Os Exterminadores
Prosseguindo com a série Entrevistas Históricas com personagens importantes da História da Parnaíba, vamos conversar com quatro figuras que, no anseio de tomar a terra dos índios para situar suas fazendas, praticaram um dos maiores genocídios da história da humanidade. Durante mais de um século, imprimiram aos indígenas uma guerra que chamavam de “justa”. São eles: Antônio da Cunha Souto Maior, Bernardo de Carvalho Aguiar, Manoel Peres Ribeiro e João do Rego Castello Branco.
O Piagüí: (ao ACSM) Como o senhor veio parar na Capitania do Piauhy?
ACSM: vim de Pernambuco, em 1697, para residir na fazenda Caraíbas, a dez léguas da barra do rio Canindé. Comigo vieram dois negros, que me serviam como ajudantes. Ajudei a escolher o local onde seria construída a igreja de N S da Vitória, na futura vila da Mocha, que seria, depois, a capital, Oeiras.
O Piagüí: e o senhor, BCA?
BCA: vim de Portugal, da vila Pouca de Aguiar, para a cidade do Salvador. Após receber a patente de capitão de Infantaria da Ordenança, fui combater os índios precatis, em 1690. Daí, deixei a família em Salvador, e passei, em 1691, para o Piauhy, onde fundei um curral em Cabeça do Tapuia, hoje, São Miguel do Tapuio. Em 1694, passei para as terras de Santo Antônio do Surubim, hoje Campo Maior, onde situei, com quatro negros, a fazenda Bitorocara, que ficou conhecida como Arraial Militar.
O Piagüí: e o senhor, seu MPR?
MPR: chequei de Portugal, e aqui na vila de N S de Monserrathe da Parnahiba, como sargento-mor, eu era a maior autoridade, pois a capitania do Piauhy ainda não tinha sido instalada. Vim a convite do sertanista de contrato, o baiano Pedro Barbosa Leal, fundador dessa vila, por volta de 1710, quando os temíveis tremembés faziam grandes estragos nos arraias do Norte da capitania, eles não queriam facilitar a instalação dos currais de gado.
O Piagüí: a mesma pergunta vai para o senhor, JRCB?
JRCB: eu nasci aqui, na vila de N S de Monserrathe da Parnahiba, vila também fundada por meu pai, que era administrador de fazendas do coronel Pedro Barbosa Leal. Na época, era muito perigoso residir por essas bandas, pois os nossos vizinhos eram os terríveis tremembés. Meus pais foram: o pernambucano João Gomes do Rego Barros, de importante família de Olinda, e a portuguesa Anna Castello Branco de Mesquita, filha do português tronco da família Castello Branco no Brasil, dom Francisco da Cunha Castello Branco. Fui criado vendo mortes e assistindo os índios arrasando as nossas plantações e matando o nosso gado.
O Piagüí: como se tornaram matadores de índio?
ACSM: fui nomeado pelo governador do Maranhão, João Barros da Guerra, para o posto de capitão-mor e mestre da conquista dos índios do Piauí e Maranhão. Em 1712, a guerra contra os nativos rebelados já tinha sido declarada e passei para o lado do Maranhão para subjugar os índios que se organizaram sob o comando do famigerado Mandu Ladino. Com uma tropa de índios que considerava sob minha autoridade, passei a sufocar os nativos das margens do rio Iguará, no Maranhão, mas fui traído por eles e pelo meu próprio irmão Pedro, que foi preso acusado de ser cúmplice em minha morte, de facinoroso e assassino. Os índios me sacrificaram no dia 12 de junho de 1712, ficando com minhas armas e munição de boca, tornando-se mais arrogantes.
O Piagüí: e o senhor, Bernardo de Carvalho Aguiar?
BCA: depois de subjugar e exterminar muitos precatis, na Bahia, recebi a patente de mestre da conquista do Maranhão e do Piauí, auxiliado pelo Francisco Cavalcante de Albuquerque, assumindo o lugar do Antônio da Cunha Souto Maior, morto pelos próprios índios. Antes de chegarmos à região do delta parnaibano, destruímos a tribo dos aranahys. A guerra se fazia cruel e sanguinária, tanto do lado do Maranhão, como do Piauí, onde os índios eram liderados pelo astucioso Mandu Ladino. Armamos uma cilada no delta do Parnaíba, e ele foi morto ao tentar fugir atravessando, a nado, o rio Igaraçu, na altura do Porto das Barcas. Sou considerado o fundador das cidades piauienses de São Miguel do Tapuio e de Campo Maior, onde ajudei a construir a igreja de Santo Antônio do Surubim, e de São Bernardo, no Maranhão. Recebi manto e cruz como cavaleiro da Ordem de Cristo. Carta de 16 de abril de 1730 comunicou o meu falecimento ao rei dom João V.
