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Carta aberta de esclarecimento

27 December 2009 Sem comentários

Radicais Livres              Ao longo do processo cultural, nos últimos anos, tivemos várias disputas internas. Nossas relações sempre foram acaloradas e férteis de discussões. Acreditamos que é por meio do debate que podemos chegar a um ponto comum, em que todos acreditem ou a maioria vote. Porém, as práticas autoritárias de pessoas como Paulo Dagomé e outros componentes que eram beneficiados por suas práticas vinham deturpando a imagem deste grupo de artistas.
              Nosso coletivo se faz presente nas principais lutas e discussões em prol da cultura, tanto em São Sebastião quanto em todo o Distrito Federal, sendo citados em diversos fóruns da sociedade pela nossa intensa militância em favor da democratização das manifestações e produções artísticas nas periferias. Com os nossos saraus, temos demonstrado a Brasília inteira como se pode unir o amador ao profissional, em lugares humildes, com pouca estrutura e fazer arte de qualidade, com encantamento e beleza. Porém, poucos sabem os dramas que afetam nossos fazeres artísticos, bem como a quantidade de polêmicas que nos afligem. O fato é que, por uma série de vícios de nossas práticas diárias na vida de Radicais Livres, chegamos a um impasse entre viver sob os maniqueísmos paternais de nosso mentor e os temores de um racha entre amigos tão queridos. Tanto as questões conjunturais quanto as necessidades do dia a dia nos levaram a rachar nosso grupo. Mas a luta continua. Esta não é uma carta carinhosa ou delicada. É uma verdade inconveniente, que afligiu a todos os Radicais nos últimos seis anos.
              Somos um grupo de personalidades muito fortes. Em cada um de nós, várias larvas consomem nossos cérebros, sempre incomodados com questões mil. Isto sempre foi admirado em nossa ação, pois resultou em muitas crônicas, poemas, funzines… Mas sempre precisamos, como qualquer grupo, de direcionamento. E dentre tantas cabeças, uma cabeça mais experiente deveria nos dar polimento e nos orientar. Isto foi natural para Paulo Dagomé. A maioria de nós foi forjada em constantes discussões com este baiano de Vitória da Conquista. Contudo, no afã de coordenar as ações do grupo, ele sempre se utilizou de ferramentas ardilosas, guiado por interesses próprios.
              Talvez, os mais afeitos à política, e antes de qualquer coisa, de politicagens, achem que isto foi a grande sacada dele. Mas aos poucos poderão compreender porque foi quase nosso suicídio. Sempre que era preciso uma decisão, este mentor consultava um a um de nós. Nunca chamou uma assembléia para que pensássemos uma ideia coletiva, ou apresentasse seus planos com transparência. Fazia suas ações, arrumou algum artifício de raciocínio e ligou ou falou com cada um pessoalmente para angariar votos a seu favor e, depois, em assembleia de grupo, só chancelava suas opiniões e decisões, como se tivesse havido uma decisão de todos. Sem se esquecer de incentivar algum de nós, a quem a ideia mais interessasse para ser o testa de ferro na hora de falar dos pontos mais delicados ou indesejáveis, de forma a não desgastar sua própria imagem ante aos demais. Por fim, emergia diante do grupo como aquele que deu a solução e não o problema. Este tipo de lobismo de Paulo não se referia a grandes decisões, mas a toda e a quaisquer decisões que necessitassem de aprovação do coletivo.
              Paralelamente, ele conduziu o grupo a aproximar-se de sua linha política de atuação, independentemente das conseqüências. Revelou-se pouco preocupado com a cultura em si, mas muito determinado em capitalizar os resultados de nosso trabalho conjunto de forma politiqueira e em nosso nome. Entretanto, desde o início do grupo, estava ciente de que haveria uma seleção natural entre nós. Levamos alguns anos para perceber que quem articulava a natureza da seleção era o próprio pseudo-idealista e “verdadeiro socialista humanista” Paulo Sérgio (Dagomé). Aos poucos, essas artimanhas avançaram para questões financeiras do grupo e começamos a ver na gestão de projetos a escolha e a indicação direta de quem coordenaria gastos financeiros ou recebimento de recursos, sempre sendo pessoas diretamente ligadas e fiéis a ele.
             Os que discordavam destes pontos de vista, logo eram atacados por um texto reunindo todos os aspectos negativos da pessoa, falando de seus defeitos em forma de sátira, chacota e negando as virtudes desses companheiros. Tal prática atingiu a muitos de nós. Outra estratégia de Paulo sempre foi o isolamento. Aos descontentes, o ostracismo. Ninguém telefona, manda e-mail (se possível tira você da lista de e-mails mesmo), não convida para eventos, não quer seu serviço voluntário, nada. O companheiro é condenado ao isolamento.
