O Fantasma do Sapatinho
Havia em uma pequena cidade do Maranhão dois amigos que se conheciam desde criança, eles se chamavam Laerte e Genival. Cresceram juntos e sempre que tinha festa na cidadezinha ou nos interiores os dois estavam lá, bebendo e se divertindo, até que um dia, ou melhor, uma noite, perderam o caminhão que servia de condução e tiveram de ir a pé pelas veredas escuras do interiorzinho, os dois bêbados caminhando com uma garrafa de pinga na mão e um se apoiando no outro no meio de um breu que não se via um palmo à frente do nariz… Foram conversando os casos amorosos e outras coisas de bêbados e a única coisa que se ouvia eram as suas vozes pastosas e os sapatos arrastando pelo chão de cascalho; às vezes se ouvia o vento bater nas plantações de feijão em volta da estradinha de terra, e a conversa ia animada, falando sobre mulheres e o caso que Laerte tinha com uma moça casada da região: o casal estava planejando fugir; e, logicamente, conversavam sobre a festa que ficava para trás, dentre outras aventuras até que ao dar um passo vacilante os dois caem e a garrafa de pinga se quebra. Levantam-se amaldiçoando Deus e o Diabo, um culpa o outro pela queda, começando assim a baterem boca. A raiva maior veio quando perceberam que a garrafa estava quebrada: eles se xingavam, se empurravam e ficavam naquela provocação. “Vem! Cai pra dentro!” Até que Genival “caiu para dentro” e começaram a rolar pelo chão. Genival, então, achou um pedaço grande de vidro da garrafa e cortou o amigo no pescoço, Laerte começou a sangrar muito e, percebendo a besteira que fez, Genival começa a abraçar o amigo e a pedir perdão, Laerte então diz:
– Eu volto desgraçado, pode esperar que eu volto!
Genival desesperado pega o amigo (que tipo de amigo mata o outro e ainda pede perdão?) no colo, tropeçando e caindo diversas vezes tenta levá-lo para casa, até que um pensamento lhe vem à mente… Como ele iria explicar a morte do amigo? Certamente não podia falar que foi ele que matou, iria preso, com certeza, e se falasse que foi um desconhecido? A polícia ia investigar e incriminá-lo uma hora ou outra.
Então resolveu dar um sumiço no corpo, levo-o até um grande pé de amêndoa e foi para sua casa buscar uma pá, logo que voltou (incrível como a adrenalina faz a cachaça desaparecer do sangue) cavou uma cova razoavelmente funda e jogou o que sobrou de sua amizade lá dentro.
Laerte ficou lá levando terra na cara até ficar totalmente coberto. Genival depois foi para casa e ficou a noite inteira acordado, as poucas vezes que conseguiu cochilar, tinha pesadelos horríveis com as últimas palavras que seu amigo disse, várias vezes ouviu seu amigo entrar no seu quarto falando: “Genival, estou aqui de volta!”. Mas tudo não passava de imaginação, ele nunca havia pedido tanto para o dia nascer. Amanheceu. Ele correu na casa de Laerte para saber se tudo o que acontecera àquela noite não foi um pesadelo. Chegando lá, bateu na porta e ninguém abriu. Foi até à casa da amante de Laerte e apenas encontrou o marido traído se lamentando pela fuga da mulher. Após crer que realmente tudo havia acontecido, resolveu aproveitar a oportunidade do sumiço da amante: agora tinha um bom argumento para o desaparecimento do amigo! Durante o dia tudo correu mais tranqüilo e Genival pôde ir ao trabalho como de costume, então, ao chegar ao serviço descobre que o pessoal da velha usina de sabão alterou os horários dos funcionários devido a um problema no maquinário. Ele iria deixar de trabalhar de manhã e passaria a trabalhar durante a noite, saindo da usina onze e meia. Voltou para casa a fim de dormir até a hora que deveria entrar deveras no trabalho e no percurso encontrou alguns amigos que lhe perguntaram por onde andava Laerte, ele, meio que tentando disfarçar o desconforto da pergunta, respondeu:
– Lembra daquela mulher casada que Laerte sempre dizia que andava “pegando” e tal? Pois é, parece que ontem de noite ainda logo depois que ele me deixou em casa, foi à casa dela e fugiram. Acho que uma hora dessa Seu Bastião deve está doidinho atrás da esposa fugida.
Os amigos riam e faziam comentários jocosos a respeito do novo corno da cidade e brindaram a Laerte que fugiu, escafedeu-se, com a mulher alheia. Genival tomou o rumo de casa e tentou dormir para compensar a noite mal dormida, o máximo que conseguiu foi pequenos cochilos com pequenos pesadelos; desistindo de dormir, foi arrumar-se para ir ao trabalho, chegando lá, tudo continuou tranqüilo, às vezes até se esquecia do que tinha acontecido na noite anterior. Ao dar onze e vinte cinco da noite, Genival já estava pronto para ir embora, ao pegar o caminho semi-iluminado que o conduzia para casa, começou a escutar passos que o seguiam, ele virou e não viu nada, continuou a caminhar e a ouvir passos, diversas vezes ele parou para ver se os passos que ouvia não seriam os seus próprios. Não eram, então, um calafrio subiu-lhe a espinha e o medo começou a tomar conta de seu espírito. Começou a correr, chegando logo à cidade, mas a luz não mostrava quem lhe seguia, só se ouvia os passos, então, escutou uma voz que lhe era familiar dizer:
– “Genival eu falei que voltava!”.
Genival ajoelhou no chão e pediu perdão aos prantos, os sons de sapato no calçamento foram ficando cada vez mais próximos. O fantasma de Laerte foi se materializando e de repente sumiu, Genival desmaiou e acordou no outro dia na porta de casa, entrou e ouviu os passos que lhe acompanhariam para o resto da vida, Genival ficou louco e vive a jogar pedras na lua nas noites em que ela está cheia, também costuma andar pela estrada onde matou o amigo. Diversas vezes ele foi encontrado no escuro da estrada conversando sozinho. Perguntado sobre com quem estaria conversando, ele prontamente responde:
– “Ora, estou conversando com Laerte não está vendo?”.
Genival ficou louco, mas nunca confessou o seu crime. Um ano após o sumiço, o seu corpo foi encontrado na madrugada com a garganta cortada na beira da estradinha que leva à velha Usina, nunca se soube se cometeu suicídio ou foi assassinado.
As pessoas que passam pela estradinha altas horas da madrugada costumam ouvir os passos de alguém que nunca pôde ser visto. Os que ouviram os passos que o seguiam apelidaram aquela assombração de fantasma do sapatinho.
Diogo Ramalho












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