O Piagüí: e como aconteceu como o senhor, Miguel Peres Ribeiro?
MPR: como os índios não davam sossego aos colonos que queriam se instalar no litoral do Piauhy, fui convocado para dirigir os trabalhos de guerra de conquista desse território, com sede na vila de N S de Monserrathe. Em 1712, eles fizeram muitos estragos nesse arraial, e muitas fazendas foram destruídas. Mas, imprimimos um levante contra esses brutos e conseguimos subjugar alguns e exterminar muitos. Em 1716, consegui, junto com as tropas de Bernardo de Carvalho Aguiar e Francisco Cavalcante de Albuquerque, dar cabo ao Mandu Ladino. Mandu foi encurralado na ilha Grande de Santa Isabel, e quando tentou atravessar o rio Igaraçu, a nado, eu já estava de prondidão. Ele ficou na minha mira, foi fácil alvejá-lo com um tiro de bacamarte. Os outros índios ficaram loucos tentando resgatar seu grande líder, mas Mandu Ladino não respirava mais. Recebi os agradecimentos do rei de Portugal, dom João V. Mandu Ladino foi, segundo o escritor Carneiro da Silva, a mais autêntica expressão da resistência indígena à conquista e ocupação do solo pelos colonos. Daí, os índios perderam força, muitos foram exterminados, numa revolta dos índios contra os curraleiros do Norte do Piauí, que durou até 1721, e que ficou conhecida como Confederação dos Tapuias do Norte. Em 1728, retornei para minha terra, Portugal.
O Piagüí: já o senhor, João do Rego, é condenado por ser o maior matador de índios do Piauhy, não?
JRCB: vi muitas mortes de colonos pelos índios cruéis do litoral do Piauhy, na vila de N S de Monserrathe, o que me fez ter pavor e desejo de vingança. Em 1751, eu era cabo e fazia guerra contra os acoroaiz e os timbiras, matando e capturando a todos os que encontrava. Depois, fui combater os gueguês. Em 1758, ganhei a patente de capitão. Passei a exterminar incontrolavelmente os índios do Piauhy. Em 1760, com o seqüestro dos bens dos jesuítas, que foram expulsos do Brasil e de todo reino português, fui contemplado com a fazenda São Romão, que antes pertencera a Mafrense. Em 1762, o governador João Pereira Caldas recebeu ofício expedido pelo Ministério da Marinha Real, informando da declaração de guerra, da França e Espanha, contra Portugal. Nesse mesmo ano, o governador me autorizou a ocupar o delta do Parnaíba e defender o litoral da capitania do Piauhy, dos ataques dos aventureiros espanhóis e franceses. No litoral, comandei tropas com contingentes fornecidos pelas vilas da Parnaíba e Campo Maior, e que foram sustentadas pelos bois da fazenda dos herdeiros de José de Abreu Bacellar. No ano seguinte, Portugal e Espanha assinaram tratado de paz e findou a ocupação militar no delta do Parnaíba. Em 1764, empreendi novo ataque a tribo dos gueguês, onde matei muitos índios e os que subjuguei, os aldeiei no famoso aldeamento de São Gonçalo do Amarante. Esse aldeamento se rebelou e, eu e meu filho, Félix do Rego Castello Branco, marchamos contra esses índios, onde aconteceu grande matança. Depois de mortos, cortamos as suas cabeças e expusemos no topo de postes, no centro da própria aldeia, para que servisse de exemplo. Esse extermínio ficou para história, como o símbolo do genocídio das tribos piauienses. Em 1772, quando morava em Oeiras, parti de lá para combater os índios de Jerumenha, que haviam se levantado. Nessa época, eu era o oficial de maior patente na capitania do Piauhy, como tenente-coronel de Milícias. Em 1776, fui promovido ao posto de tenente-coronel comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Guarnição da Capitania do Piauhy. Depois, parti de Oeiras, para combater os índios pimenteiras. Fui muito cruel, matei índios, ferrei-os a fogo, violentei índias, sou responsável pelo o massacre dos índios acroás, jaicós, gueguês, timbiras, pimenteiras, gamelas e outros. Dizem que o homem tem que ser julgado à luz de seu tempo, mas os historiadores do Piauí escrevem me considerando “um matador de índios que ultrapassou, de longe, os limites de seu tempo”. Sou acusado de grandes atrocidades contra os índios deste estado. Hoje, o estado do Piauí não tem nenhuma reserva indígena.
Diderot Mavignier











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