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Luiza Amélia de Queiroz

26 December 2009 Sem comentários
Luiza Amélia

Luiza Amélia

              Este mês de dezembro completa 171 anos do nascimento de D. Luiza Amélia de Queiroz. Nascida no dia 26 de dezembro de 1838, foi, ela, uma das mais importantes expressões poéticas do País, enquadra-se entre as poucas mulheres do século XIX a publicar livro e ser bem aceita no meio literário. Nasceu em Piracuruca e morou parte da vida, quando do segundo casamento, em Parnaíba com Benedicto Madeira Brandão. Era notadamente uma mulher de inteligência espetacular e sensibilidade aguçada. A sua vida é um grande mistério para estudiosos e pesquisadores. Faleceu na terra de Simplício Dias da Silva no dia 12 de novembro de 1898, vítima de câncer. Não teve filhos, mas deixou para o mundo duas obras que representam, sem sombra de dúvidas, o marco maior, e principal, do Romantismo no Estado, hoje, infelizmente, tão negado. Cognominaram-na “Princesa da Poesia Romântica do Piauí”.

O Piagüí – O futuro já sabe da sua importância para o Piauí, mas queremos de suas próprias palavras quem foi Luiza Amélia?
Luiza Amélia – Pergunta difícil, principalmente para uma mulher como eu, mas vou tentar responder. Luiza Amélia foi uma mulher que viveu dois períodos distintos de vida: A primeira, nas suas primeiras núpcias com o Sr. Pedro Nunes, homem bastante especial e generoso, todavia, competente às minhas energias de moça; freando-me, controlando-me…, coisas que, inclusive, eram mesmo comuns àquela época, cujas mulheres deviam se submeter ao julgo dos maridos; por conta daquela situação, esta fase de minha vida foi marcada por versos fortes em relação à bruteza masculina, à liberdade, à luta… Ah, como eu podia esquecer… Casei muito jovem, e não conseguia entender a ausência dos homens no lar, isso me era um tormento tão grande que, tão-logo, fez florescer, em mim, um sentimento muito ruim: O ciúme; mas não um ciúme qualquer, um ciúme refletido em versos. Era certo que eu vivia bem com o Sr. Nunes, mas não era como muitos pensavam, bem… Eu poderia ilustrar com os seguintes versos que compus em um desses momentos sofridos: “Não me julgues feliz, ó donzela, / Não me invejes querendo imitar; / Desta vida que julgas tão bela, / Deus te livre das dores provar. / De que serve a mulher nesta terra / Ter na mente sublime ideal? / Pra sofrer de mil nescios a guerra / Crua guerra, tremenda e fatal?”.

O Piagüí – Versos tristes, esses… Mas nos diga: E a segunda fase seria a de uma Luiza Amélia mais madura, mais independente?
Luiza Amélia – Sem dúvidas, ou melhor, em partes! Após aquele período difícil com o Sr. Pedro Nunes, resolvi parar de escrever, havia eu publicado somente um livro: “Flores Incultas”, e pensava ser, ele, o caixão de meu estro literário. Foi quanto meu marido morreu e passei por um longo período em luto, até conhecer o Sr. Benedicto Madeira Brandão, rico comerciante que me encantou, fazendo renascer, em mim, a coragem para seguir a vida; foi aí que me casei novamente e com ele vivi lindos momentos…

O Piagüí – “Lindos momentos”? Poderia nos explicar o que quis dizer com isso?
Luiza Amélia – Sim! O Sr. Brandão tinha uma coisa semelhante ao Sr. Nunes: Não tinha muito tempo para o lar; em contrapartida, era um homem de visão de futuro: Valorizava os dotes de sua esposa e em uma dessas tardes o flagrei – era dezembro de 1886 – lendo alguns de meus papéis antigos, dos quais eu havia escrito na adolescência, eram alguns cantos de “Georgina ou Os Efeitos do Amor”, e assim me disse:
            “- Porque a não concluis?
            – Não vale a pena, e demais, já passou-me a ilusão, a mania de fazer versos.
            – Faze um esforço.
            – Já que queres!…”.

