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Cego Bento

17 December 2009 Sem comentários
Cego Bento

Cego Bento

              Nascido no dia 17 de setembro de 1921, em Luís Correia, no lugarejo conhecido pelo nome de Boa Vista, Bento de Araújo da Cunha, o Cego Bento, aos 10 anos já tocava realejo ao lado dos irmãos Bernardo e Benedito que, na ocasião, o acompanhavam ora no chocalho, ora no na batida de cabeção junto a um tamborete qualquer. Formava-se, então, ali, numa brincadeira de criança, um trio que, mais tarde, seria responsável pelo sentimento de amor à música, os primeiros passos de Bento. Aquele trio, sempre vestido dos rústicos instrumentos, além de outros auxiliares como o maracá, fazia pequenas serestas nas casas dos vizinhos a títulos de recompensa em bolo, tapioca e uns poucos tostões. 
              Quatro anos após o nascimento daquele trio de irmãos, que já era conhecido em Boa Vista, a família de Bento, que seguia às mudanças de ofício do pai, rumou para Gameleira. Era, portanto, o ano de 1935. Bento, contando 14 anos, largou o realejo e dedicou-se à harmônica de quatro baixos; Bernardo ao cavaquinho; e Benedito ao reco-reco. O trio, então, evoluiu, e os gostos pareciam se apurar com o passar dos anos, não tardou surgir, porém, consoante àquela evolução de jovens músicos, os primeiros contratos, fator, este, decisivo para a qualificação do grupo. O cumprimento de contratos musicais, por aquela década, ainda mais na região em que se encontrava, onde transporte motor não havia senão à tração animal, era, portanto, laborioso; e os jovens, às vezes, tinham de seguir cerca de sete a oito léguas para as festas.
              Em 1940 a “orquestra”, como era conhecida, sai de Gameleira e aporta em Parnaíba. Já havia, ela, com os ganhos das festas, adquirido novos instrumentos: Uma nova harmônica, bombo, tamborim, banjo e clarinete. Apesar da evolução musical adquirida pelo empirismo, Cego Bento queria mais, para isso, buscou, nas lições do mestre Raimundo Ribeiro da Silva, o Raimundo Tropa, o que lhe faltava; aprendeu, então, as tonalidades, escalas cromática e natural, e outras tantas necessidades metodológicas que a boa música exige. Sobre aquelas aulas com Mestre Tropa, Cego Bento lembra: “todos os dias ele me ensinava uma música, naquele tempo era o samba, a marcha, a rumba, o fox, o xote, o baião. Maneira como me ensinava: Ele pegava partitura e assobiava até eu gravar na memória. Pegava dez tons para uma música”. Foi ao lado daquele mestre que o Sr. Bento evoluiria e em pouco tempo ficaria conhecido pela alcunha que lhe consagra, hoje, identidade artística: Cego Bento.
               Parnaíba, no ano de 1944, celebrava, nos quatro cantos do município, o seu primeiro centenário. Naquele ano, inclusive, na Praça Santo Antônio, era erguido o monumento que até hoje enfatiza a cívica passagem. Cego Bento, já conhecido por todos, foi convidado a tocar em algumas das comemorações alusivas à data, contabiliza, ele, pois, nove noites, além da mais marcante, à Praça da Graça, onde a sociedade parnaibana se reuniu em uma multidão impossível de calcular. No decorrer de sua trajetória artística, Bento conheceu personalidades como Luís Gonzaga e tocou em muitos lugares, dentre eles o clube Sinorion, responsável por um dos mais festivos carnavais da região; quase todos os clubes da cidade assistiram Cego Bento tocar: “Fluminense”, “Ferroviário”, “Clube do Trabalhador”, “Guarani”, “Coroa”, além do famoso “Cassino 24 de Janeiro”. Tocou ainda na “Munguba”, “Madalena”, “QG”, “Cabeleira”, “Lulu”, “Ninho do Xexéu” e “Gordo”. A parceria do trio durou muitos anos, e foi desfeita, apenas, no ano de 1971, quando surgiu o conhecido “Trio Igaraçu”, que saía pelas praias de Luís Correia, todos os domingos, a ofertar suas músicas de bar em bar, mesa em mesa. O “Trio Igaraçu”  tinha Cego Bento na sanfona, Luiz no pandeiro e Nonato Gordo no cavaquinho.  Hoje, o “Trio” já não toca mais, Nonato Gordo, que foi músico, também, da banda de música municipal, morreu e o grupo se desfez. Cego Bento casou-se em 31 janeiro de 1951 e possui doze filhos. Sobre as quase nove décadas de existência, aposentado da música, nos deixou a seguinte frase “já me acho realizado; depois de tanto serviço prestado, deixo a vida artística para ficar na história”, sem dúvidas: Cego Bento, pois, é um patrimônio vivo da nossa gente!

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