Histórias de portos e órfãos (LIVRO PRIMEIRO)
Marujo dos Rios
Nunca se tinha visto tanta movimentação na humilde ilhota que ficava no meio do Delta do rio Parnaíba. As salinas estavam abarrotadas e o dono da Empresa Esniza tinha de entregar suas encomendas no prazo. O Capitão Chico Moura, que fazia o trajeto da Ilha de Igoronhon até Parnaíba, estava há dias que não via a sua esposa, Dona Rosa, grávida de seu terceiro filho; segundo a parteira da região, o que estava por vir era uma menina e ela poderia nascer a qualquer momento, com isso, Rosa e Chico já tinham escolhido o nome: Raimunda. O casal tinha um sonho: deixar a ilha de Igoronhon e se mudar para a Parnaíba, a princesinha do Igaraçu, onde vivia a família de Rosa. As duas filhas e a que estava por vir podiam crescer em um lugar melhor que aquele onde só havia na sua grande maioria homens funcionários de uma empresa. Na cidade as meninas poderiam estudar e ser alguém.
Chico Moura estava manobrando a lancha da empresa para a ancora – lá, quando “Bastião”, um menino de recado que morava ao lado da casa dele, veio correndo avisar que Rosa ia dar a luz. O capitão deixou o barco aos cuidados de Chico Pio e pulou dentro d’água, correndo para sua humilde casa. Chegando, ouviu o primeiro choro da filha Raimunda, a parteira abriu a porta do quarto e ele entrou. Vendo a esposa com sua filha deitada na cama se pôs a chorar de emoção, suas outras filhas entraram no quarto e abraçaram o pai, uma nova fase estava por vir na vida daquela humilde família.
Com o nascimento de Raimunda, crescia o desejo de Chico mudar-se para Parnaíba. 1956 tinha sido um bom ano para o marujo dos rios, haveria uma promoção na empresa e todos sabiam quem era o provável escolhido para ocupar o cargo de administrador da fazenda, que era sede da empresa, Francisco Moura. O cargo era de confiança, tinha de levar o dinheiro que a empresa arrecadava para Parnaíba e outra parte para Tutóia; o último funcionário, o “Seu Vicente”, foi pego desviando os provimentos da empresa.
Como sempre acontecia, a inveja tomou conta de alguns funcionários que almejavam o cargo que até então seria oferecido a “Seu Chico”, falavam que ele dava carona a alguns ribeirinhos até cidades próximas e isso atrapalhava as viagens; falavam que seria perigoso, pois ele poderia ser assaltado. Realmente ele dava carona, mas nada que atrapalhasse seu caminho. Não dava carona para qualquer um, só para pessoas de Igoronhon que precisavam ir até outros vilarejos ribeirinhos, embora existissem inúmeros falares, de nada adiantou, no dia 20 de outubro as portas do escritório ficaram fechadas, por uma hora, e, lá dentro, estava Durval, o chefão da empresa, e Chico Moura. A conversa foi tensa, Durval queria ter certeza que escolhera a pessoa certa para o cargo. Depois de tantas recomendações, foi oficializado o que todos já sabiam: o capitão era o novo administrador da fazenda. Logo que saiu da sede foi em casa para contar a novidade à Rosa e também para às três filhinhas. Raimunda completava dois meses e as coisas estavam cada vez melhores. As filhas mais velhas, Antônia e Zélia, estavam grandinhas e já iam começar a freqüentar a escola da empresa. Com o novo cargo, Chico Moura viajava frequentemente para a cidade, quando estava chegando no Igoronhon ele tocava o apito da lancha e suas duas filhas corriam para buscá-lo, e contavam histórias de suas brincadeiras e de que sua mãe havia brigado com elas sem razão, claro que não era verdade, as meninas eram um tanto quanto sapecas e corriam soltas por toda a ilha mexendo com os animais e subindo nas árvores, Rosa, cuidando de filha pequena, não podia ficar correndo atrás das outras duas filhas, então queria elas por perto; quando Chico ia saber o porque de Rosa ter brigado com as meninas, ela já ia logo avisando:
– Se as meninas já foram falar que eu briguei com elas, eu briguei mesmo e o senhor, “Seu Chico Moura”, se achou ruim faça um colar com elas e as leve no pescoço.
