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Maria Rezadeira

2 September 2009 Sem comentários
Caricatura: Mauro Júnior

Caricatura: Mauro Júnior

            Limitando, pelos fundos, com o quintal de “tia Pelonha”, estendia-se o da “Maria Padre”, ou, mais vulgarmente, da “tia Maria Rezadeira”. Esse era, porém, um quintal cheio, em que as ateiras se emaranhavam, e em que os mamoeiros precisavam esticar-se, para apanhar um pouco de sol. Galhos de laranjeira e cajueiro pulavam de vez em quando a velha cerca de troncos de carnaúba, para vir tomar fôlego na rua. E a pequena casa de telha, quase secular, essa mesma parecia empurrada pelas árvores, e de tal forma que os batentes de tijolos da porta iam acabar fora, na via pública.
            Era dessa porta estreita, e de uma folha só, escurecida pelo tempo, que saía todas as manhãs, madrugada ainda, “tia” Maria. Era uma pretinha miúda, carapinha branca, sempre muito limpa e cuidada na sua saia preta e no seu casaquinho de morim. Na ponta dos pés, arrastando-se no seu passinho apressado, as chinelas de couro. No pescoço, os rosários negros, de grandes contas, que pareciam justificar aquela inclinação do seu corpo, quase infantil, para diante. E, nas mãos, ainda, um terço, que, para não perder tempo, ia sempre debulhando mesmo pela rua, nas suas numerosas viagens quotidianas entre a sua casa e as duas igrejas da cidade, a Matriz e a do Rosário. Esta última era, todavia, por mais modesta e solitária, e por ser a do culto tradicional da raça negra no Brasil, a da sua predileção.
            A profissão de “tia Maria Rezadeira”, como seu nome está indicando, consistia em rezar. De manhã à noite, não cuidava de outra cousa. Todo mundo fazia promessa de orações; quem as pagava, porém, era ela. Rezava terços, rosários, ladainhas, prometidos pelos outros. E não cobrava nada por isso. Não fazia preço. Cada um dava o que entendia, ou não dava nada. Quando ninguém fazia contas diretas com o céu, para que ela as pagasse, fazia-as ela mesma. E desde cedo lá se ia, – cheque-cheque-cheque, – com a sua chinelinha arrastando, muito ligeirinha, rumo do Rosário ou da Matriz, espanar os altares, mudar as toalhas, guardar ou tirar dos pesados gavetões da sacristia os paramentos do senhor Padre, auxiliando o sacristão nesses pequenos serviços da casa de Deus, e fazendo, a cada passo, uma genuflexão diante de cada santo.
            Não obstante essa piedade toda, e a solicitude com que rezava por todo o mundo, “tia Maria Rezadeira” foi golpeada, um dia, fundamente, no coração. O único mestre de obras de Parnaíba, com honras de construtor, era o mulato Pedro Braga, que reunia a essa qualidade a de diretor e proprietário da única banda de música que a cidade possuía. Pedro Braga edificava os prédios, tocava clarineta, compunha dobrados, ensaiava os seus homens, conduzindo a sua filarmônica a batizados, casamentos, funerais, bailes e manifestações políticas. Pela manhã, porém, os músicos mudavam a roupa, e iam trabalhar em construções, cujas plantas eram levantadas pelo maestro. Por isso mesmo, casa que ele construía, tinha de cair pelo menos três vezes. Antes do terceiro  desmoronamento não era considerada segura. A nossa, que minha mãe fez edificar, nos Campos, pagou esse imposto com absoluta regularidade. Um dia, meu tio Emídio Veras mandou reconstruir o prédio em que funcionava a sua casa comercial da rua Grande, em frente ao Porto Salgado. As paredes haviam desabado apenas duas vezes quando lhe puseram a cumieira, e iniciaram a cobertura. “Tia Maria Rezadeira” tinha um filho, Manuelzinho, que era carpinteiro, e tocava pistão na banda de Pedro Braga. Trabalhava ele nas obras, quando começou a chover. Quando se construía um prédio ideado por Pedro Braga e principiava a chuviscar, a praxe era retirarem-se todos os operários, e ficarem de longe, esperando o estrondo. Manuelzinho, dessa vez, entendeu que não devia interromper o trabalho. De repente, um ruivo cavo e rouco anunciou o desastre esperado. Correram todos a ver de perto. Não ficara, de pé, uma coluna ou uma parede. Apenas um monte de tijolos, barro, caibros e telhas quebradas. E, sob os escombros, Manuelzinho com as duas pernas partidas.
            Não obstante a isso, “Tia Maria Rezadeira” não perdeu a confiança em Deus, nem deixou de rezar. Pelo contrário, passou a rezar mais ainda. E a correr para a igreja em hora ainda mais matutina, curvadinha para diante, a saia preta amarrada na cintura, o casaquinho de morim muito limpo, a carapinha muito branca, os rosários ao pescoço, o terço entre os dedos magros, muito ligeira no seu passo miúdo, a chinelinha de couro na ponta do pé – cheque-cheque-cheque…

Humberto de Campos, 1935

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