Parnaíba – Cartago Piauiense
Parnaíba é a grande paisagem sentimental da minha vida. É a voz longínqua de minha infância, a página mais viva da minha saudade, a memória mais velha do meu ser. Tudo, nela, me fala ao espírito – desde a sua velha Matriz, onde aprendi a rezar, até o seu velho Cemitério, onde aprendi a crer na eternidade… ele guarda os restos de meu pai – isto é, a parte mais profunda do meu coração e é nela que adejam, como sombras queridas, as figuras vaporosas dos meus primeiros sonhos.
Estou a vê-la, há vinte anos, toda clara e fresca, batida dos ventos atlânticos, cheio de sol e de juventude.
As ruas eram irregulares, como o destino dos homens. Havia calçadas largas, que desfecham, de súbito, em declives pedregosos e incertos. Uma areia fofa e branca lembrava o deserto. Ventos endiabrados brincavam, por entre essas dunas urbanas, como crianças travessas. Tropas de animais cargueiros traziam, no seu bojo, riquezas multiformes. De volta, levariam aos sertões piauienses os finos produtos manufaturados da Europa e da América. A cidade nasceu do comércio, como a Fenícia antiga. E, como a Fenícia, semeou outras cidades. Ágeis e laboriosos, os parnaibanos criaram uma civilização própria. Ao assinalarem a cidade, nos envelopes e papéis comerciais, eles diziam: “Parnaíba, Norte do Brasil”. Foi assim que Cartago começou…
A Igreja Matriz e a Praça que lhe é fronteira, revivem, na minha memória, com uma prisão fotográfica. Era em maio e as rosas floriam. O luar envolvia tudo, como num grande banho de prata. As vozes subiam do coro e parecia que Deus as escutava. Ondas de incenso escondia o levita, junto ao altar onde Nossa Senhora sorria. E, o espoucar dos foguetes no espaço era uma outra forma de oração, que o povo na praça entendia e amava…
As longas noites de inverno convidavam a ler e a meditar. Parnaíba sempre foi um estímulo à inteligência e um desafio ao coração. Ali, aprendi a amar os seus clássicos. Ali, ouvi o maior pregador da nossa língua - Padre Antonio Viera e o maior dos nossos filósofos – Manuel Bernardes. Foi lá que descobri o mais rico veio aurífero do idioma vernáculo: Camilo Castelo Branco. Muitas vezes, na agitação destes anos trabalhosos, senti, na alma, uma grande serenidade: era o silêncio das noites de Parnaíba que Deus me enviava como o emissário suavíssimo da juventude. Há momentos que ficam eternizados na nossa saudade. Alguns desses minutos de há vinte anos vivem dentro de mim – e, sem dúvidas, viverão mais do que eu…
Parnaíba jamais cometeu o erro de fazer do ouro a razão do seu destino e o fim de sua existência. O “Conta-Correntes” não era, no meu tempo, o único livro dos parnaibanos Antônio Freitas, R. Petit, Pires Rebelo, Alarico da Cunha, Édson Cunha… Versejam entre dois embarques de cera de carnaúba e, por entre pilhas de fardos de algodão, exploravam o próprio talento. A mesma Igreja Matriz era, como nos bons tempos de Roma, templo e oficina. O Cônego Melo Lula criara “A BOA SEMENTE” – o maior dos pequenos jornais católicos do Brasil. Ir a Parnaíba era descobrir, num celeiro opulento, toda uma família de pássaros cantores…
Da Parnaíba modesta da minha infância, o trabalho e o tempo fizeram uma grande e famosa cidade. Ademar Neves, Nestor Véras e Mirócles Véras pontilharam-na de jardins, calcaram-na de pedra, enrouparam-na à moderna, com todos os mimos da indumentária urbanística dos nossos dias. O milagre da cera transformou-a, dando-lhe não vulgar opulência. O comércio expandiu-se; a população duplicou-se-lhe. Maior centro comercial do Estado, Parnaíba corre parelhas com Teresina, no primor das atividades produtoras e na ousadia das construções ciclópicas. Foi ela a primeira cidade do Estado a ver o automóvel. Foi das primeiras a conhecer o telefone. No seu dorso fecundo assentou Miguel Furtado Bacelar o primeiro de trilho que já ornou a terra piauiense. Leônidas Melo – estadista que tem a alma humanitária de um clínico – vai dar-lhe água abundante e pura. Parnaíba tem a fascinação irresistível do progresso. Síntese e encarnação da alma nortista, esta pequena cidade comercial tem a beleza serena de uma lição e a eloqüência inconfundível de um exemplo…
Cidade mimosa de Deus, Parnaíba vai ter um bispado. A prosperidade não a faz esquecer os deveres de uma cidade cristã. Os seus magnatas trabalham seis dias e rezam o último… O domingo é uma pausa litúrgica no labor admirável dessa cidade, que deu ao Brasil, um dos maiores sábios – Oscar Clark – e um dos seus mais eminentes diplomatas – Frederico Castelo Branco Clark… É assombrosa a harmonia com que ela equilibra seu destino econômico e sua vocação espiritual. Um Bispo em Parnaíba é a simples consagração canônica de uma realidade antiga… Mais que simples cidade do Piauí, Parnaíba é o símbolo de um povo e o orgulho de uma raça. O nordestino ali se revê na sua prodigiosa capacidade de sonhar, construir e realizar. Povo de abelha, o piauiense tem, em Parnaíba a sua grande colméia, sonora e dadivosa. Não é preciso ir lá, para sentir a agitação fecunda das operárias aladas: basta conhecer-lhe a gente para provar, nos lábios, o gosto sagrado do mel…
Rio, Junho de 1941
Berilo Neves











Parabéns! pessoal do “O Piagui”
Gostei! Saudades!
Erna Bauer
Eu gostaria de saber todos os parentescos de mirocles campos veras para compor uma pesquisa particular. Muito obrigado antecipadamente.
Obrigado por ter mencionado Leonidas de Melo familia do meu avo.
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