Eles riam e tudo ficava bem, Rosa e Chico eram só amor. As meninas tinham a sensação de morar no paraíso, afinal, nunca saíram de lá e aquela ilhota era o mundo inteiro.
Capitulo II
“Enquanto os funcionários dormem”
Igoronhon era um lugar para lá de tranqüilo, todos se conheciam: compadres e comadres. Grande parte da população da ilha era de homens, e, como sendo uma ilha de salinas, muitos trabalhadores de fora formavam pequenos arraiás – pequenos alojamentos para dormirem. Eram mais de cinqüenta homens e cada alojamento, várias noites, era assombrado por um estranho ser que atendia pela alcunha de “Casca Grossa”; ele nunca era visto andando por entre os alojamentos, entrava em um e escolhia uma vítima, ou várias, e então introduzia um sabugo de milho e sumia. Os outros trabalhadores acordavam assustados com os gritos dos colegas de trabalho, muitos já tentavam montar guarda, em vão. Os que ficavam de sentinela eram atacados ou nem chegavam a ver o tal ser, só ouviam os gritos desesperados dos colegas. No meio de tantos trabalhadores um, em especial, se destacava, era Henrique, que tinha ficado de guarda àquela noite… Só viu o vulto de alguém passando por entre os alojamentos, ninguém sabia ao certo o que era ou quem era o “Casca Grossa”, acreditava-se que seria a alma de um índio que vagava por lá, pois na época do desbravamento das ilhas do Delta do Parnaíba muitas tribos foram dizimadas, a partir de então, muitas assombrações que apareciam eram atribuídas a este fato. Henrique chegara a pouco tempo na ilha e já ouvira falar das lendas do lugar. Ele não tinha demonstrado medo, afinal era paraibano brabo, de Conceição do Piancó, que fugiu de sua cidade e achou em Parnaíba a oportunidade de começar vida nova trabalhando na “Esniza”. O trabalho era pesado, quando acabava o serviço, antes de ir para o alojamento, jogava baralho com os amigos na bodega do velho Simão e de lá ia conversar fumando um “porronca” com seus colegas.
Henrique era jovem, alto e forte, tinha o rosto moreno do sol, era um homem de poucas palavras, mas gostava de trocar algumas palavras antes de dormir. Nessas conversas ouvia histórias do “Casca Grossa” e outras como a do poço encantado que havia do outro lado da ilha, onde se podia ouvir alguém pedir socorro. Às vezes ouviam-se gritos desesperados, mas poucos tinham coragem de passar perto, os trabalhadores faziam apostas para saber quem era capaz de ir pegar um balde de água durante a noite e poucos corajosos se atreviam, Henrique já participara de uma aposta e trouxe o balde de água, mas, segundo disse aos companheiros, sentiu algo, para ele, raro: medo.
