burro. E foi com este que travei, enquanto o carroceiro dormia em um banco próximo, este diálogo proveitoso e melancólico.
              EU – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, amigo burro!
              ELE – Para sempre seja louvado, meu senhor… Como passa Vossa Excelência?
              EU – Excelência, não; não me trate mais assim; eu não sou mais congressista…
              ELE – Mas é da Academia… os acadêmicos têm direito a esse tratamento…
              EU – Têm; mas, tratemo-nos como seu eu fosse burro ou você fosse acadêmico: tratemo-nos por “você”.
              ELE – Está combinado. Mas que faz você por aqui, sozinho? Não sabe que hoje é noite de Natal, isto é, a noite mais feliz da cristandade?
              EU – Noite feliz, para os felizes. E eu passei, já, a idade em que os homens têm paladar para o vinho da felicidade. Para ser feliz é preciso ser simples. E eu tenho o espírito emaranhado de dúvidas e o coração fervilhante de interrogações complicadas.
              ELE – Pois não sabe o que perde com isso. Eu, de mim, confesso que sou ainda o mesmo animal do tempo em que Jesus nasceu. Fui testemunha desse acontecimento, em Nazaré. Escutei o primeiro vagido do Deus-menino, e vi-o sugar o primeiro gole de leite. Para que o seu leito fosse mais fofo, e o seu sono mais doce, não toquei na minha ração de palha, na manjedoura. Vi chegar os camelos dos Reis Magos e, quando se soube da perseguição de Herodes, foi no meu dorso que Ele fugiu para o Egito, no colo materno. Deixei-o pequenino, e, quando o vi de novo, era homem, ou, melhor, era Deus. E foi ainda montado em mim que Ele, entre palmas e aleluias, entrou em Jerusalém.
              EU – É, assim, um quadrúpede ilustre. Tem o nome na História Sagrada…
              ELE – Tenho, sim. Acompanhei Jesus do Presepe à cidade em que ele devia ser crucificado. Os outros animais – o camelo, o boi, o carneiro, – só apareceram no início da carreira do reformador do mundo. São companheiros das horas boas, na alvorada dos destinos. Viu você o que fez aquele nosso colega…
             EU – Que colega?
             ELE – O camelo.
              EU – Ahn…
              ELE – Apareceu quando havia ouro, incenso e mirra… Quando chegou, porém, a hora da adversidade, não se falou mais nele. Eu, não; eu fui, e sou, um animal de caráter.
             EU – É burro…
             ELE – E, no entanto, como você sabe, não há notícia da existência de um burro no céu! Porque fui amigo d’Ele até a hora do martírio, sofri toda a sorte de humilhações. Sou o escárnio dos séculos, o quadrúpede irrisório e desprezível. Os outros, que o abandonaram na hora má, unindo-se aos fariseus, viram-se premiados por estes, que fecharam os olhos ao que eles foram. Mas, volte Jesus ao mundo, e verá você uma cousa: o carneiro, o camelo e o boi voltarão às suas boas graças, alegando que se achavam aliados ao inimigo por conveniência e disfarce, e porque não podiam viver sem o capim das estrebarias de Herodes; enquanto que eu, – coitado de mim! – continuarei o mesmo: não terei, sequer, um aperto de pata!
             EU – Sabe por que acontece isso?
             ELE – Não.
             EU – É porque você é burro!
 Nesse momento, despertado pela buzina de um automóvel, o carroceiro moveu-se no banco. O burro afilou as orelhas.
              ELE – Você quer um conselho?
              EU – Diga.
              ELE – Nunca se faça de burro na vida. Não assista ao nascimento de Deus nenhum. Não o carregue às costas. Não se interponha entre ele e os que o perseguirem. Nem entre com ele em Jerusalém. Os Deuses são Deuses, mas…
              EU – Diga o resto.
              ELE – Acabam, como aquele que eu acompanhei, suando sangue, subindo o Calvário…
              Um galo cantou longe, anunciando a manhã. E todos os galos da cidade, acordados de súbito, responderam numa apoteose sonora, saudando o Sol, que ia nascer…

Humberto de Campos, 1933

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