Município de Amarração
Comecemos fazendo o aleive com que as almas pequeninas procuram amesquinhar Amarração, apresentando-a sempre como o mais infecundo, o mais pobre, o mais incipiente dos municípios do Piauí.
Amarração é um dos mais fecundos e importantes municípios da terra de Mafrense.
Amarração é pobre porque as suas grandes riquezas naturais jazem abandonadas e esquecidas, como esquecidas e abandonadas jazem todas as grandes riquezas naturais do Piauí inteiro, e da maior parte do Brasil de norte a sul.
Atualmente, a sua principal indústria é a salineira.
Amarração é o único município do Piauí que produz sal, e o produz espontaneamente por obra e graça da natureza.
Encontram-se no município de Amarração dois lagos que produzem naturalmente, sem os curso dos artifícios humanos, referimo-nos aos lagos Sobradinho e Sant’Ana.
Ambos pertencem a muitos proprietários de terra nas datas Sobradinho e Sant’Ana.
O lago sobradinho tem uma extensão de 20 quilômetros, pouco mais ou menos.
A largura varia muito. Partes mais largas e partes mais estreitas.
Nos anos escassos de inverno, nas secas periódicas, flagelo aterrador, que de tempo em tempo nos açoita cruelmente, as águas do lago evaporam-se pela ação do sol abrasador e transforma-se então em uma salina colossal de onde podem ser retirados muitos milhões de alqueires de alvíssimo e precioso sal de ótima qualidade.
O lago Sobradinho fica situado a 18 quilômetros do porto de Amarração e a 30 quilômetros de Parnaíba.
Não é somente como produtor de sal que se distingue o maravilhoso lago: salienta-se também como viveiro de peixes de excelentes e variadas qualidades que são facilmente pescados.
O lago Sobradinho não tem comunicação com o mar, isto é, não recebe concurso d’água marinha, o que torna bem patente ser o sal que produz propriedade exclusiva do terreno; mas quando o lago enche muito transborda para o oceano, porém, a água do Atlântico não penetra no lago.
Nessa ocasião então entram para o lago grandes cardumes de peixes que constituem um colossal refrigério para os habitantes de sua circunvizinhança.
O lago Sant’Ana fica colocado entre os rios Ubatuba e Camurupim formando o primeiro a Barra da Timonha, e servindo de linha divisória entre o Piauí e o Ceará; o segundo a Barra Grande.
O lago Sant’Ana dista apenas 2 quilômetros do mar, ficando a igual distância da povoação Barra Grande.
Em formação de U o lago Sant’Ana, começando do norte para o sul. Estende um dos braços acompanhando o rio Ubatuba ou Timonha, e o outro o rio Camurupim, Barra Grande.
O lago Sant’Ana tem uma extensão de 6 quilômetros.
A largura forma uma média de 500 metros, sendo como o Sobradinho, ora mais largo e ora mais estreito.
No inverno, o lago enche com a água da chuva e concurso de pequeno regatos.
Como o lago Sobradinho, o Sant’Ana produz sal naturalmente, com a diferença que o Sobradinho não recebe o concurso d’água do mar e o Sant’Ana recebe, e produz mais sal ainda nos anos de abundante inverno.
A razão é a seguinte: no inverno rigoroso, o lago Sant’Ana enche e transborda, escoando para o mar todas as suas águas, que deixam em sua passagem um sulco profundo na terra, por onde, nas grandes marés de Agosto, penetra a água do mar que o enche novamente.
Quando as marés vão diminuindo, tapa-se com a areia o aludido sulco ou rego, prendendo a água necessária para produzir sal em curto espaço de tempo.
Feita esta operação em Agosto, já em Novembro, três meses depois, começa a coalhar sal, podendo ser colhido muitos milhares de alqueires.
O sal do Sant’Ana tem uma grande vantagem sobre o de Sobradinho – é ser muito mais curta a distância para os portos de embarque.
Enquanto o Sobradinho dista de Amarração 18 quilômetros, o Sant’Ana dista, quer do rio Camurupim, quer do Timonha, apenas 3 quilômetros, no máximo.
Ambos os rios oferecem bons portos de embarque.
O município possui ótimas terras, apropriadas para a cultura de todos os cereais, desenvolvendo-se regularmente a cultura do coqueiro, na zona do litoral.
A Comissão de Melhoramentos do Porto, criada em 1912, pela influência do então deputado, Dr. Joaquim de Lima Pires Ferreira, conseguiu a paralisação das dunas que tantos prejuízos causavam à vila.
Em 1922, o Presidente Epitácio Pessoa decretou a construção do Porto de Amarração, tendo efetuado a compra dos materiais precisos, dos quais grande parte esteve depositada em Amarração.
Infelizmente, esse melhoramento, que imensas vantagens traria ao Piauí, ainda não foi sequer iniciado.
A situação atual da vila não é próspera, o comércio está decadente, reina desânimo na população, já desiludida da construção do porto.
Este, porém, há de ser feito, hoje ou amanhã, o povo piauiense não pode prescindir desse melhoramento, do qual depende a sua grandeza futura.
E quando se converterem realidade essa sua formosa aspiração, a vila de Amarração, como a Fênix da fábula, ressurgirá de suas próprias cinzas, e se tornará uma das mais ricas e opulentas cidades do Piauí.
João Vieira Pinto, década de 20 (século XX)











Caros,
O impressionante é este texto da década de 1920 comentar que o presidente Epitácio Pessoa comprou materiais para o porto da Amarração. E, até hoje, 90 anos depois, nada…
É, este texto foi escrito na década de 20 e hoje (2010) quase um século depois, por incrível que pareça Luís Correia, antiga Amarração, continua do mesmo jeito; estagnada.
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