Uma noite estava Henrique e seus companheiros sentados do lado de fora do alojamento, conversando sobre “causos”, então começaram a prosar de um poço que havia do outro lado da ilha onde ninguém tinha coragem de pegar água, dificilmente alguém chegava perto de lá, Henrique, desconhecendo a história, falou que gostaria de ir ver ou, melhor, ouvir pessoalmente, só acreditava vendo, então se fez a aposta: cada um pagaria uma dose de pinga quando ele voltasse, apenas Manoel e “Mundico” apostaram na vitória do paraibano, assim, deram a ele uma corda e um balde e levaram-no até boa parte do caminho. A luz da lua clareava a vereda, chegando em um ponto, seus colegas ficaram e Henrique seguiu sozinho, andou alguns metros a mais e viu o poço. Foi chegando cada vez mais perto, quando, de repente, ouviu um barulho vindo do fundo daquele destino, como se alguém estivesse se debatendo dentro d’água, imaginando ser algum bicho qualquer, continuou, foi quando, novamente, ouviu o primeiro grito: “SOCORRO!”; aquilo fez Henrique gelar o corpo, mas continuou andando, quando estava a três passos de alcançar a beirada do poço o grito foi mais estridente e desesperador: “ME TIRA DAQUI! SOCORRO!”. Henrique ficou então paralisado com o balde e a corda na mão, não sabia se continuava com aquilo. Juntou forças e coragem, chegando à beirada do poço, olhou para baixo e viu a silhueta de uma pessoa, logo, os gritos aumentaram: “ESTOU VENDO VOCÊ, ME TIRA DAQUI!”. Dizem que um jovem por acidente teria caído no poço ao que morreu afogado. Seu espírito não aceitou a morte e sempre pede ajuda para sair. Quando Henrique ouviu que a visagem estava vendo ele, pensou em recuar e ir falar com os amigos que não tinha tido coragem, mas em um segundo momento achou que poderia continuar. Jogou o balde e o ouviu bater na água, de repente, sentiu um puxão forte na corda que quase o fez soltar, os gritos continuavam aumentando e não paravam mais: “ME AJUDA! ME TIRA DAQUI, EU VEJO VOCÊ”. A visagem questionou: “Você não vai me tirar não? Então vai ficar comigo!” A corda começou a ser puxada e Henrique, já morrendo de medo de ir parar no fundo do poço, puxou o balde com toda força que pôde. Conseguindo tirar o obejto do poço, os gritos continuaram e Henrique correu o mais rápido que pôde, deixando a gritaria para trás, chegou a se perder pelo caminho, até que encontrou os amigos. Mostrou o balde. Quase toda água havia derramado pelo caminho, mas ainda tinha um pouco para provar o feito, os amigos lhe saudaram e foram pagar a aposta na bodega do Simão; lá, Henrique contou tudo o que se passou, até do medo que sentiu em ir parar no fundo do poço, mas os mistérios da ilha não paravam por aí, por todos os cantos existiam mistérios inexplicáveis… existem coisas para qual não há explicação!
Capitulo III
Um encontro importante
Era final de novembro. 1956 estava quase no fim e o comércio de sal na ilha. Os pedidos estavam sendo entregues no prazo e tudo graças ao Chico Moura – seu Durval estava orgulhoso da sua escolha.
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Agosto de 1957. Na casa dos Moura a comemoração era modesta, só a família mesmo, um bolo de fubá e grapette. Antônia, a filha mais velha, ajudou a preparar o bolo, ela tinha apenas seis anos, mas fazia questão de ser prestativa. Chico Moura chegou com uma boneca de presente para Raimunda, todos cantaram parabéns e comeram do bolo e depois foram ouvir a novela no rádio, as meninas logo foram para a cama dormir, amanhã seria um novo dia. Zélia tinha cinco anos e estava com a mania de comer terra, vivia doente da barriga. Dona Rosa já havia feito o diagnóstico: verme; o remédio era óleo de Rizo. Era uma gritaria, Zélia corria por toda casa. Não queria de jeito nenhum tomar aquele óleo horrível, mas Dona Rosa era rápida e, com a ajuda de Antônia, pegou Zélia, levando-a para tomar banho de rio, lá, lhe deu uma bela colherada, que fez a menininha ter enjôos. Rosa advertiu que se ela vomitasse, iria tomar outra colherada; temendo isso, engoliu tudo. Antônia riu e também bebeu uma colherada, para prevenir.
