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Tia Pelonha

17 August 2009 Um comentário
Caricatura: Mauro Júnior

Caricatura: Mauro Júnior

            Na pequena rua que liga a praça da Matriz à praça do Mercado, em Parnaíba, havia um resto de muro em pedra e cal, sustentando uma ligeira elevação do terreno. Sobre os escombros do muro, uma velha cerca de varas, arcos de barril, traves de madeira podre, pedaços de zinco, fragmentos de tábuas que o tempo devorara, estabelecia os limites de um quintal em que se erguiam mangueiras anciãs e entrelaçavam galhos de goiabeira sem idade. Lá dentro, por trás dessa arborização que peneirava a luz, esfarinhando-a na areia, uma casa de telha, antiquíssima, já sem reboque, o teto negro prognosticando desastre, portas e janelas sem pupilas, chão de tijolo, e que era, em síntese, menos um abrigo do que uma tapera. Dentro dessa casa, tia Apolônia, ou, melhor, tia Pelonha. E, em torno da casa, entrando e saindo, e guardando tia Pelonha, os seus vinte ou trinta cachorros.
            Tia Pelonha era uma das figuras populares de Parnaíba. Grande, máscula, suja, ossuda como Dom Quixote, a cabeleira grisalha e crespa alvoroçada para cima, a face cavada, fisionomia nervosa e severa, pés enormes e sempre descalços, marchava a passos largos e rápidos como um general que tivesse perdido o seu cavalo no começo da batalha. Na sua casa não entrava ninguém. Não ia, também, à casa alheia  senão para entregar alguma roupa lavada ou para prestar pequenos serviços de quintal ou de rua. E quando abria o velho portão entrelaçado de varas e tábuas e saía, era acompanhada de cães de todos os tamanhos e raças, que lhe formavam o séquito, trotando uns à sua frente, outros ao lado, outros atrás, enquanto os demais, sem a abandonar, se espalhavam em torno, ladrando e correndo, e irrigando às pressas todos os postes do caminho. De súbito, tia Pelonha emitia um grito gutural e surdo, sem voltar o rosto nem abrir a boca. E, de pronto, a canzoada acorria toda, fechando círculo de proteção à sua pessoa, como soldados que, na hora do perigo, viessem oferecer  a vida para defender o seu general.
            Tia Pelonha é uma das reminiscências mais graves da minha infância de menino vadio, e talvez ainda viva, com o mesmo aspecto atemorizante, na memória dos meus companheiros daquela época. Figura áspera de feiticeira, tipo autêntico de virago, não havia, entretanto, quem lhe dirigisse uma pilhéria ou soltasse um assobio à sua passagem. Jamais alguém penetrou no seu quintal para tirar fruta. Lá dentro, as goiabas amareleciam nos galhos, e viam-se, às sombras das mangueiras largas, as mangas apodrecendo no chão. Mas os meninos passavam de longe, encolhidos e silenciosos. Não se aproximavam, sequer, da cerca, por trás da qual a matilha corria e ladrava. Quando uma parte da cainçada saía, a outra formava pelotão, guardando a casa. E nada mais estranho do que o espetáculo dessa Diana suja, destacada nas páginas rotas de uma triste mitologia dos miseráveis, ao atravessar a praça da Matriz com a sua matilha ladrante. Ao vê-la à distância, os meninos que voltavam da escola enveredavam  pelos corredores, procurando agasalho. Molecotes que iam a algum recado dos patrões, davam meia volta e desapareciam, na carreira, nas ruas próximas. E tia Pelonha, magnífica na sua sordidez, a cabeça erguida, o passo de soldado que vai à guerra, se eclipsava ao longe, entre uivos e ladridos da sua devotadíssima guarda de honra.
            No peito murcho, e masculino, daquela mulher que havia perdido o sexo, batia, no entanto, um coração. Não tinha amizades humanas, nem sabia sorrir. Mas amava seus cachorros. Era para eles que trabalhava. Era para eles que vivia. O dinheiro que conseguia nos afazeres domésticos de que se incumbia, era para eles. Com os níqueis que recebia em pagamento de serviços, ia, com eles, todas as manhãs, aos açougues e comprava pedaços de carne magra, ossos e vísceras, com que os sustentava. Para isso, reduzia a sua própria alimentação ao mínimo. O seu almoço, e o seu jantar, eram constituídos unicamente por farinha de pipoca, preparada numa lata, no fogo que fazia à sombra das árvores. E com isso ia ficando cada vez mais magra, óssea, mais masculina, mas, sempre de rosto alto, o passo esticando o vestido curto e sujo, e seguida, por toda parte, da alegria sinistra dos seus cães. 

Humberto de Campos, 1935

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Um comentário »

  • Francisco Pelonha disse:

    Visitei o conteudo e fiquei interessado em saber a origem do nome-sobrenome pelonha. De e e quais suas raizes teremos algo em comum , somos da mesma familia..

    Abracos

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