Adeus, Munguba!
Ao longe se ouvia “Naquela Mesa”, a voz inconfundível era a de Nelson Gonçalves. A música nem mesmo findara quando ao tempo de sua relutância contra o silêncio iniciara-se o rei Roberto Carlos (É preciso saber viver…). O ambiente era multifacetado, localizado num trecho que entrecortava a paisagem morta da cidade à margem alagada do Igaraçu e à humildade das passarelas do bairro Mendonça Clarck. No proposto, bêbados, ali, baixavam suas cabeças ante um e outro copo, mulheres sorriam vadias aos queixumes de seus parceiros, e, em variações de transeuntes, aquele inesquecível ser, misto de seriedade e simpatia, dava ouvidos aos pedidos de seus clientes.
“Recanto da Saudade” era o que se lia na rústica placa que descerrava uma viagem ao tempo, onde vitrola e “chiado” entoavam uma atmosfera especial àquele recinto, até, organizado: discos ordenados alfabeticamente, trechos de supostos poemas espalhados nas paredes em justaposição às mesas que recebiam de quaisquer lados as ondas sonoras de cada modinha ou canção brasileira; eram clássicos, clássicos os LP’s, diriam existir, inclusive, raridades – sem sombra de dúvida.
Ao fundo, os clientes disputavam a atenção de Augusto, afinal de contas era por ordem de pedido que ele colocava a vitrola para tocar… Talvez o Recanto da Saudade, que num passado não tão longínquo tinha o batismo de Munguba e a ordem de um dos mais afamados cabarés de Parnaíba, não fosse um bar de destaque, mas aqueles que o visitavam variavam das mais diferentes classes sociais, lá, desconsideradas pelo respeitado proprietário que não fazia distinção.
Eram intensas as noites que assista a tímida rua dos barqueiros. Contavam-se os casos ocorridos desde a sua origem aos dias da atual aurora… Tradição, instantaneidade factual! As raparigas que se envolviam ateavam fogo em seus próprios corpos como forma de protestar a um não justo amor; quartos e camas eram alugados e pagos pelas próprias prostitutas; a “tia” Vicença Alves, a maior cafetina da época, cuidava de tratar todas as suas “sobrinhas”, “enteadas”, da saúde às vestimentas, sempre preservando a boa imagem de seu ganha-pão. As doenças venéreas, que, por ventura, as “mulheres de perdição” contraíam, eram tratadas à base da penicilina e tudo voltava à devida normalidade.
Naquele tempo, década de 30, as festas não seguiam madrugadas adentro, encerravam-se por volta das 22h e, às vezes, chegavam às 23h; não que fosse moda, mas assim era o costume da época. O antigo salão, que servia de dança aos forrós patrocinados pela então proprietária, logo, após sua morte, nas mãos de seu esposo, virou recanto de cultura, dantes viam-se pinturas, trechos de cartas assinadas por eminências e poemas que Augusto fazia questão de destacar em pedaços de madeira… Em suma, todo aquele conjunto exaltava a alegria de se beber na Munguba.
Costumava nas noites de sexta-feira apreciar aquele lugar. Sempre bem atendido, debruçava-me em um canto especial do balcão que descerrava aquela rica discoteca; a posição era estratégica, dali, pouco a pouco, arrancava do Augusto histórias e curiosidades factuais sobre a Parnaíba de um tempo que não vivi; eu, entre goles, ele, entre passadas, contava-me como tudo acontecia… Parecia viajar em cada palavra e eu tentava acompanhá-lo em imaginação! Duas distintas saudades se manifestavam: a de quem viveu e a de quem queria ter vivido tudo aquilo!
Assim foi, por muitos anos, aquele pedacinho de vida “boêmica” na cidade de maior berço cultural do Estado. Para lá rumavam poetas, prosadores e intelectuais das mais diferentes modalidades artísticas. O encontro entre a Arte e Boemia parecia perfeito – na mais singela simplicidade. Porém, para infelicidade de todos, acometido de problemas graves de saúde, e deixando saudades nos mais variados e peculiares “mungubenses”, Augusto, o querido Augusto, foi-se, em sono eterno, para nunca mais voltar. Nesse dia a Parnaíba chorou. As memórias dos burros-de-carga e dos estivadores que contribuíram inicialmente com toda aquela bela história destoaram os mais doloridos prantos. Por inúmeros meses o Recanto da Saudade parecia não mais existir – e a rua não era mais a mesma!
Até que “Betinho”, artista plástico parnaibano, e filho do saudoso Augusto, tratou de dar continuidade ao trabalho do pai, inclusive, à moda augustiana: os vinis ainda dominavam; no entanto, sob o compasso do destino avassalador, a Munguba, a verdadeira, única e singular Munguba, que só aquele pai e filho sabiam projetar, se foi… Foi-se, então, o derradeiro resquício de peculiaridade que tinha, sem vinil, sem vitrola e sem os bêbedos sonhadores de outrora… Saudades, Saudades da Munguba que não volta mais…
Daniel C. B. Ciarlini













O tempo com sua caminhada sem pressa vai moldando um futuro que deixa saudade do que ficou no caminho.
Deixe um comentário