Havia passado um ano que Raimunda nascera, Rosa e Chico com todo aquele amor tinham uma leve suspeita: Rosa estaria grávida de novo; já fazia uma semana que a menstruação não descera. Eles estavam muito felizes, queriam encher a casa de crianças, não importava se fosse menino ou menina, a criança seria muito bem vinda. Chamariam a parteira para poder dar certeza de que Rosa estava realmente grávida. Chico andava preocupado com os funcionários da empresa, o Casca Grossa havia atacado quatro funcionários numa noite só; muitos queriam vingança, outros, descobrir como se fazia para banir a assombração daquela ilha, então Chico resolveu falar com os funcionários. Saiu de casa direto para o alojamento dos trabalhadores, pegou carona no jipe da Esniza que era guiado por “Seu Amaral” – os dois conversaram bastante sobre as aparições do Casca Grossa e chegaram à conclusão que dificilmente conseguiriam se livrar de tal assombração –, chegando perto do alojamento, Chico saltou do carro e Amaral seguiu seu caminho, quando foi chegando viu um rapaz jovem, moreno e forte se organizando com os outros trabalhadores para não acontecer novos ataques, o capitão então se aproximou do jovem e perguntou seu nome, era Henrique que estava ali na frente do Capitão Chico Moura, eles se apresentaram e Seu Chico pediu para conversar uns instantes. Sentando-se nos tamboretes que ficavam do lado de fora, a conversa começou com a preocupação de Chico Moura: queria dar um jeito naquilo; Henrique estava nos últimos tempos com o status de chefe dos trabalhadores por sempre está organizando a rotina e as tarefas dos funcionários, todos já tinham ouvido falar do jovem, só não sabiam por que ele estava tão longe de casa e por que ele nunca falava de sua família, de sua vida… assim, ele expôs sua preocupação em relação à visagem e Chico Moura prometeu que resolveria o caso de qualquer forma, logo, os dois se levantaram e apertaram as mãos – mal sabiam, mas ali era o início de uma grande amizade.
Capitulo IV
E o tempo passa devagar
Chico Moura caminhava em direção ao porto, o caminho de calçamento coberto de areia fina fazia sua botina fazer um rangido estranho que só se ouvia em Igoronhon. Filomena, a parteira da vila, acabara de sair da casa dos Moura e no meio de seu caminho encontra nosso herói, então, parou Seu Chico, cumprimentou-o e contou a novidade: realmente Rosa estava grávida de um mês; um sorriso brotou no rosto do capitão que não prestou atenção na conversa da parteira, ele apenas se despediu e foi para o porto pegar a lancha rumo a Tutóia . Nesse mesmo momento outra lancha chegava ao porto trazendo um grupo de dez novos operários, entre eles um senhor de chapéu, de poucas palavras, de feições enigmáticas… Durante a viagem não falou uma só palavra com os outros passageiros que interagiam uns com os outros; era um homem misterioso, estava na ilha para realizar uma missão que iria mudar a vida de muitos moradores da vila.
Henrique, com o dinheiro que vinha conseguindo economizar, deixou os galpões do alojamento e mudara para uma casa próxima à igrejinha de Santa Rosa de Lima, religiosamente, às cinco da manhã, ele saia de casa e ia juntar-se a seus companheiros de labuta, ajudando a organizar os trabalhadores, cada qual para seu determinado serviço, esse talento para líder chamou a atenção de Seu Chico e de Durval, que ficara de arrumar um cargo para Henrique; quando Chico Moura chegasse de Tutóia isso seria conversado, enquanto isso o capitão seguia pelos igarapés cheios de guarás vermelhos voando de um lado para outro, coisa como essas poucas pessoas podem apreciar, de um lado da margem, o mangue com suas raízes aéreas cobertas de lodo, do outro, o mangue começava a dar lugar a um pequena duna que destoava do resto da paisagem, às vezes se podia ver um golfinho ou uma lontra, no fim do dia as garças costumavam fazer um show, e o céu ficava dividido entre as garças brancas e os guarás vermelhos, nesse espetáculo da natureza, entre o vai-e-vem da lancha que se desviava dos bancos de areia, pelo caminho o tempo passava devagar e quando menos se esperava a lancha chegava a Tutóia.
