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A poesia de tudo

23 October 2009 5 comentários
Foto: amanaimages/Corbis

Foto: amanaimages/Corbis

Amanheci rima. Acordei com a música por baixo das pálpebras que soavam notas primas no seu lento desabrochar. Com a alma em harmonia, um simples lançar de retinas meu bastava para tudo se encaixar perfeitamente. Nota por nota, a vida tratava de unir até mesmo os desafinados. A madeira, apaixonada, debruçou-se sobre o machado e o trigo implorou ao joio mais uma chance de perdição. Era a valsa descontrolada do encanto que regia aquela louca dança das coisas do mundo.
             O cruel quebra-cabeça do universo dava face a suas peças, como Deus um dia fez com cada ser humano, ou, como pensam muitos, como cada ser humano todo dia faz com o Deus que carrega dentro do bolso lateral do Jeans ou pendurado no pára-brisas do carro. Às vezes penso que a minha fé vem da essência de um suvenir. Outras, que a força que vem do céu encontra pelo caminho certos guarda-chuvas de auto suficiência. Deve ser por isso que hoje amanheci com o coração em verso, para enxergar além das minhas próprias convicções. Na beleza. Na inconsciência.
             Lentamente, como o nascimento de uma estrela, fui cortando pequenos fragmentos de ar que repousaram durante a noite inteira sobre o meu peito. Meus pés procuraram um apoio no frio azulejo e a minha cabeça ainda não havia voltado a tona do sonho que tivera. Fui traçando uma odisséia contra os acordes da preguiça até a mesa de café e percebi que as xícaras, os talheres, os pãezinhos…absolutamente tudo se abraçava, combinando frases, cores, finalizações de estrofes e até mesmo o sabor peculiar que cada boca absorve.
             Sem a descartável necessidade de entendimento, percebi que teto e assoalho, retrato e moldura, telefone e silêncio e todos os outros atributos de um pequeno apartamento quase vazio e que abrigava um mundo inteiro, se fundiram para fazer acontecer a poesia de tudo. Até mesmo a água que saia do chuveiro quando tocava a minha pele era como se estivesse tocando o mais valoroso violino.
              Os mapas de macarrão, os quadros pintados pela poeira nos cantos sujos de arte, os filmes produzidos pela memória das quatro paredes do meu quarto e até mesmo o livro escrito pelos espelhos que vez ou outra eu arriscava encarar. A cadeira, o colchonete, o porta-copo e tudo mais que lembrava monotonia e tinha o cheiro de rotina preto e branco. As gavetas sujas e sem graça onde eu guardei todo o resto de vida enlatada e todas as lembranças encarceradas que um dia a vida teve a desonra de me propor habeas corpus. Tudo, tudo mesmo, se amontoava em poesia.

Até que o belo secou a lágrima
Até que a alma negou o belo
Até que o medo adormeceu a alma
Até que nada mais restou além de um pobre verso em silêncio…

Ithalo Furtado

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5 comentários »

  • leticia disse:

    este é um extimado amigo e um grande poeta a você meus parabens!! continue a escrver versos e poemas tão bom quanto este no dia que for celebridade lembre desta sua amiga e fã q agora vos fala, rsrsrs !!!

  • lyca disse:

    Lindooooo!!!!Ele pára tudooo qdo escreve…inclusive meu coração!!!!!Parabéns pelo talento que você tem…a sua capacidade de poetizar essa vida é sublime…Amo-te, não te esqueças!

  • Aline disse:

    Até que nessa cidade, concebeu-se esse talentoso poeta!

  • Izabelitha disse:

    Mais um poema lindissimo, cheio de vida e cores!

  • Bia disse:

    ownn, mas ta lindooooo, so podiaa ser do Gêmulooo
    Ta muito intenso e refexivooo
    ta muitooo boom

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