Cego Bento

Cego Bento
Nascido no dia 17 de setembro de 1921, em Luís Correia, no lugarejo conhecido pelo nome de Boa Vista, Bento de Araújo da Cunha, o Cego Bento, aos 10 anos já tocava realejo ao lado dos irmãos Bernardo e Benedito que, na ocasião, o acompanhavam ora no chocalho, ora no na batida de cabeção junto a um tamborete qualquer. Formava-se, então, ali, numa brincadeira de criança, um trio que, mais tarde, seria responsável pelo sentimento de amor à música, os primeiros passos de Bento. Aquele trio, sempre vestido dos rústicos instrumentos, além de outros auxiliares como o maracá, fazia pequenas serestas nas casas dos vizinhos a títulos de recompensa em bolo, tapioca e uns poucos tostões.
Quatro anos após o nascimento daquele trio de irmãos, que já era conhecido em Boa Vista, a família de Bento, que seguia às mudanças de ofício do pai, rumou para Gameleira. Era, portanto, o ano de 1935. Bento, contando 14 anos, largou o realejo e dedicou-se à harmônica de quatro baixos; Bernardo ao cavaquinho; e Benedito ao reco-reco. O trio, então, evoluiu, e os gostos pareciam se apurar com o passar dos anos, não tardou surgir, porém, consoante àquela evolução de jovens músicos, os primeiros contratos, fator, este, decisivo para a qualificação do grupo. O cumprimento de contratos musicais, por aquela década, ainda mais na região em que se encontrava, onde transporte motor não havia senão à tração animal, era, portanto, laborioso; e os jovens, às vezes, tinham de seguir cerca de sete a oito léguas para as festas.
Em 1940 a “orquestra”, como era conhecida, sai de Gameleira e aporta em Parnaíba. Já havia, ela, com os ganhos das festas, adquirido novos instrumentos: Uma nova harmônica, bombo, tamborim, banjo e clarinete. Apesar da evolução musical adquirida pelo empirismo, Cego Bento queria mais, para isso, buscou, nas lições do mestre Raimundo Ribeiro da Silva, o Raimundo Tropa, o que lhe faltava; aprendeu, então, as tonalidades, escalas cromática e natural, e outras tantas necessidades metodológicas que a boa música exige. Sobre aquelas aulas com Mestre Tropa, Cego Bento lembra: “todos os dias ele me ensinava uma música, naquele tempo era o samba, a marcha, a rumba, o fox, o xote, o baião. Maneira como me ensinava: Ele pegava partitura e assobiava até eu gravar na memória. Pegava dez tons para uma música”. Foi ao lado daquele mestre que o Sr. Bento evoluiria e em pouco tempo ficaria conhecido pela alcunha que lhe consagra, hoje, identidade artística: Cego Bento.
Parnaíba, no ano de 1944, celebrava, nos quatro cantos do município, o seu primeiro centenário. Naquele ano, inclusive, na Praça Santo Antônio, era erguido o monumento que até hoje enfatiza a cívica passagem. Cego Bento, já conhecido por todos, foi convidado a tocar em algumas das comemorações alusivas à data, contabiliza, ele, pois, nove noites, além da mais marcante, à Praça da Graça, onde a sociedade parnaibana se reuniu em uma multidão impossível de calcular. No decorrer de sua trajetória artística, Bento conheceu personalidades como Luís Gonzaga e tocou em muitos lugares, dentre eles o clube Sinorion, responsável por um dos mais festivos carnavais da região; quase todos os clubes da cidade assistiram Cego Bento tocar: “Fluminense”, “Ferroviário”, “Clube do Trabalhador”, “Guarani”, “Coroa”, além do famoso “Cassino 24 de Janeiro”. Tocou ainda na “Munguba”, “Madalena”, “QG”, “Cabeleira”, “Lulu”, “Ninho do Xexéu” e “Gordo”. A parceria do trio durou muitos anos, e foi desfeita, apenas, no ano de 1971, quando surgiu o conhecido “Trio Igaraçu”, que saía pelas praias de Luís Correia, todos os domingos, a ofertar suas músicas de bar em bar, mesa em mesa. O “Trio Igaraçu” tinha Cego Bento na sanfona, Luiz no pandeiro e Nonato Gordo no cavaquinho. Hoje, o “Trio” já não toca mais, Nonato Gordo, que foi músico, também, da banda de música municipal, morreu e o grupo se desfez. Cego Bento casou-se em 31 janeiro de 1951 e possui doze filhos. Sobre as quase nove décadas de existência, aposentado da música, nos deixou a seguinte frase “já me acho realizado; depois de tanto serviço prestado, deixo a vida artística para ficar na história”, sem dúvidas: Cego Bento, pois, é um patrimônio vivo da nossa gente!
ASSISTA VÍDEO EXCLUSIVO












Deixe um comentário