              A outra linha de atitude mantida por este fundador do grupo — que aliás, diferente do que ele prega, não construiu o movimento sozinho — é a da relação pessoal e profissional nas nossas discussões. Na hora de conseguir os votos dos Radicais para quaisquer projetos ou apoio político a seus candidatos ou projetos politiqueiros da Administração Regional, o argumento era de que somos amigos. E se somos amigos, confiamos uns nos outros cegamente. Transparência zero! Não obstante, na hora em que os problemas surgiam, a imagem do grupo ante a sociedade estava à beira de ser destruída e nos levantávamos apaixonados para defender nossos ideais, sempre tinha uma voz, fosse de Dagomé ou de seu direto, Júlio Cezar Cavalcante, para dizer: “Vocês estão tornando a questão algo pessoal!”. Assim, paravam a reunião alegando não aceitar o acirramento dos ânimos. Ora, nossa militância é e sempre foi algo pessoal, não só por nossa amizade, mas porque não cabe um mero profissionalismo na construção de um movimento social como o nosso. Somos puro coração e arte, não profissionais “ongueiros”. Entendemos que Dagomé, sim, tornou-se profissional da manipulação. Ele aprendeu muito bem, assim como Júlio Cezar, a manipular a boa-fé das pessoas e tornar nosso projeto e militância cultural, que são quase um sacerdócio, em questões burocráticas. Pelo menos, quando interessava. E, assim, muitos de nós Radicais, excluídos de informações importantes dos processos vimos muitas coisas serem manipuladas de forma politiqueira em nosso nome. Não concordamos e nem mais aceitamos isto.
             É pena observar isto, mas a prova da forma negativa como este grupo que está saindo é o fato estarem tentando sabotar os que ficaram. Todo o conteúdo do blog dos Radicais Livres foi apagado. O blog era mantido por Daniel Pereira e Devana Babu, filho de Dagomé, foi apagado com as colaborações de muitos outros radicais e com registro histórico do grupo, contando com notícias e fotografias de várias de nossas ações. Tudo foi apagado. Nosso perfil do Orkut que também tinha vasta quantidade de registros das atividades da associação está inutilizado. Toda a lista de email do grupo também foi deletada. Isto foi um golpe que não era esperado pelos demais Radicais. Essas atitudes são uma clara demonstração da negatividade de que estas pessoas foram capazes. Esperávamos mais hombridade.
              Saibam que para todos nós a dor é imensa. Nunca estivemos juntos à toa. Somos o claro exemplo de que é possível fazer uma mudança social real na vida de nossas periferias. Para as pessoas que não sabem, somos um grupo de jovens e adultos que temos a vida dividida em duas partes. Antes dos Radicais e depois dos Radicais. A maioria de nós entrou no grupo por afinidade ideológica, artística cultural, outros apenas por curiosidade pelo processo que se iniciava. Hoje, somos capazes de construir processos bem maiores, com qualidade e grande paixão. A saída de uma minoria do grupo não nos diminuiu mesmo pelo seu reconhecido valor artístico. O que já andava apagado por tanta politicagem fez de nós capazes de um radicalismo e uma liberdade muito mais reais, pois aprendemos a dizer NÃO ao que não acreditamos e a posturas que não aceitamos. Hoje, podemos multiplicar o sentimento real de ser Radical e Livre, pois ser Radical Livre não é ser associado a uma mera ONG, mas é ter a postura de Radical Livre. E apesar de algumas pessoas do coletivo terem se desligado de nós, isto não acaba com nosso sentimento.
              Comunidade cultural do DF, nossos parceiros, amigos e companheiros, saibam que nossa luta e arte continuam vivas, em pleno processo de transformação. Continuamos de cabeça erguida, com o pensamento de um grupo em ascensão coletiva, onde não há autonomia individual e, sim, um projeto que vise o desenvolvimento cultural em um processo onde todos participem e transformem a sua sociedade. Assinado:

Os Radicais Livres S/A

Karla Ramalho; Vinícius Borba; Saulo Dias; Suelih Martins; Luiza de Sá; George Gregory Barcelos; Emerson Batera; Thiago Allexander; Cláudia Bullos; Mardônio Gomes; Denise Santos; Saulo Madrigal; Diogo Ramalho; Eduardo Marucci; Rokmenglhe Vasco; Wallasse Paulino; Raquel Viana; Dioheny; Jeferson Duprado; Talita Freitas; Josivaldo dos Santos; Keylla Tamyres

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