Capitulo V
Um escudeiro para o Capitão
Chico Moura vendo a lua já alta no céu percebeu que não conseguiria voltar de Tutóia a tempo, a maré estava baixa demais para arriscar, então resolveu dormir na cidade, nas proximidades do porto, no escritório da Esniza, que sempre tinha um quartinho nos fundos para esse tipo de ocasião; enquanto isso, na ilha tudo corria bem. Como de costume, os dez funcionários que chegaram se instalaram nos alojamentos incluindo o senhor misterioso de chapéu que enfim abriu a boca, Mundico veio dar boas vindas aos novos companheiros de trabalho e cumprimentou, em apertos de mão, cada um, e perguntou pelo nome dos novatos; quando chegou ao senhor de chapéu, esquivou-se. Arrependido do feito estendeu-lhe a mão dizendo: – Prazer sou Dimitri! Depois se virou e arrumou a cama enquanto todos conversavam do lado de fora em volta de uma fogueira. Dimitri estava sentado, só, dentro do galpão e limpando às escondidas dois revólveres calibres 38, ele repetia baixinho as ordens que recebera. Qual seria o propósito de Dimitri?
Era noite, as estrelas pareciam mais brilhantes que nos dias anteriores, Filomena estava dentro de sua casa, as horas passaram e ela nem se deu conta de sua janela aberta, o relógio batera meia noite quando estava a tricotar, então, se levantou e foi à janela. Ao chegar, olhou o céu e parou admirando um pouco a beleza daquele firmamento. Ela olhava distraída quando de repente ouviu um relinchar de cavalo bem próximo, baixou a vista para ver quem era, foi quando viu à sua frente um cavalo negro com um cavaleiro de roupas escuras e com dentes de ouro. Sem pestanejar, fixa no cavaleiro, o viu abrir a boca soltando uma labareda de fogo. Filomena soltou um enorme e estridente grito e caiu ao chão, desmaiada. Enquanto isso, em outro local da ilha, um dos guardas entrava correndo no alojamento anunciando que a casa da fazenda estava pegando fogo. Os trabalhadores se levantaram rápidos com a urgência, pegando baldes e mangueira, ao longe se via as labaredas e gente correndo para apagar o fogo, e quando chegaram perto da casa, o lugar estava em seu mais perfeito estado. Seu Durval acordou com tamanha movimentação na frente de sua casa e saiu à porta, viu um grupo enorme de trabalhadores com roupas de dormir e baldes nas mãos, então, percebeu o que ocorrera: há muito tempo, quando a ilha foi desbravada, os índios a invadiram e tocaram fogo na casa, naquela mesma noite, os brancos mataram todos os índios que foram à ilha, desde então, uma vez ao ano a casa era vítima dessa visagem; explicando a velha história aos funcionários, Durval se despediu e agradeceu a atenção dos trabalhadores, cada qual surpreso foi voltando para seu alojamento e a noite continuou tranqüila.
Logo pela manhã, cedo, a sobrinha de Filomena acorda e se depara com a janela da sala aberta e sua tia ao chão, desacordada – depois desse episódio Filomena nunca mais foi a mesma.
Eram cinco da manhã quando Henrique adentrou o alojamento dos operários com um sorriso no rosto e com a mesma disposição de todos os dias, logo ficou sabendo da chegada de novos operários. Quando se encaminhou para o alojamento ao lado para dar as boas vindas, Amaral veio lhe passar um recado: Henrique estava sendo chamado na casa da fazenda por Durval; o jovem subiu no velho jipe laranja de Amaral e pegou o rumo da fazenda, no caminho, o velho lhe adiantou o que Durval queria, só para deixar o rapaz avisado que Chico Moura precisava de um ajudante e ele fora escolhido para o cargo, ele seria o escudeiro do Capitão.
