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180 anos de memória viva Simplício Dias da Silva (*1773+1829) – Parte I

14 September 2009 Sem comentários

Simplício Dias

Simplício Dias

              A linha do tempo já tinha cruzado a metade do século XVIII. A noite se despedia e o sol começava a dourar as primeiras cores do dia da pequena vila. Assustados, os olhos dos portobarquenses se dirigiam para o Porto Salgado a admirar aquele enorme navio, ancorado durante a noite, quando as estrelas ainda cintilavam. Nele chegava um dos maiores benfeitores de São João da Parnaíba do Porto das Barcas: Domingos Dias da Silva.
              Português nascido em Pardonellos, filho de João Dias da Silva, Vereador e Juiz Ordinário no lugar, e sua mulher Dona Maria Gonçalves. Em Portugal, gozava prestígio, tendo ocupado importante função na Índia, onde participou de guerras. Domingos veio para o Brasil instalando-se no Rio Grande do Sul, onde adquiriu fortuna. Transferiu-se para o litoral do Piauí, atraído pela família Silva Henriques, trazendo fortuna em ouro, moedas, obras de arte, cravando um marco decisivo na caminhada histórica da Vila de São João da Parnaíba. Com seu ouro, esse português iria fazer brilhar a história parnaibana.
              A natureza rebelde do Ceará com a Grande Seca fez eliminar seus concorrentes da produção de artigos vindos do gado bovino. Na década de 90 do século XVIII, ela matou os rebanhos restantes de gado, sacrificando as charqueadas cearenses instaladas nos estuários dos rios Jaguaribe, Acaraú, Coreaú e na Vila de Santa Cruz do Aracati, que já vinham sofrendo com as estiagens de 1777-1778, a Seca dos Três Setes. No apogeu dessa indústria, os Dias da Silva transformavam em couro e charque mais de 40 mil bois, que alimentavam o Brasil-Colônia e Portugal. Com cinco navios de sua propriedade, transportavam suas mercadorias pelos mares distantes. Dois grandes navios, entre eles o Nossa Senhora da Conceição Santo Antônio e Almas, levavam seus produtos para Lisboa e Porto, trazendo na volta produtos e novidades da Europa. Nossa Senhora da Conceição é padroeira de Portugal, e Santo Antônio, padroeiro de Lisboa. Em apenas um navio, os Dias da Silva levavam para Portugal o equivalente a 15 mil bois transformados em couros curtidos com a casca do angico preto, que fazia a melhor sola do país. Com negociantes privilegiados pela posição geográfica de Parnaíba, como João Paulo Diniz, Sebastião da Silva Lopes, os Silva Henriques, os Dias da Silva, os Veras e outros, a vila litorânea progrediu e liderou por largos anos o comércio piauiense.
             Domingos promoveu expressivas mudanças econômicas e sociais em Parnaíba. Com grande capacidade realizadora e comercial, construiu casas, igrejas e edifícios. Entre estes, a famosa Casa Grande da Parnaíba com o seu luxo asiático. No encontro de suas fachadas encontra-se o único oratório público do Estado do Piauí e um dos poucos do Brasil, construído sobre pedra de Lioz e vindo de Portugal, dedicado a Nossa Senhora da Conceição, a santa de sua devoção. A Casa Grande da Parnaíba construída por volta de 1770, com os grandes luxos da época, foi palco das reuniões sociais e políticas da Vila de São João. Com sua imponência e riqueza, sua fama ultrapassou as fronteiras da Colônia. Nela, os Dias da Silva recebiam personalidades importantes, sempre acolhidas com muita fidalguia, elegância, baixelas e faqueiros de prata.

Casa Grande da Parnaíba na esquina da Rua Grande com a Rua da Glória             No apogeu da prosperidade de suas indústrias, que cultivavam fama em toda Colônia, Domingos Dias da Silva, que já tinha constituído família na nascente Vila de São João, faleceu em 16 de Janeiro de 1793, repousando os seus restos mortais na rica capela do Santíssimo, na Igreja-Matriz, capela iniciada por ele em 1770 e terminada pelos filhos Simplício e Raymundo Dias da Silva, para os quais deixou fortuna, mas reservando um terço para obras pias, legados e confrarias religiosas. Na lápide de mármore que cobre o seu túmulo, consta ter sido ele o principal benfeitor dessa capela e por si tão somente construída, à custa de sua fazenda, como reza o Compromisso aprovado pela Rainha Dona Maria I. Para os seus 1.800 escravos e pobres da Parnaíba, contribuiu para construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na sua lápide está escrito: Dominicius Dias da Silva hoc jacet in tumulo parochia Pardonellos natus parnahybense oppido mortuus décima sexta die kalendas januarias anno Domini 1793 construit hanc aedem large quoque numerat illam perpetuo et tumulo morte cupit. Pode-se dizer que Parnaíba se promoveu na Casa Grande, na senzala e nas igrejas dos Dias da Silva. Razões não faltam para que Domingos Dias da Silva seja considerado – o benfeitor de Parnaíba.
             A partir de 1793, os destinos da Vila de São João começam a passar pelas mãos de Simplício Dias da Silva, um dos construtores do Brasil. Nascido em Parnaíba no dia 2 de março de 1773, filho legítimo do Capitão Domingos Dias da Silva e da mulata dona Claudina Josefa. Foi criado dentro dos padrões de riqueza que seu pai possuía. Sua fortuna apenas tinha rival em São Luís como a do comerciante maranhense, o banqueiro José Gonçalves da Silva, dono de grandes imóveis e propriedades agrícolas, contando com 1500 escravos. Tornou-se Simplício Dias, junto com o banqueiro maranhense, um dos maiores exportadores de gêneros tropicais do Brasil para a Europa. Simplício Dias estudou nas melhores escolas de São Luís, Maranhão.
            Em 1793, Simplício Dias foi nomeado Alferes de Cavalaria da Ordenança da Vila de São João e no mesmo ano foi promovido a Capitão. Ainda jovem, portador de grande inteligência, demonstrando inclinação para as lutas democráticas, Simplício Dias cruzou o Atlântico, e em Portugal foi estudar onde os moços ricos da época estudavam – Coimbra, a única universidade portuguesa que conferia diplomas de Leis, Medicina, Matemática e Cânones. Era para lá que iam os moços brasileiros ambiciosos pelo diploma de uma escola superior. Viajou pela Europa, sobretudo para Itália, Inglaterra e França. Estudando Leis, ali se impregnou das idéias da Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, de 1751. Conheceu as filosofias políticas de Voltaire, as lutas do Século das Luzes, iluminou-se com idéias liberais. De volta à sua Parnaíba, trabalhou com ardor pela promoção do Brasil. Fez Parnaíba ganhar de Dom Pedro I o honroso título de Metrópole das Províncias do Norte, por ter sido a Vila de São João a primeira do Norte a Proclamar a Independência do Brasil, em 19 de Outubro de 1822, hoje O Dia do Piauí.

Diderot Mavignier

 

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