Capa Georgina ou Os Efeitos do AmorO Piagüí – Foi então aí que nasceu Georgina?
Luiza Amélia – Sim, recebendo-a daquelas mãos, “percorri com o olhar aquelas páginas um pouco amarelecidas pelo tempo. Que multidão de defeitos encontrei então na pobre abandonada! Era mister corrigi-los, visto que tinha de comparecer em público. Assim, tive de mutilar e recompor o 1.º canto, reformar quase em toda sua totalidade os três que se lhe seguem, para passar ao último, do qual havia feito somente um leve esboço. Não sei se agradei ao público”, todavia, do Sr. Dr. Francisco Dias Carneiro recebi um elogio digno de cidadãos que atingiram os píncaros da glória; a propósito, foram suas as palavras que escolhi para o prefácio de Georgina, o seu ensaio foi tão rico que o transcrevi em sua íntegra, e no livro ocupa dezesseis páginas.

O Piagüí – Creio que todas as mudanças de versos, acréscimos e retiradas, devem ter lhe tomado um tempo precioso, afinal de contas, o livro é divido em cinco grandes cantos…
Luiza Amélia – … Com certeza, mas fiz tudo com um enorme prazer, faltava-me mesmo apenas o apoio de meu marido, o que já havia sido dado incondicionalmente. Apesar de no ano seguinte eu ter iniciado os preparativos de “Georgina”, foi somente em 1896, portanto, três anos antes de minha morte, na Tipografia a vapor da Pacotilha, no Maranhão, que ele veio a público. Foi uma alegria sem tamanho para mim, estava ressuscitada, ali, a velha e guerreira Luiza Amélia. Tratei de ofertá-lo aos amigos dos mais longínquos lugares do Brasil, dentre eles eu destacaria um de muito apreço e simpatia literária, o Sr. Simplício Mello de Bezerra.

O Piagüí – Como deve saber, as suas obras, hoje, estão perdidas. Infelizmente o destino houve de dar-lhe a roupagem de anonimato. O que nos diz disso?
Luiza Amélia – O que eu digo (sorriu)?! Bem, acho que não tenho nada a dizer a não ser da minha tristeza. Se hoje me desconhecem como pioneira do romantismo no Piauí é por conta da ignorância de uns poucos falsos intelectuais que se prestam ao desserviço da literatura do estado de forma intencionada. Mas, de fato, há uma explicação lógica para que isso tenha acontecido: Meus livros, tanto “Flores Incultas” quanto “Georgina”, só vieram a público em uma edição, o que, consequentemente, lhe consagram, mais de um século depois, exemplares de colecionador. Sabe, não creio que meus livros estejam perdidos, na realidade, estão bem guardados, mas tão bem guardados em bibliotecas particulares, que vão assim, atravessando décadas e mais décadas até que um dia sirvam, definitivamente, de alimento aos cupins. Enfim, o que deixo a vocês é que neste vasto campo de pesquisa ainda há muito que se descobrir, por exemplo, há um grande equívoco quando me elegem como a única mulher em Parnaíba a escrever no século XIX… O que diria minha amiga Francisca Motenegro com isso? Ela era uma ótima poetisa, cheia de versos patrícios, mas, diferente de mim, não teve tanta repercussão por não ter publicado nada em vida, a não ser nos jornaizinhos que em Parnaíba circulavam. Voltando aos assuntos dos meus livros, a realidade é esta: Os que os têm, e sabem da importância deles, permanecem calados, como se fossem donos do saber; como se “Flores Incultas” e “Georgina” lhes dessem asas ao ponto de não fazê-los tocar o chão, quando, por feito do bom senso, deviam tornar meus versos públicos, a fim de que, ao menos, pudessem ser reeditados e assim eternizados de uma vez por todas.  

O Piagüí – Falando em Poesia, poderia nos deixar alguns versos?
Luiza Amélia – Seria um enorme prazer, ditarei duas oitavas: 

Desengano

Desengano cruel, palavra imensa,
selo fatal que o desespero imprime!
em teu seio pulula a dor intensa,
o delírio da morte e a voz do crime!
o teu aspecto mau produz descrença,
crucia o coração que a mágoa oprime,
e teu sinistre olhar em calafrios
enfraquece a razão, enerva os brios!

Tu és, maligno ser, dum belo sonho,
que a mente nos fascina, em mago encanto,
o rude despertar! gênio tristonho,
que uma existência toda funde em pranto!
pálida sombra dum pungir medonho,
quem te não teme? quem? teu negro manto
acoberta um sofrer que não tem nome,
que punge! que lacera! que consome!

(…)

 

Daniel C. B. Ciarlini

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