Capitulo VI
Um amor para toda vida
O velho jipe alaranjado ia percorrendo as ruas sem muito movimento. Era cedo e não havia crianças para correr atrás do carro como acontecia geralmente; enquanto se dirigiam para a casa da fazenda, Henrique ouviu um horrendo grito vindo da casa logo à frente, uma linda jovem saiu correndo pedindo por ajuda, então ele pulou do jipe e abraçou a jovem que vira pela primeira vez, foi quando ela pousou a cabeça no seu ombro e chorou. Sem reação, Henrique a apertou com seus braços, um frio invadia seu corpo, estava sentindo aquela sensação pela primeira vez; depois de alguns segundos, que pareceu mais uma vida inteira, ele conseguiu, como que com num sussurro, perguntar o que estava acontecendo, e a jovem falou que sua tia estava morta na sala, Amaral já correra para dentro da casa, Filomena estava deitada no mesmo lugar onde caiu durante a madrugada. Amaral verificou o pulso e a respiração, ela estava viva, então a pegou nos braços e Henrique hipnotizado pelo perfume de flor que ficou em seu corpo depois do abraço da jovem desesperada, disse a ela que ficaria tudo bem e a conduziu até o jipe para levar Filomena até o Seu Arthur, médico da vila. No caminho, ele perguntou pelo nome da jovem que respondeu entre um soluço e uma lágrima: Bianka; o paraibano Henrique ouviu aquele nome e, como que automaticamente, falou o seu. Ela sentou no banco de trás do jipe, colocou a cabeça de sua tia no colo e foi acariciando os cabelos castanhos até chegar à porta do pequeno pronto socorro, uma casa de quatro cômodos que servia para as coisas de pouca gravidade. Seu Arthur permitiu que a moça ficasse lá enquanto examinava Filomena, Seu Amaral chamou Henrique em um canto e lhe lembrou que Seu Durval ainda o esperava, os dois se despediram do médico e Henrique ficou de passar por lá na volta e levar Bianka para casa, a moça concordou com um sim choroso.
O velho jipe pegou o caminho de paralelepípedos que levava à casa da fazenda, as crianças corriam atrás do carro laranja, velho, mas que era ainda de grande utilidade para Seu Amaral que já se livrou de muita estrada lamacenta. Chegando à porteira da fazenda, Henrique pulou de cima do jipe e foi pedindo licença para entrar na sala de Durval. A sala continha poucos móveis, apenas uma mesa envernizada, a cadeira acolchoada e uma mesinha de canto com duas garrafas, uma de Cajuína e outra de aguardente, além de três copos em cima de um pano de prato branco com o desenho de flores; as paredes da sala eram de um branco encardido com quadros de pinturas litorâneas e desenhos de Seu Durval ao lado da esposa, daqueles desenhos típicos da maioria das casas do interior do Nordeste. Havia uma única janela ampla que se podia ver as salinas ao longe e a rua de calçamento logo depois do pequeno muro, o patrão de pé, em frente à janela, e de costas para Henrique, mandou que ele entrasse e fechasse a porta, em poucas palavras disse que só não brigaria com ele pelo atraso por já saber da notícia, depois, foi ao assunto que interessava: queria lhe entregar o cargo de ajudante de Chico Moura; queria que seu funcionário estivesse lá, mas ele demoraria a voltar de Tutóia então resolveu não esperar, Henrique agora estava sendo promovido a auxiliar, tendo que, inclusive, fazer viagens à Parnaíba com Chico Moura. Depois da conversa, Henrique apertou a mão de seu patrão e foi atrás de Bianka, mal sabia ele que ela mudaria sua vida como contaria futuramente a um estranho em uma conversa em Parnaíba.
O ajudante do capitão só esperava a chegada de seu chefe para começar a trabalhar, enquanto isso, sem saber, a morte espreitava. Ele depois de deixar Bianka em casa caminhou em direção ao porto chutando as pequenas pedras do caminho, olhava para os lados como quem esperava algo, ele havia sentido um sentimento novo, seu dia havia sido um bocadinho agitado. Passou por pescadores e por meninos que transitavam perto do rio, escolheu um lugar calmo no cais e sentou mergulhando seus pés na água; olhando para o horizonte, seus olhos observavam as nuvens como se lá estivesse escrito o seu futuro, mesmo sabendo que muita coisa boa havia acontecido, algo de ruim estava por vir e ele sabia que precisava ser forte e que talvez o capitão seria uma peça importante para que ele conseguisse vencer o presságio, e o que ele havia deixado para trás. O sol aos poucos sumia no horizonte e as sombras tomavam conta da ilha do Igoronhon, amanhã seria um novo dia.
Diogo Ramalho












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