O Sangue do Pecado e do Martírio

Gabriel Rübinger
Ao estudar literatura nos deparamos com grandes escritores e seus grandes feitos, porém seria muito tradicionalismo apenas analisar assim um gigantesco e variado panorama chamado literatura. Não são apenas os “velhos escritores barbudos e de feitos grandiloquentes “que devem ser estudados, a internet nos presenteia com os escritores desconhecidos e que também possuem uma rica arte para ser propagada mesmo porque muitos escritores clássicos ganharam reconhecimento após a morte e outros simplesmente ganharam apenas fama e não o reconhecimento.
Aqui nesta coluna escreverei sobre a atuação do blog poesia retrô, o blog que presido juntamente com Gabriel Rübinger sobre a retomada de uma poesia com forte inspiração no passado. É muito conveniente afirmar que os poetas de hoje não têm um contexto assim como os grandes escritores clássicos, ocorre que há um contexto sim mas em desenvolvimento ainda, estudar o hoje é mais difícil porque consiste em estudar o presente. Quando estudamos a poesia medieval, por exemplo, estudamos uma época que já passou, portanto só mudaremos a visão sobre ela e não alteraremos os acontecimentos. Já o contexto da primeira década do séc XXI ainda está em formação, por isto, torna-se impossível fazer um registro muito preciso, o que se pode fazer é um panorama do que está ocorrendo e as referências literárias.
Abaixo, um soneto do mineiro Gabriel Rübinger:
Rosa de Sangue
Tu és uma rosa, uma cândida rosa,
Que do Éden brotou em uma sagração.
Uma graça proibida, áspide nebulosa,
Infinita beleza vinda em profusão.
Forma perfeita e pura, luzente, briosa,
Glosa do mais belo fruto da Criação!
Rosa grã e lasciva, ó ardente rosa!
Meu caminho errado, minha perdição…
Rosa de diamantes, brilhantes astros,
De milhares de faces, de ausentes rastros,
És um manto litúrgico embriagador!
Rosa sólida e frágil, vívida e exangue,
Em carne e amor, minha rosa de sangue,
Meu cometa errante, distante da dor.
Revisada em 16.09.2009.
Gabriel Rübinger
O título envolve rosa, uma flor muito cara no Ocidente e sangue, símbolo da morte e do martírio. Sangue é vermelho e espera-se que o vermelho apareça na descrição da rosa que, adversativamente como na terceira estrofe se declarará explicitamente, é uma rosa multifacetada o que a impede de ser apenas vermelha cor de sangue. Logo no início temos “uma cândida rosa” brotada do jardim do Éden, isto é, o paraíso onde o homem e a mulher pecaram pela primeira vez no mito da criação judaico-cristão. Sagração vem de sacro, algo sagrado, sagração é dedicar a Deus, palavra próxima de consagração. Mas a rosa também é uma graça proibida assim como o fruto proibido do Gênesis e também o eu lírico considera a rosa uma “áspide nebulosa”, tal como o animal que mostrou o pecado ao homem.
O contraste entre pureza e lascívia prossegue com os dois primeiros versos da segunda estrofe exaltando a pureza da rosa a ponto de julgá-la “Glosa do mais belo fruto da Criação!”. Mas os dois versos seguintes revelam a perdição do pecado, um desvio, o que não impede de haver um adjetivo (grã) que considere a rosa imponente. O uso do pronome possessivo no último verso do segundo quarteto é uma manifestação da função subjetiva, é algo que indica o eu, uma identificação e posse, é a perdição daquele eu lírico e talvez não seria a perdição de outro.
Já o primeiro terceto apresenta um contraste de multiplicidade X unidade. A rosa de sangue é multifacetada, é uma “Rosa de diamantes, brilhantes astros”. Porém no último verso do terceto em questão há uma única imagem distinta, a de um manto litúrgico embriagador. Aqui se reaplica o confronto entre pureza X pecado, a expressão “ausentes rastros” indica virgindade, pureza, ausência de manchas e manto litúrgico é algo religioso, portanto deve ser santo, mas o adjetivo embriagador forma o confronto entre bem X mal e fortalece o conflito interno do eu lírico.
O texto termina com mais oposição: solidez X fragilidade, vida (o sangue que existe na rosa) e morte (o adjetivo exangue que significa sem sangue, portanto morta), carne X espiritualidade (aqui a palavra amor como sentimento espiritual) e o grande tema do soneto: o contraste entre pecado e pureza expresso em “Meu cometa errante, distante da dor.” São Paulo diz que: “A morte é o salário para o pecado”, mas no soneto o cometa faz o eu lírico pecar e não sentir dor, não sentir a morte, portanto o que observa é a intensidade da dualidade.
O texto que acabamos de analisar é de autoria do adolescente Gabriel Rübinger, jovem residente em DF, mas nascido em Minas Gerais. Aqui percebemos um escritor infelizmente desconhecido por grande parte da camada literária, porém de grande talento e expressividade. O soneto de estilo retrô retoma características barrocas pelo exagero visual, pelo forte conflito interno e pelos contrastes abordados. Apesar das críticas que a poesia de sempre sofre, com certeza, Gabriel Rübinger e demais poetas contribuem para a pluriliteraridade atual ao retomar o passado clássico de nossa literatura. Ao ler o texto, o leitor ingênuo pensa ter lido um poema clássico, nem desconfia ser algo moderno. O contexto em que o soneto de Rübinger se encontra é o contexto da primeira década do séc. XXI, época marcada pelas grandes tecnologias, discussões ambientais, guerras químicas e outros fatores responsáveis por uma poesia distante do contexto atual.
Rommel Werneck











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