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Mandu Ladino

6 September 2009 2 comentários

Caricatura: Mauro Júnior

Caricatura: Mauro Júnior

              Prosseguindo com a série Entrevistas Históricas com personagens importantes da História da Parnaíba, vamos conversar com Mandu Ladino, índio guerreiro que reuniu mais de vinte tribos, contra os brancos invasores, usurpadores de suas terras e tranqüilidade. Mandu Ladino comandou uma revolta no Piauí, atingindo também o Ceará e o Maranhão, na segunda década do século XVIII. Essa rebelião ficou conhecida como Levante Geral dos Tapuias do Norte ou, Confederação dos Tapuias do Norte.

 

O Piagüí: Como a história que fica é a dos vencedores, pouco sabemos sobre a sua origem. De onde você veio?
ML: Na verdade nem mesmo eu sei de onde vim. Aqueles que escrevem sobre a minha biografia não se afinam quanto a minha procedência. Alguns dizem que sou tremembé, outros dizem que fui criado no aldeamento cariri de Boqueirão, dirigido pelo padre Lucé, da ordem dos capuchinhos, em localidade situada na capitania de Pernambuco. O certo é que perdi minha tribo aos doze anos de idade e meu nome de colonizado era Manoel.  

O Piagüí: Dizem que você foi educado por padres?
ML: Fui educado pelos capuchinhos do aldeamento do Boqueirão. Eram padres da Companhia de Jesus. Lá, sofri com as humilhações, depois de ter a minha tribo dizimada, e queimados os nossos objetos de adoração. Os padres afirmavam que nossas crenças eram cultos demoníacos. Na verdade, eles queriam nos juntar em aldeamentos, para que nossas terras ficassem disponíveis para os colonos criadores de gado. Como era muito esperto, me chamavam de Ladino.  

O Piagüí: Como foi a sua educação com os padres?
ML: Primeiro, me ensinaram a língua dos brancos. Depois me cristianizaram com processos rígidos e violentos. Não aceitávamos essa idéia de céu, e quando discordávamos, o castigo era o trabalho dobrado na roça, o aumento na vigilância, e outras punições.  

O Piagüí: Como conseguiu fugir?
ML: Certo dia, os brancos conseguiram dominar uma tribo, e com os irmãos índios prisioneiros, os padres e os mestres-de-campo trouxeram seus objetos, vestimentas cerimoniais, adornos e outros mitos para serem queimados. Antes que os objetos fossem jogados na fogueira, os índios do aldeamento se rebelaram, houve muita matança e foi morto o padre Martinho. Depois de atearmos fogo na capela, fugimos e conseguimos ganhar as matas. Seguimos rumo Oeste, sempre perseguidos, mas conseguimos chegar às terras dos tremembé, nos sertões do Piagüí, às margens do rio Longá. Mas fui novamente preso e vendido como escravo a um fazendeiro. Maltratado e feito escravo, juntei minhas mágoas às de outros irmãos índios que viviam sacrificados com a presença dos brancos instaladores de currais, nas barrancas do rio Paraguaçu. Juntei algumas tribos e começamos a flagelar o arraial da Parnaíba. 

O Piagüí: Que tribos você reuniu para fazer grandes estragos no arraial da Parnaíba, em 1712?
ML: Nessas correrias reunimos índios da tribo dos Anacês. A partir daí fomos perseguidos pelo mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, com ordens do governador do Maranhão, Cristóvão da Costa Freire, para que eu fosse eliminado a qualquer custo. A partir daí, a confederação foi se organizando e se juntaram as tribos dos Acariús, Guanacences, e outras até inimigas. 

O Piagüí: Como conseguiram matar Souto Maior?  
ML: Esse sanguinário mestre-de-campo foi traído pelos próprios índios de sua obediência e que comandava. Fizemos esses índios entenderem que lutavam contra irmãos. Além de Souto Maior, morto no dia 12 de julho de 1712, os índios sacrificaram toda sua tropa e o seu ajudante, o cabo Tomás do Vale. Neste episódio, culparam o irmão de Souto Maior, Pedro, acusado de ser cúmplice em sua morte. Daí, foi passado o comando dos massacres, deuma guerra chamada justa, para Francisco Cavalcante de Albuquerque, que se juntou ao capitão-mor Bernardo de Carvalho Aguiar, dono da fazenda Bitorocara, conhecida como Arraial Militar. Tornei-me a figura, quase lendária, mais procurada pelos brancos do Norte do Piauí, enfrentando a ira do governador do Maranhão, sendo obrigado a não permanecer por muito tempo acampado no mesmo local. Muitas atrocidades a mim foram atribuídas. 

O Piagüí: O que aconteceu depois da morte de Souto Maior?
ML: Os combates se tornaram mais violentos e os índios mais agressivos, passando a incomodar os colonos com mais hostilidade. Fazíamos ataque de guerrilhas, pilhávamos as fazendas, impedíamos a passagem das boiadas que seguiam para o lado do Ceará, e impedíamos os auxílios do Ceará destinados ao Maranhão. E assim, as notícias das guerras chegaram até ao rei de Portugal, dom João V.  

O Piagüí: O próprio governador do Maranhão lhe deu combate?
ML: O governador Costa Freire saiu de São Luís à frente de numerosa força, com o objetivo de nos castigar, mais com as nossas guerrilhas, seu propósito foi frustrado. Contra nós, vieram até tropas do Grão-Pará. 

O Piagüí: Vocês escaparam dos golpes de Carvalho Aguiar?
ML: Depois de luta, escapamos das tropas do capitão-mor Bernardo de Carvalho Aguiar, porém, este não nos dando cabo, descarregou sua ira sobre a tribo dos Aranis, com bastante crueldade. 

O Piagüí: Como foi a sua morte?
ML: E
stávamos na região do rio Iguará, no Maranhão, quando fomos atacados, simultaneamente, pelas tropas de Francisco Cavalcante de Albuquerque e do Bernardo de Carvalho Aguiar auxiliado pelo sargento-mor da vila da Parnaíba, Manoel Peres Ribeiro. Fomos encurralados no delta do Parnaíba. Sem opção, fui obrigado a me dirigir para o continente e pular no rio, onde fui fuzilado ao tentar atravessar a nado o rio Igaraçu, na altura do Porto das Barcas, pelo Peres Ribeiro, que depois ganhou graça do rei de Portugal. Apesar dos meus cinqüenta anos, conservava meu porte atlético e meu vigor físico. Ainda era capaz de percorrer, em marcha batida, cinco léguas por dia, e de disparar uma flecha certeira a uma distância de quatrocentos passos.  

O Piagüí: Hoje, você tem o reconhecimento do povo do Piauí, por ter sido um herói que lutou pela liberdade de nossa terra.
ML: Depois da minha morte, os meus irmãos do Piauí continuaram a ser massacrados. Para mim isto é terrível, pois não sobraram índios, os verdadeiros donos da terra que herdaram de Deus, não tomaram de ninguém. Quando os primeiros invasores chegaram à capitania do Piauí, relatavam que a terra estava deserta, mais cheia de nativos bravos. Para eles, índio não era gente, apenas um elemento indesejável. Não vejo glória em ser famigerado, nem herói, apenas queria de volta o meu povo, que era feliz nas ribeiras do Piagüí. 

Diderot Mavignier

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2 comentários »

  • Hênio Aragão disse:

    Triste é saber que a história do nosso Estado iniciou-se a base de sangue, em contrapartida… sinto-me muito feliz em saber que o Piauí é o berço de homens fortes que lutaram pela liberdade e pela paz! Parabéns pelo trabalho, Diderot!

  • barbara disse:

    muito interessante!

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